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Segundo pesquisa, nove a cada dez estadunidenses dizem que racismo e brutalidade policial são um problema sério

69% das pessoas acima dos 55 consideram como problema sério e a maioria dos entrevistados apoia reformas na polícia, mas se preocupa com ''corte de verbas''

22/07/2020 11:53

Vista aérea da Main Street, no centro de Fort Worth, Texas, com intervenção pedindo fim do racismo (Tom Pennington/Getty Images)

Créditos da foto: Vista aérea da Main Street, no centro de Fort Worth, Texas, com intervenção pedindo fim do racismo (Tom Pennington/Getty Images)

 

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Nove a cada dez estadunidenses acreditam que racismo e violência policial são problemas no país, de acordo com uma pesquisa do Guardian/Opinium, um sinal de que a opinião pública está se distanciando das visões reiteradas por Donald Trump.

O presidente estadunidense tem sido criticado por alimentar incessantemente o medo e ressentimento brancos nas últimas semanas, o que o coloca em conflito com os protestos anti-racismo do Black Lives Matter que varreram a nação depois do assassinato policial de George Floyd em Mineápolis em maio.

Mas a pesquisa da Opinium com 2.000 adultos estadunidenses, conduzida para o Guardian entre 19 e 24 de junho, sugere que Trump está fora de sintonia com o clima do cenário político.

91% dos estadunidenses agora concordam que o racismo é um problema nos EUA e 72% o consideram um problema sério. Similarmente, 89% pensam que a violência policial é um problema e 65% o consideram sério.

Essa opinião também abrange diferentes faixas etárias. Embora seja provável que estadunidenses mais jovens vejam o racismo como um sério problema – quatro em cinco (80%) – a visão é partilhada por quase sete a cada 10 (68%) das pessoas entre 35 e 54 anos e mais ainda (69%) entre as pessoas acima dos 55 – um grupo demográfico frequentemente associado com a base de Trump.

O presidente tem respondido às manifestações com animosidade. No mês passado, forças de segurança usaram gás lacrimogêneo para separar um protesto pacífico na Praça Lafayette do lado de fora da Casa Branca, para que Trump pudesse fazer uma sessão de fotos do lado de fora de uma igreja histórica. Ele defende a “lei e a ordem”, estátuas históricas e, dizem os críticos, um legado de dominação branca, enquanto denuncia “a esquerda radical, os marxistas, os anarquistas, os agitadores, os saqueadores”.

A pesquisa da Opinium descobriu que mais estadunidenses desaprovam do que aprovam a resposta de Trump aos protestos (47% vs. 31%). Isso é verdade entre Democratas registrados (75% vs. 12%) mas também entre independentes registrados (55% vs. 27%). Sete a cada dez (70%) dos que votaram em Trump em 2016 apoiam suas ações: 70% aprovam enquanto 14% desaprovam.

Os protestos do Black Lives Matter tiveram seu pico em 6 de junho com meio milhão de pessoas protestando em quase 550 locais nos EUA, reportou o NYT, e pode ser o maior movimento na história da nação. Ele incitou mudanças em todos os lugares desde conselhos corporativos, passando pela música country, por marcas alimentícias e times esportivos. Cerca de 60 estátuas confederadas foram removidas ou estão em processo de remoção, enquanto o Mississipi votou para remover um emblema Confederado da bandeira do estado.

Houve muito debate sobre se esse será um momento ou um movimento com um maior impacto do que os protestos do passado. A pesquisa da Opinium oferece um retrato. As pessoas de 18 a 34 anos estão mais otimistas de que o BLM levará a uma mudança real: 56% acreditam que sim, em contraste com os 44% da população em geral.

Os jovens estadunidenses são significativamente mais engajados no movimento: 73% das pessoas entre 18 e 34 anos tomaram algum tipo de ação em apoio em comparação com 52% da população em geral. Quase uma pessoa a cada cinco (18%) assinou uma petição em apoio ao movimento em comparação com uma pessoa a cada 10 (10%) da população geral.

Cerca de 9% saíram de casa para protestar, em comparação com 4% de todos os estadunidenses. E 12% das pessoas entre 18 e 34 anos foram inspiradas pelo movimento para checar seu registro eleitoral contra somente 6% da população em geral. Muitos estadunidenses demonstraram apoio ao movimento BLM nas redes sociais e entraram em contato com seus representantes governamentais pedindo por mudança: 14% em contraste com 3%.

Trump defendeu vorazmente a polícia, e a pesquisa encontrou visões contrastantes sobre essas defesas. Três a cada quatro pessoas (76%) acreditam que a maioria dos policiais é boa, mas que existem algumas “maçãs podres”. Mais de uma pessoa a cada 10 (13%) pensam o contrário – que a maioria dos policiais é ruim, mas que existem alguns bons.

Enquanto a reforma policial está estagnada no Congresso, a Opinium descobriu que as medidas mais apoiadas são: investigação de todo o uso de força fatal feito pela polícia (74% aprovam), banimento do uso policial de estrangulamentos (67%), disponibilização pública dos relatos sobre má conduta policial (66%), exigência do uso de desanuviamento quando possível (66%), exigência do uso de forças alternativas à fatal quando possível (59%).

Alguns ativistas pediram pelo “corte de verbas” da polícia, embora esse termo exato tenha sido contestado, e tenha sido explorado por Trump para aumentar o medo de que os Democratas e seus aliados permitiram o aumento dos crimes violentos.

De acordo com a pesquisa, uma pessoa a cada quatro (24%) diz que concorda com o “corte de verbas da polícia” e mais da metade (58%) discorda. Uma a cada três (32%) diz que aprova o redirecionamento da verba dos departamentos policiais para a educação e saúde e programas sociais e comunitários.

Analistas fizeram comparações com a agitação de 1968. Estadunidenses estão divididos sobre se líderes antigos pelos direitos civis estariam orgulhosos desse movimento atual e dos protestos recentes. Cerca de 39% pensam que Martin Luther King não ficaria orgulhoso, enquanto 36% pensam que sim. Os cidadãos estão mais confiantes que Malcolm X estaria orgulhoso desse movimento: 39% dizem que sim e 20% que não.

A pesquisa foi conduzida online e ponderou representar a população adulta dos EUA de acordo com demografia, educação e comportamento eleitoral passado.

Entre as pessoas que dizem estar registradas para votar e certas de fazê-lo em novembro, o ex vice-presidente Joe Biden lidera com 52% em comparação com Trump com 40% - uma liderança de dois dígitos refletida por outras pesquisas nacionais. Mais da metade dos cidadãos desaprova o trabalho que Trump vem fazendo como presidente, enquanto um pouco mais de um terço aprova (36%).

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares

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