Pelo Mundo

Sob pressão do FMI, Kirchner enfrenta série de protestos

19/02/2004 00:00

Os movimentos de trabalhadores desempregados promoveram nesta quinta-feira (dia 19) uma nova jornada nacional de protestos na Argentina, reivindicando mudanças na política econômica, adoção de medidas para enfrentar o desemprego e posicionando-se contra o aumento de tarifas públicas e contra a proposta de lei trabalhista atualmente em debate no governo, que prevê a flexibilização de alguns direitos. Também exigem do governo a retomada dos subsídios suspensos pelo Ministério do Trabalho e que foram considerados irregulares. O sistema de subsídios foi adotado pelo ex-presidente Eduardo Duhalde, em janeiro de 2002,  quando ocorreu a desvalorização do peso, que fez disparar a inflação e jogou milhares de argentinos na pobreza. O presidente Nestor Kirchner argumenta que o dinheiro gasto nas bolsas de US$ 50 mensais (um gasto total de US$ 2 milhões) será melhor investido no incentivo à criação de trabalhos genuínos.

Divergindo dessa posição, os piqueteros anunciaram mais de cem bloqueios de estradas e pontes em várias regiões do país, com a participação de mais de 50 mil manifestantes, como forma de pressionar o governo Kirchner, que se encontra sob fogo cruzado. Até o meio-dia desta quinta-feira, os piqueteros já haviam interrompido uma das principais pontes de acesso a Buenos Aires e promovido bloqueios em estradas de 22 das 24 Províncias do país.

Ao mesmo tempo em que enfrenta crescentes protestos sociais, Kirchner segue em sua queda-de-braço com autoridades do Fundo Monetário Internacional (FMI), tentando obter um tratamento diferenciado para a renegociação da dívida argentina. O governo argentino insiste junto ao FMI que não pode ceder em sua oferta de reestruturação da dívida para não castigar ainda mais a já empobrecida população do país. Nas últimas semanas, altos funcionários do governo e o próprio presidente Néstor Kirchner voltaram a criticar a insensibilidade dos credores internacionais, convidando-os a conhecer de perto a dura realidade social da Argentina. Kirchner ofereceu aos credores o pagamento de 25% dos US$ 88 bilhões em dívidas em atraso. O presidente argentino argumenta que pagar mais do que isso significaria interromper a recuperação da economia do país que, em 2003, cresceu cerca de 8%. Segundo estatísticas oficiais, o desemprego no país está na casa dos 16,3%, com metade da população vivendo em situação de pobreza.

Na véspera dos protestos desta quinta, representantes dos piqueteros e do governo argentino reuniram-se para firmar um pacto de não-violência durante os protestos. Ambos os lados prometeram trabalhar para garantir um clima de tranqüilidade durante as manifestações.  A preocupação maior é com a situação na Província de Buenos Aires, onde o juiz federal de La Plata, Adolfo Ziulu, prometeu garantir a livre circulação na rodovia que liga Buenos Aires a La Plata. Enquanto o governador Felipe Solá garantiu que cumpriria a determinação judicial, seu ministro da Justiça, Eduardo Di Rocco, disse que os manifestantes não seriam reprimidos com violência. "Garantiremos a paz social, pois somos um governo popular", declarou o ministro. Os líderes dos protestos, por sua vez, garantiram que adotaram orientações para evitar choques com a polícia e para não responder a provocações. O líder do Pólo Obrero,  Nestor Pitrola, afirmou que "sempre que há disposição de tropas há um perigo iminente de repressão", razão pela qual solicitou que o governo não mobilizasse tropas para acompanhar os protestos. Até o final da tarde, nenhum incidente mais grave havia sido registrado.

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