Pelo Mundo

Segurança, neoliberalismo e patriarcado: a bolsonarização da Argentina

A aposta no ódio como recurso político tem na degradação da sociedade o seu principal objetivo. O macrismo usa essa estratégia para manter seu projeto de implantação do modelo neoliberal

08/01/2019 19:15

 

 
A ministra de Segurança da Argentina, Patricia Bullrich, pretende impor um novo protocolo sobre o uso de armas de fogo por parte das forças policiais federais para casos de enfrentamento, promovendo o chamado “gatilho fácil”, uma medida que viola a Constituição e o Código Penal do país, tanto que foi declarada inconstitucional pelo juiz Roberto Gallardo. Esse regulamento acaba com o Estado de direito e se alinha com a doutrina da “liberdade de estar armado”, incentivando os uniformados a disparar contra civis com a segurança de isso não terá consequências em casos de equívocos ou abusos.

Se instalou um clima de final dos tempos, resultado da articulação entre o patriarcado e o neoliberalismo, que reforçou a crença de que a falta de segurança social se combate com força bruta e a imposição violenta da disciplina por parte do poder público. Assim, patriarcado e neoliberalismo se retroalimentam, com o primeiro implementando uma cultura organizada por uma ordem hierárquica machista, que favorece o segundo em sua tarefa de fortalecer a concentração de poder. Juntos, também promovem o abuso dos corpos e a submissão mediante violência.

A estratégia neoliberal consiste em administrar o terror através dos canais institucionais: estimular o ódio e a agressividade, criar uma atmosfera social viciada, amedrontando e oferecendo “segurança” em troca de suportar perdas de direitos e queda do padrão de vida. Armas psicológicas que também foram utilizadas pelo nazismo, e são retomadas hoje pelo neofascismo, com o objetivo de dividir, disciplinar e aprofundar a pilhagem da nação através dos negócios dos amigos do poder. Bullrich fala dos “delinquentes” ou do narcotráfico, mas seu real objetivo é estigmatizar os líderes sociais, sindicais, militantes da oposição e cidadãos que se mobilizam por seus direitos, mostrá-los como “inimigos do povo”, para atacá-los em nome da segurança.

Diante desse cenário, o jornalismo praticado pelos meios de comunicação corporativos se escandaliza e utiliza termos morais que parecem estéreis: “ladrões são maus”, “policiais são bons”. Sem bagagem teórica, utilizam frases desgastadas e estereotipadas, descrevem distintos delitos debatendo se é errado matar quando eles são cometidos por “pessoas ruins”. Promovem um sadismo descarado e impiedoso, a degradação, o sofrimento e a humilhação do próximo. Estão formando uma massa de telespectadores unida pela vingança e pelo ódio, criando um efeito que começa e a ser naturalizado no sentido comum e que conforma a substancialidade das crenças, significados, valores e preconceitos racistas. Através da repetição de imagens de identificação e da hipocrisia de uma sociedade desconfiada, se organiza um círculo vicioso: falta de segurança-ódio-preconceito-medo-violência.

A CEOcracia governante tenta transformar a república num reino onde impera a lei da selva, a qual afirmam que solucionará o problema da segurança através da lei do mais forte e da estimulação do ódio. Suas perspectivas e diagnósticos não são mais que categorias morais, que supõem exclusivamente um julgamento sobre o bem e o mal. Os especialistas em segurança sabem que a repressão, o gatilho fácil e o aumento das penas são ensaios já provados em outros países, e que não melhoraram a problemática da segurança. Combater o ódio com mais ódio costuma piorar o problema, não resolver.

O macrismo promove a instalação do discurso fascista do inimigo interno, visando despolitizar os movimentos sociais, numa tentativa de “bolsonarizar” a Argentina

O indivíduo neoliberal está preso a essas crenças, sem perceber que a licença para portar armas, matar e canibalizar o próximo, esse ódio irracional contra os semelhantes, no fim das contas terminará se voltando contra si. Os “remédios” propostos pelo governo e pala mídia, o ódio, a agressividade e o aumento do punitivismo – a judicialização do flagelo –, não só são ineficientes como também se tornam um veneno tanto para o sujeito como para a cultura. Devemos concluir que o governo macrista não busca soluções reais que permitam enfrentar a problemática social, e sim instalar a construção fascista do inimigo para despolitizar o social, “bolsonarizar” a Argentina e fazer campanha com o discurso da violência para combater a falta de segurança.

O problema da segurança deve ser enfrentado com o cumprimento das leis e com um Estado e instituições que, com decisão e amor político, estejam dispostos a escutar e buscar soluções para os sintomas sociais que se planteiam, que são a expressão do que acontece no mundo real. O amor é um conceito fundamental na psicanálise, e portanto é de vital importância inclui-lo na política. Freud afirma que a segurança sempre é fruto das relações: só pode ser alcançada através de um lugar de auxílio social, político e institucional, encarnado por um outro que seja capaz de escutar e dar amparo a um grito que expressa insegurança e necessidade.

Nesta crucial batalha cultural que o campo popular deve enfrentar, com a missão de desarticular a retórica sedimentada na insegurança e no ódio, desinstalar os preconceito que o poder patriarcal-neoliberal impôs, para possibilitar outros modos de laços sociais: menos machistas, mais amorosos, solidários e feministas

Não temos o direito de perder essa batalha.

*Publicado originalmente em eldestapeweb.com | Tradução de Victor Farinelli



Conteúdo Relacionado