Pelo Mundo

Sinais de mudança na atuação dos EUA em relação à Venezuela

Algumas considerações sobre o diálogo e a negociação

07/06/2021 12:08

(Fernando Llano/AP)

Créditos da foto: (Fernando Llano/AP)

 
Existem indícios de que os Estados Unidos estariam mudando sua política externa em relação à Venezuela. O que, no entanto, não sugere a criação de falsas expectativas no sentido de que a intenção de derrotar o governo de Nicolás Maduro se aproxima do fim, somente que existem sinais que permitem apontar para a possibilidade de que se está produzindo uma mudança no modo de buscar esse objetivo final.

A primeira pista é a repentina mudança do discurso de Washington e Bruxelas, onde se dão as ordens para a forma de atuação da oposição venezuelana. Inicialmente para toda ela, porém na medida em que uma de suas partes se foi desvinculando do terrorismo como forma de fazer política (o que rendeu sanções a este setor oposicionista), só restou a oposição terrorista como interlocutora dos comandos coloniais e imperiais. E esta acata com total subserviência, em busca de aumentar os seus ganhos e dar prova da sua fé antinacional e entreguista.

No entanto, a resistência do povo venezuelano fez fracassar todas essas tentativas subversivas que incluíam o assassinato de pessoas, o golpe de Estado, a aliança com grupos paramilitares e o narcotráfico colombiano, as invasões por vias marítima e terrestre, a sabotagem e paralisação do sistema elétrico do país, o atentado contra o presidente Maduro, o engodo da ajuda humanitária, o bloqueio das exportações de petróleo e da atividade financeira internacional do Estado, o roubo dos recursos do país e os desesperados chamados de invasão estrangeira, os obstáculos à importação de alimentos, remédios e combustíveis, entre outras coisas, evidenciaram aos Estados Unidos e à Europa a necessidade de se buscar outros rumos que se aproximem mais da política do presidente Obama com Cuba que se caracterizou por sua intenção de “destruição branda”.

Isso fica evidente a partir das declarações de Cynthia Arnson, diretora do Programa Latino-americano do instituto Wilson Center em Washington, que, em uma entrevista para a agência estadunidense Bloomberg, assegurou - referindo-se à Venezuela - que “a administração Biden se sente incomodada com a severidade da política de sanções”. É evidente que isso não se trata do despertar de um sentimento de culpa cristã em Biden, mas da aceitação de que a barbárie e as tentativas genocidas contra a Venezuela fracassaram, apesar dos cem milhões de dólares destinados aos aproveitadores e sabotadores locais.

Enquanto isso, a Venezuela segue avançando em direção à sua legitimação, ao mesmo tempo que cada vez mais setores da oposição despertam de sua tacanha posição estratégica. Um noticiário de um importante meio de comunicação da oposição em Caracas apresentou a seguinte manchete “a Espanha dá sinal verde à proposta de Guaidó”, isso me fez lembrar dos momentos que precederam as negociações de Trujillo que conduziram ao armistício em 1820, quando Madri ordenou ao general Morillo abrir negociação com Simón Bolívar, evento que antecederia a independência da Venezuela em 1821. O problema é que Morillo era espanhol e a oposição na Venezuela é supostamente local, embora sirva aos interesses das potências estrangeiras.

Até se comemorou que James Story, chefe do escritório dos Estados Unidos na Colômbia e porta-voz do setor terrorista venezuelano - em defesa do seu cargo diplomático, que parece estar correndo risco - fez declarações favoráveis a uma negociação. Em clara manifestação de caráter político e intervencionista da política dos Estados Unidos, Story afirmou que “Washington estaria disposto a retirar as sanções, com a condição de que se abra uma mesa de negociações”. Uma tratativa que certamente já era possível há aproximadamente um ano quando o próprio Story se encarregava de ignorá-la, orientando a oposição venezuelana no mesmo sentido.

Julie Chung, chefe de Story em Washington, foi mais além. Em dois tuítes, expôs a política oficial dos Estados Unidos dizendo que seu país “apoia uma solução integral e negociada da crise na Venezuela que aborde todos os aspectos das condições necessárias para a realização de eleições livres e justas. E isso depende da decisão do povo venezuelano ao considerar se o novo Conselho Nacional Eleitoral contribui para este fim”.

No passado “qualquer tipo de negociação” só seria possível através da “pressão política” e a condição indispensável da saída do presidente Maduro. No entanto, Chung, a fim de abandonar seu viés imperialista assegurou que: “seguimos pressionando por mudanças fundamentais para a eleições livres e justas, o que inclui abolir as proibições a partidos políticos, libertar os presos políticos, convocar os observadores eleitorais internacionais de credibilidade e apresentar um calendário eleitoral público”.

É evidente que tanto Story, como Chung - acostumados a dar ordens aos lacaios da oposição venezuelana - acreditam que podem também se dirigir assim ao presidente, ao governo do país e ao povo venezuelano.

No cúmulo da desfaçatez, atribuíram a Guaidó a iniciativa da proposta de negociação e deram a ele seu aval. Demonstrando ter se dado conta da mudança de postura e percebendo que o negócio estabelecido em janeiro de 2019 chegou ao fim, se viu obrigado a se adaptar ao que parece ser as novas regras.

Então, logo fez uma convocação para um “Acordo de Salvação Nacional”, quando na realidade, na Venezuela, todo mundo que está se referindo a “Acordo de Salvação Pessoal”. Guaidó disse que esse acordo pretende “unificar a oposição”. Agora cabe a esta decidir se quer se unificar sob a liderança de um desonesto e terrorista que realizou acordos com grupos paramilitares, narcotraficantes e mercenários. Entretanto, quando observamos que a direita e a extrema-direita latino-americana são compostas por lideranças como a de Piñera, Macri, Kuczynski, Áñez, Duque, Abdo, Bolsonaro, Juan Orlando Hernández, entre outros, qualquer coisa é possível.

E se falando em cinismo, Josep Borrell, alto representante da União Europeia não fica atrás. Perguntada sua opinião sobre o novo Conselho Nacional Eleitoral da Venezuela, a realização das próximas eleições locais e o diálogo no qual participam cada vez mais numerosas forças políticas no país, ele disse: “Por um ano buscamos a negociação”. Isso é um fato, mas se esqueceu de dizer que a condição imprescindível para qualquer tratativa era a saída de Nicolás Maduro da presidência.

Disputando a demonstração de um maior nível de imoralidade, Guaidó liderando uma eventual negociação, disse que, permitiria ao país “a anulação progressiva das sanções”, aceitando desse modo que as chamadas sanções foram um instrumento dos Estados Unidos e da Europa, utilizados por ele para prejudicar o povo em troca de objetivos políticos mesquinhos. Agora, as sanções poderiam ser eliminadas, uma vez que Biden verificou o fracasso do pupilo de Trump e de Duque. Em decorrência disso milhões já foram afetados direta ou indiretamente por tais medidas de caráter genocida.

É claro que qualquer negociação não será imediata, teremos que esperar até dezembro para se saber se essa mudança se confirma. As eleições municipais e regionais na Venezuela em novembro desse ano e a possibilidade de um regresso triunfal de Trump ao cenário político, são na realidade, os elementos que definirão os acontecimentos. Nem Guaidó, nem nenhum dos subordinados dos Estados Unidos e da Europa terão a possibilidade de dar qualquer opinião a esse respeito. De qualquer modo, esse é um diálogo ou negociação (ou como se quiser chamar) entre Washington e Caracas, em que Nicolás Maduro segue no comando.

Se alguém tiver dúvidas sobre o fim do sonho de Guiadó elaborado por Trump e Iván Duque, seu camarada fascista, vale escutar Henrique Capriles. Consultado pelo jornal madrileno “El País” sobre se considera Guiadó o líder da oposição venezuelana nesse momento, respondeu: “existe uma crise de liderança dentro da oposição. Porém para mim neste momento o que importa não é quem consegue ter seus telefonemas atendidos em Bruxelas ou em Washington, isso seria simplificar a política e a crise venezuelana.”. Para bom entendedor, poucas palavras bastam.

*Publicado originalmente em La Haine | Traduzido por Caio Cursini



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