Pelo Mundo

Sob a sombra do gigante

19/12/2006 00:00

Latinautas*

A fim de compreendermos a atual situação da Guatemala, remetemo-nos a uma sinopse de sua História marcada, desde a independência, por desmandos das elites locais, sempre sob as bençãos dos EUA, que culminaram com o maior massacre de forças de resistência que a América Latina gerou no século passado.

Guatemala: independência e seguidas ditaduras
A independência guatemalteca, frente à Coroa Espanhola, ocorreu em 1821. A liderança desta insurreição foi dada por uma burguesia ascendente que buscava novos mercados e questionava a submissão comercial à Espanha. Um movimento liberal, nacionalista, republicano e pluralista, que também questionava o crescimento desenfreado dos Estados
Unidos e sua intervenção política nos países ao seu redor.

Em 1851, apenas 30 anos após a independência, iniciou-se uma era de governos ditatoriais formados por conservadores, militares, latifundiários e o clero, os quais, apoiando em 1871 o General Justo Rufino Barrios, realizam a “Revolução Liberal”. Sob o mote da construção de portos e ferrovias para escoar a produção da monocultura do café, especializava-se a agricultura, e também se especializavam as práticas repressivas.

Na larga ditadura de 1898 à 1920, Estrada Cabrera fortaleceu as propriedades privadas, concedendo largas extensões de terras aos produtores de café e de bananas. Expropriou a população indígena de suas terras e os que se negavam a sair eram incorporados à força ao Exército. Os campesinos tornaram-se escravos em suas próprias “fincas”, e suas resistências eram caladas a tiros.

Em 1901, a política da Guatemala passou a ser realizada pelas diretrizes estipuladas por três grandes empresas estrangeiras: Standard Oil, United Fruit, International Railways e American Foreign Power tornaram-se donas do país. Portos, meios de comunicação, estradas de ferro, latifúndios e fontes de energia, toda a estrutura nas mãos destas multinacionais. Possuiam alfândega e polícia privada. A Standard Oil, sozinha, controlava quatro milhões e 600 mil hectares, quase a metade do território guatemalteco.

Revolução guatemalteca: uma pausa no projeto liberal
Toda a produção do café e da banana na Guatemala saía dos portos rumo aos Estados Unidos. Uma danosa dependência que levou, no ano de 1929, após a quebra da Bolsa de Nova Iorque, a uma queda vertical dos preços, e uma violenta expulsão de camponeses das terras nas quais trabalhavam. Desemprego tanto no campo como nas cidades causaram seguidas manifestações sociais. Greves nas fábricas e lutas estudantis espalharam-se pelo país.

Para controlar a expansão das reivindicações por melhores condições de vida e pela liberdade de expressão, a elite conservadora coloca no poder o General Jorge Ubico (1932-1944). Como primeiras medidas, o novo ditador assassinou líderes sindicais, estudantis, políticos e diversos professores. Recriminalizou a vadiagem, classificando todos os desempregados como criminosos, logo, legitimando o encarceramento e o uso de violência. No auge da rebelião popular, editou o decreto 2.795 que isentava de responsabilidade criminal os proprietários de fazenda que matassem em prol da “segurança da propriedade privada”.

Os conflitos sociais intensificaram-se a partir de 1940. Em 1944, percebendo sua derrocada, Ubico passa o poder a um triunvirato de generais para formar um governo provisório na tentativa de diminuir e extinguir a luta popular. Mas, mesmo assim, estudantes, professores, operários, civis e dissidentes do exército empunharam armas e iniciaram a Revolução Guatemalteca. Nas primeiras horas do dia 20 de outubro de 1944, Jacob Arbenz, após a tomada de um quartel e o chamamento dos cidadãos a sairem às ruas, declarou a vitória do povo e a instauração de um governo revolucionário. A Junta Revolucionária realizou no mês de novembro daquele ano as primeiras eleições democráricas da história da Guatemala, tornando-se presidente Juan José Arevalo com 98% dos votos.

Arévalo iniciou um grande projeto educacional e promulgou o Código de Trabalho que garantia direitos aos trabalhadores e limitou o unilateralismo das multinacionais. Em 1951, em seu discurso de passagem de posse ao novo presidente Jacob Arbenz, Arévalo declarou que teve que suportar mais de 32 conspirações de golpes realizadas pela United Fruit Co. Inclusive, no ano de 1950 expulsou o embaixador estadounidense Richard C. Patterson, acusando-o de conspirar contra o governo democrático e declarou-o persona non grata.

Jacob Arbenz em seu mandato realizou uma Reforma Agrária distribuindo terras improdutivas e ociosas. Construiu uma rede de estradas nacionais, hidroelétricas e um porto, acabando assim com um monopólio das transnacionais. O Estado começava a se estruturar, havendo assim capital nacional para realizar os programas sociais necessários.

Arbenz foi eleito durante um período de grandes mudanças em todo o globo. Finalizava-se a Segunda Guerra Mundial, e o mundo encontrava-se bipolarizado. Os Estados Unidos haviam traçado uma linha entre os “livres” e os “comunistas”.

A Revolução Guatemalteca nunca foi uma revolução socialista ou comunista. Foi um levante popular pela soberania nacional. Era um capitalismo limitado por necessidades e direitos sociais.

Mas, pelo simples fato de questionar a usurpação realizada pelos Estados Unidos em sólos guatemaltecos, iniciou-se uma campanha de rotulação de comunistas Arévalo e Arbenz.

Em 1954, liderando a operação “libertadora”, o coronel Castillo Armas, organizou com apoios da CIA, dos latifundiários guatemaltecos e da United Fruit, um ataque à Guatemala com a finalidade de “desfazer um governo comunista que tinha assumido o poder”. Armas assume o poder, e terminam os chamados 10 anos de Primavera.

Guerra civil: 1966-1982
A partir de 1966, foi reintroduzida na Guatemala a política de ferro e fogo. Foram 12 anos de privatização do Estado e devoluções de propriedades perdidas, durante os governos revolucionários, aos finqueiros. Os movimentos de esquerda foram novamente criminalisados. Torturas e assassinatos aos professores, estudantes, índios e campesinos que se organizam por seus direitos tornaram-se legítimos.

Inspirados na Revolução Cubana, oficiais de baixa hierarquia iniciaram, em 1960, movimentos guerrilheiros, tanto nas selvas como nas cidades. Estudantes e campesinos logo se juntaram à luta. As mulheres que entram nas guerrilhas eram, em sua maioria, jóvens, católicas, da classe média guatemalteca, que estudaram em colégios de freiras. A grande inspiração para elas estarem lutando era a Teologia da Libertação e seu método de emancipação.

Este novo movimento revolucionário foi mais organizado. Durante dez anos, não houve baixas nos conflitos com as forças do Exército e com todo o aparato repressivo. Saíram vitoriosos em todas as disputas. Seqüestros econômicos, seqüestros políticos, saques à bancos, ataques à pontos estratégicos, tudo muito bem planejado e executado, sempre pegando desprevinidas as forças estatais.

Não havia como deter este movimento. Com um grande apoio popular e campesino, e com uma força crescente, era necessário algumas mudanças na política de combate aos guerrilheiros. Assim, os alvos deixam de ser os “comunistas” e instaurou-se o genocídio. Mataram-se todas as mulheres e todos os homens capturados. Foram dizimadas comunidades indígenas, e os corpos foram transportados de caminhão para serem incinerados. As torturas à população civil, além de físicas, passaram a ser psicológicas. Os militares, estupraram mulheres em frente à toda comunidade. Jogaram futebol utilizando como bola crianças menores de um ano. As partidas eram públicas, aos olhos dos pais e de toda uma população impotente.

A crueldade aumentou até um ponto que começaram a descobrir, por meio de crueldade e torturas, pequenas oficinas clandestinas do movimento guerrilheiro. A partir daí, começou o desmonte às organizações insurgentes.

Todas as práticas repressivas tiveram o auxílio dos Estados Unidos. Israel deu suporte ao treinamento do Exército, Argentina ajudou no combate no meio urbano e Taiwan contribuiu nas lutas do campo.

A luta não era somente contra o movimento guerrilheiro. Por trás da cortina, a intenção era ter uma justificativa para avançar nos projetos de exploração e invasão de terras. Diversas empresas de mineração instalaram-se em regiões antes povoadas e de propriedade de comunidades indígenas. O pretexto da guerra civil deu suporte às multinacionais que tiveram o aval de explorar sem limites.

Todos estes atos de crueldade parecem ser exagerados. Este período da Guatemala, de 1966 a 1982, teve mais desaparecidos, assassinados e presos políticos do que todos os demais países da América Latina juntos.

Recentemente o governo dos EUA autorizou a publicação de arquivos confidenciais sobre a intervenção do país em território guatemalteco. Assumiram que houve a participação da CIA, Ronald Reagan, e do Exército para combater a onda de comunismo.

(*) Latinautas é o apelido dado pela Carta Maior à equipe da expedição "Da América para as Américas", formada por Milena Costa de Souza, Pedro José Sorroche Vieira, Thiago Costa de Souza e Ligia Cavagnari. Eles atravessam as américas, passando por 17 países, percorrendo mais de 25 mil km em busca de uma identidade de resistência à hegemonia política, econômica e cultural exercida pelos EUA.

Leia o especial LATINAUTAS, com a íntegra dos relatos e comentários sobre a expedição "Da América para as Américas". (Leia aqui)


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