Pelo Mundo

Socialistas falham em tentativa de formar governo, e abrem crise que pode ser fatal para a esquerda espanhola

 

26/07/2019 16:14

 

 

De estar a dois passos do paraíso a cair direito ao purgatório em apenas três meses. Essa é a melhor forma de explicar o que aconteceu com os socialistas espanhóis entre o último domingo de abril e esta semana.

No dia 28 de abril, o PSOE (Partido Socialista Operário da Espanha) venceu as eleições gerais com uma maioria avassaladora, quase o dobro dos votos do segundo colocado, o que lhe valeu também uma quantidade de vagas no Parlamento que o deixou muito perto de um cenário onde o seu líder, Pedro Sánchez, poderia formar governo sem precisar se aliar a nenhum outro setor político.

Esse quase, essa pequena diferença que faltou para um governo puro sangue e o anseio que isso parece provocar nos líderes socialistas parecem ser também as razões de seu atual conflito pós-eleitoral, que gerou, em menos de 60 horas, duas tentativas fracassadas de conformar governo, devido à falta de um acordo entre os dois principais setores da esquerda espanhola: o PSOE e o Podemos.

Sistema eleitoral

Como se sabe, para se chegar ao poder dentro do sistema parlamentarista espanhol não basta só ter maioria de votos e vagas no parlamento, para ser empossado, o novo governo precisa ser ratificado por esses novos congressistas eleitos no mesmo dia 28 de abril. Na época do bipartidarismo era muito mais fácil conformar governo, já que só havia dois grandes partidos, o PSOE e o PP (Partido Popular, direita conservadora neofranquista), pois bastava vencer o único rival político, o outro lado da polarização.

A hegemonia de ambos em seus respectivos setores era tão grande que sempre garantia ao vencedor das eleições das eleições gerais (que quase sempre superava os 40%) uma maioria parlamentar suficiente para conformar governo sozinho. Nesta última eleição, os vencedores sequer chegaram aos 30%, e foram cinco os partidos que superaram os dois dígitos em porcentagem (incluindo o recém-criado Vox, partido de ultradireita que ficou com 10,3%, ou 2,6 milhões de votos).

Fato inédito na Espanha pós-franquista, e ainda mais impressionante se considerarmos que os diferentes partidos independentistas da Catalunha, do País Basco e de outras comunidades autônomas, juntos, também superaram tal porcentagem – embora não configurem um só bloco, já que há nesse bojo grupos nacionalistas de esquerda e de direita, mas o dado serve para entender que a unidade nacional espanhola também enfrenta certa crise.

Resultado eleitoral

O fato de ficar a poucas cadeiras de uma situação ideal foi a tentação que rondou a cabeça de Pedro Sánchez e da cúpula socialista, que tentou impor sua hegemonia sobre outros setores de esquerda, para que os apoiassem sem condicionamentos. Afinal, com seus 28,7% de votos (quase 7,5 milhões de preferências), os socialistas se sentiram no direito de impor condições aos possíveis aliados.

Vale lembrar que o PSOE pode ser definido hoje como um partido de centro-esquerda. Seu possível aliado para a formação de governo seria o partido Cidadãos (centro-direita liberal), que foi terceiro colocado nas eleições, com 15,9% (4,1 milhões de votos).

Antes desta última eleição, PSOE e Cidadãos mantiveram uma aliança conjuntural na qual os liberais sustentaram no parlamento a conformação de um governo puro sangue socialista, que durou pouco mais de oito meses (entre junho de 2018 e fevereiro de 2019) e terminou com Albert Rivera, líder do Cidadãos, mantendo uma forte campanha de ofensas gratuitas contra os socialistas, discurso que também foi a tônica de sua campanha nas eleições gerais. Por essa razão, após os resultados de abril, durante a festa da vitória, a militância socialista reunida em frente à sede do partido diziam “Rivera não” e exigiam que Sánchez sequer sonhasse com uma aliança com os liberais.

O segundo colocado em abril foi o PP, rival histórico, que teve 16,7% (4,4 milhões de votos), e que claramente é um aliado impossível.

Ideologicamente, o aliado natural do PSOE seria o Unidas Podemos – bloco que reúne o Podemos, agrupação nascida do movimento dos Indignados, em 2011, e a Esquerda Unida, conformada pelos partidos históricos da esquerda espanhola, incluindo o Partido Comunista Espanhol, e que juntos formam um setor de esquerda de discurso claramente anti neoliberal. Com seu quarto lugar nas eleições, e graças a 14,3% dos votos (3,7 milhões em número absolutos), seria a melhor forma de conformar um governo de coalizão que, ao menos em teoria, evitaria grandes concessões ou a traição de alguns princípios socialistas.

Contudo, nunca houve uma real aproximação entre as duas partes, já que Sánchez sempre deixou clara sua intenção de formar um governo com um ministério de figuras exclusivamente socialistas, e aceitando concessões programáticas ao Unidas Podemos em troca dos seus votos no Congresso, suficientes para concretizar a conformação do governo.

Por sua parte, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, também vem se mantendo firme em sua postura de só aceitar apoiar os socialistas caso exista um programa em comum, e com a participação de figuras do seu bloco no gabinete. Segundo um documento publicado por meios espanhóis esta semana, o Podemos exigiu ter interferência direta, e com cargos, em ministérios e secretarias ligados a Economia, Direitos Sociais, Moradia e Meio Ambiente, além de participar na elaboração de políticas para educação infantil, pobreza infantil, programas para deficientes físicos, programas contra a exclusão social e políticas para juventude, família e de distribuição de produtos básicos.

Interferência real

Há rumores na imprensa espanhola que o próprio rei Felipe VI teria tentado intervir no cenário. Nos últimos três meses, realizou seis encontros com o líder socialista Pedro Sánchez, no qual se especula que atuou, seja promovendo a aliança dos seus sonhos (PSOE no poder, mas com a contrapartida de Cidadãos formando parte do ministério e influindo nas políticas) ou ao menos tentando boicotar os entendimentos entre os dois setores da esquerda.

No fim das contas, para a conservadora realeza, mais vale a centro-esquerda socialista sozinha no poder, do que um governo deles com um setor de esquerda mais pura, que não poucas vezes mostrou seus flertes com ideais republicanos.

O resultado prático dessa pugna é um PSOE que apresentou ao Parlamento a proposta de conformar governo sozinho, o que gerou duas tentativas fracassadas de aprovação da fórmula: na terça-feira (23/7) e na quinta-feira (25/7), o resultado foi o bloco socialista ficando somente com os seus 123. O Unidas Podemos, com seus 33 votos, que seriam suficientes para ratificar o governo, preferiram a abstenção.

Possibilidade de novas eleições

Com isso, os socialistas terminam o mês de julho bem distantes das certezas que haviam em abril, e diante de um início de crise que, se não for contornado com a devida perícia, poderia levar um desastre.

Segundo a constituição do país, o PSOE terá agora um período de dois meses, no qual Pedro Sánchez, poderá negociar novamente os apoios para que seja ratificado como presidente, e será a última chance. Se a próxima apresentação de governo levada ao Parlamento (provavelmente em setembro) não for aprovada, haverá novas eleições gerais.

A hipótese de convocação de novas eleições provavelmente aconteceria em condições de maior fragilidade tanto para o PSOE quanto para o Podemos, e ótimas para a nova direita, sobretudo para os extremistas do Vox. Portanto, configuraria um fracasso histórico do socialismo e da esquerda espanhola de uma forma geral.

*Com informações dos seguintes veículos: El Desconcierto, Revista Contexto e RTVE.

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