Pelo Mundo

Sociedade civil volta a respirar na era pós-Taleban

21/01/2004 00:00

Mumbai - Foram dez anos sob ocupação soviética (1979-1989), outros seis de domínio Taleban (1996-2001) e, agora, mais dois sob a tutela dos Estados Unidos (2002-2004). A história recente do Afeganistão, um dos países mais pobres do mundo, é marcada por um estado permanente de violência.
Mas há sinais de vida. As organizações da sociedade civil do país começaram a se reorganizar, com a ajuda de parceiros internacionais, como Oxfam e ActionAid. Pela primeira vez, os afegãos conseguiram enviar ao Fórum Social Mundial (FSM) uma delegação, com 28 representantes de diferentes entidades locais.
"É uma grande experiência para nós", afirmou Shinkai Zahine, do Centro de Educação para Mulheres Afegãs, pouco depois de falar num dos seminários do FSM. Vestida à moda islâmica, com um véu sobre a cabeça, ela detalhou as difíceis condições em que vivem as mulheres em seu país.
O tema não foi escolhido ao acaso. As afegãs foram as maiores vítimas do regime fundamentalista imposto pelo Taleban, quando perderam vários direitos básicos. Por anos, elas foram transformadas em cidadãs de segunda categoria, proibidas de ir à escola e trabalhar fora de casa.
"As mulheres afegãs são emocionalmente e psicologicamente traumatizadas", disse ela, usando o inglês, para uma platéia formada por militantes de diversos países. "Mas eu queria dizer que isso não é um problema da religião, do Islã, que defende direitos iguais para todos. Vivemos em uma sociedade dominada pelos homens", completou.
Shinkai acredita na reconstrução de seu país, apesar das dificuldades. Segundo ela, uma das maiores é a grande diversidade étnica e lingüística entre os 29 milhões de afegãos. São 44% da etnia pashtun, 25% da tajik, 10% da hazara, 8% e uzbeques e 13% das minorias aimaks, turca e baloch, entre outras. "Mas temos trabalhado com todas elas quando viajamos pelo país. E sempre somos recebidas com hospitalidade", diz. A ativista também destaca que pela primeira vez o Afeganistão tem uma Ministra dos Assuntos da Mulher, que tem como um de seus principais objetivos criar escolas para 3 milhões de meninas que estão fora das salas de aula. "Em nossas visitas, discutimos juntas como libertar as pessoas do tipo de relação autoritária que tinham antes e criar uma cultura de paz na sociedade civil. Pedimos para as mães manterem suas crianças na escola."
O tema da "cultura da paz" é o que mais interessa a Raz Mohammad Dalili, diretor-executivo da Fundação de Desenvolvimento Sanayee, que trabalha na área de educação. Segundo ele, a escola é uma das instituições que incentivam a violência no país, ao manter uma relação professor-aluno de caráter autoritário. "Muitas crianças chegam a ter medo de ir às aulas. O problema é que quando ela crescer, poderá terá a mesma atitude com outras crianças. Muitas delas deixam a escola por causa da atitude dos professores", afirmou.
Para contornar o problema, o grupo de Raz tem feito reuniões de trabalho com representantes do governo e educadores discutindo a reforma do ensino no país. "Queremos que a cultura da paz seja incluída no currículo das escolas. Professores e alunos precisam discutir esse tema", defende.
Segundo Raz, a abertura para este tipo de debate está sendo garantido pela ocupação norte-americana, que retirou os talebans do governo. "Estamos felizes com isso e, no curto prazo, é melhor que as coisas continuem assim", afirmou, para logo ressalvar: "As pessoas estão acreditando que os EUA ficarão um longo tempo no Afeganistão. Isso não seria bom e haverá resistência na sociedade afegã."
FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2004
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