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Senadora negra e ''jovem'': Kamala Harris, a perfeita companheira de chapa de Joe Biden

Os apelos para que o candidato democrata escolhesse uma companheira de chapa negra se multiplicaram desde o movimento de protesto contra o racismo e a violência policial desencadeada pela morte de George Floyd. Filha de imigrantes jamaicano e indiano, Kamala Harris acumula títulos de pioneira

12/08/2020 16:40

A senadora Kamala Harris durante um debate democrata em Atlanta, em 20 de novembro de 2019 (Nicholas Kamm/AFP)

Créditos da foto: A senadora Kamala Harris durante um debate democrata em Atlanta, em 20 de novembro de 2019 (Nicholas Kamm/AFP)

 

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Ex-rival e crítica virulenta no início das primárias: a senadora Kamala Harris da Califórnia foi escolhida na terça-feira (11), por Joe Biden, como companheira de chapa em sua disputa pela presidência, para desafiar Donald Trump em novembro. Antes dela, somente duas mulheres figuraram, na história norte-americana, em uma chapa presidencial, depois de Geraldine Ferraro em 1984 e Sarah Palin em 2008. Ela é a primeira candidata negra selecionada para representar um dos dois principais partidos naquele cargo. Se Joe Biden vencer, Harris se tornará a primeira vice-presidente mulher da América. Uma "escolha histórica", de acordo com Debbie Walsh, diretora do Center for American Women and Politics da Rutgers University, e "um sinal de que o futuro da política norte-americana não é o status quo".

Sucessora

Histórico, é claro, mas cuidadoso. Biden havia prometido na primavera escolher uma mulher como seu braço direito, na esteira das eleições de meio de mandato de 2018, que trouxe uma onda de novas eleitas, muitas vezes de minorias, ao Congresso. Consequência lógica, também, da formação inicial das primárias democráticas, mais feminino e diverso do que nunca. Diante do histórico movimento de protesto contra o racismo e a violência policial desencadeada pela morte de George Floyd no final de maio, surgiram pedidos para que Biden escolhesse uma companheira de chapa negra. Além de dar garantias ao eleitorado mais leal ao Partido Democrata - mulheres negras - a escolha de Kamala Harris, mais de vinte anos mais jovem, permite também rejuvenescer sua candidatura. Joe Biden, 77, será o presidente mais velho dos Estados Unidos a assumir o cargo em janeiro se vencer a eleição.

Esse foi, a propósito, um dos critérios admitidos no tedioso processo de seleção, ao qual se dedicou uma equipe de sua campanha nos últimos meses: que sua vice-presidente estivesse pronta para ocupar o cargo supremo. Biden, de fato, deu a entender que cumprirá apenas um mandato, que sua "VP" deveria ter condições de ser sua sucessora em 2024, ou mesmo substituí-lo em caso de problemas de saúde ou morte. Isso sem levar em conta o contexto, entre uma pandemia de coronavírus, devastadora nos planos sanitário e econômico, e o final do mandato caótico e divisivo de Donald Trump. “Se o povo desta nação [nos] der sua confiança para os próximos quatro anos, herdaremos um país em crise, dividido, em um mundo de grande confusão”, advertiu Biden. “Não teremos um minuto a perder."

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Pioneira

Nascida em Oakland, Califórnia. Filha de pai jamaicano, professor de economia, e mãe indiana, pesquisadora do câncer, Kamala Harris é pioneira em muitos aspectos. Depois de dois mandatos como promotora em São Francisco, ela foi eleita duas vezes procuradora-geral da Califórnia, tornando-se então a primeira mulher, mas também a primeira negra a chefiar o judiciário no estado mais populoso do país. Ela foi eleita para o Senado no mesmo dia que Donald Trump para a Casa Branca, em novembro de 2016. Quando empossada, ela se tornou a segunda mulher negra eleita na história norte-americana para a câmara alta do Congresso.

Joe Biden saudou na terça-feira uma "lutadora dedicada à corajosa defesa das classes populares e uma das maiores servidoras do Estado". O ex-vice-presidente de Barack Obama, que deveu sua vitória nas primárias democratas sobretudo ao eleitorado afro-americano, deixou de lado os golpes desferidos contra ele por Kamala Harris durante o primeiro debate televisionado entre os candidatos à indicação do partido , em junho de 2019. A senadora criticou então a "cortesia" desse veterano da política com senadores segregacionistas no início de sua carreira política (sua primeira eleição como senador por Delaware data de 1972) e denunciou sua oposição ao “busing”, prática criada nos anos 1970 com o objetivo de promover a mistura racial e social das escolas norte-americanas por meio do transporte público, para possibilitar que as crianças fossem educadas fora de seu bairro.

Uma intervenção marcante para os eleitores democratas, a ponto de colocá-la, durante o verão, entre os três primeiros nas pesquisas, permitindo, a esta moderada eleita em 2016, compensar sua falta de notoriedade no país. Mas seu desenvolvimento tardio em assuntos caros à ala progressista do partido - legalização da cannabis, a luta contra o encarceramento em massa - dificultou sua campanha, que lutava para levantar fundos e convencer os eleitores. Ela também enviou sinais contraditórios, apoiando e depois retirando o apoio à proposta de seguro saúde universal defendida por outro ex-oponente das primárias, o senador independente de Vermont, Bernie Sanders, tornando sua agenda difícil de entender. Ela finalmente jogou a toalha em dezembro, antes mesmo das primeiras eleições, por falta de meios e apoios financeiros. “Uma das decisões mais difíceis” de sua vida, ela admitiu então. Ela finalmente aportou seu apoio a Joe Biden em março e hoje destaca sua capacidade de "unir os norte-americanos".

Dois gumes

O passado de Kamala Harris como procuradora-geral é uma faca de dois gumes. Joe Biden fez disso um argumento em sua escolha, destacando seu "trabalho em estreita colaboração" com seu filho Beau Biden, então procurador-geral de Delaware, que morreu de câncer em 2015 e era muito próximo dele. “Eu vi como eles desafiaram os grandes bancos, ajudaram os trabalhadores e protegeram mulheres e crianças de abusos”, disse Biden. Harris notavelmente iniciou um programa que oferece aos infratores primários a retirada do processo em troca de treinamento profissional, exigiu que as polícias da Califórnia treinassem seus agentes contra a discriminação e dessem acesso ao público a valiosos dados judiciais, em particular no que diz respeito à violência policial.

Mas seu histórico como promotora também foi criticado pelo eleitorado progressista, especialmente na Califórnia, que a acusa de retórica às vezes repressiva, suas reviravoltas em assuntos essenciais como sentenças mínimas ou a dureza de suas posições em termos de punição delitos que, segundo esses críticos, afetaram principalmente as minorias.

No entanto, seu mandato como senadora permitiu que ela se reinventasse no cenário político nacional. Kamala Harris fez parte do poderoso Comitê de Inteligência, onde audiências públicas, sobre a confirmação do juiz Kavanaugh á Suprema Corte ou a interferência russa na campanha de 2016, foram oportunidades para mostrar suas habilidades de oratória e tenacidade. Seu interrogatório vigoroso de Jeff Sessions, então Ministro da Justiça, rendeu-lhe elogios dos democratas e críticas dos republicanos em junho de 2017. Kamala Harris foi "a mais cruel, a mais horrível, a mais arrogante de todo o Senado dos Estados Unidos", disse Donald Trump logo após o anúncio de Biden. O presidente norte-americano, precedido na média das pesquisas, por mais de 7 pontos, por seu adversário democrata, tuitou um vídeo de campanha, que concluía: "Joe, o molenga e Kamala, a impostora: perfeitos juntos, errados para a América."

*Publicado originamlente em 'Libération' | Tradução de César Locatelli

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