Pelo Mundo

Soldadinho boliviano com um rifle norte-americano

 

18/10/2020 13:23

(Reprodução/Cuba en Resumen)

Créditos da foto: (Reprodução/Cuba en Resumen)

 
A impresentável presidenta da Bolívia comemorou a morte de Ernesto Che Guevara, em uma homenagem realizada no dia 8 de outubro àqueles que o assassinaram em 9 de outubro de 1967, por decisão da CIA (Central de Inteligência dos Estados Unidos).

A intervenção da CIA na Bolívia é um fato e o interessado acompanhamento que Lyndon Johnson fez à guerrilha também. O presidente dos Estados Unidos recebia regularmente informações sobre o rastro de Che, já que, em 1965, ele deixou de ser visto publicamente em Cuba. Um dos 29 documentos desclassificados, de 22 de abril de 1967, publicado na semana passada pelo Arquivo de Segurança Nacional da Universidade George Washington, registra que o ditador boliviano René Barrientos informou ao general norte-americano William Tope sobre a situação da guerrilha. no país.

Barrientos pediu a Washington armas modernas e Tope expressou suas reservas quanto ao envio de qualquer arsenal, porque seria inútil se os soldados bolivianos não recebessem instruções para a contra-insurgência. Nos últimos quatro meses de vida do guerrilheiro, ele e suas tropas passaram tentando fugir do exército treinado pelos boinas verdes dos Estados Unidos. Os militares bolivianos eram assessorados por três ferozes anticomunistas de nacionalidade cubana que trabalhavam para a CIA. Um deles, Félix Rodríguez, foi fundamental para focar os esforços do 2º. Batalhão de guardas florestais, na região de Vallegrande, onde operavam os rebeldes de Guevara, segundo outro documento da CIA.

A cineasta cubana Rebeca Chávez obteve imagens do treinamento dos boinas verdes e foi a primeira a entrevistar Leonardo Tamayo (Urbano), Harry Villegas (Pombo) e Dariel Alarcón (Benigno), sobreviventes da guerrilha, quando ninguém os conhecia. Eles acreditavam que a morte do líder guerrilheiro era algo que estava nos planos, mas admitiram que, na Bolívia, tudo foi precipitado, “basicamente, por causa da intervenção dos Estados Unidos”, diz Rebeca.

A história é cíclica e parece que os fantasmas do passado vêm nos dizer que os homens não fazem história à vontade. O golpe contra Evo Morales foi uma viagem sem volta ao pior do passado, àqueles tempos da doutrina da segurança nacional no hemisfério e ao retorno de outros processos semelhantes na história da região: o golpe contra Salvador Allende no Chile e contra Chávez na Venezuela; a cópia da etapa inicial com uma grande campanha difamatória nacional e internacional pela mídia; uma segunda fase de agitação das camadas médias que favoreceria a intervenção de militares e policiais. E, finalmente, uma vergonhosa refilmagem do assassinato do guerrilheiro argentino-cubano com uma homenagem a seus algozes.

O mito de Che Guevara, os sentidos insondáveis %u20B%u20Bdo sorriso de seu cadáver sobre uma mesa da lavanderia Vallegrande, começaram a percorrer o mundo naquele primeiro dia em que o exército boliviano celebrou a morte do guerrilheiro com a silenciosa permissão de Washington.

O colonizador não precisa ser fanático para defender seus interesses. Os colonizados sim, para demonstrar seu servilismo. Mas nem um nem outro podiam prever, em 1967, que naquele mesmo momento começava outra guerrilha, não mais na serra, nem na selva, mas no imaginário das cidades. Deram nova vida ao guerrilheiro, reconstruíram-no, embora o Ernesto Guevara que hoje se imagina não seja o dos Anos 60, ao mesmo tempo que ainda é. A história também é cíclica quando renova seu desprezo pelos ditadores com gatilhos, como o infame tributo que o aprendiz de gorila presta não ao seu exército, mas aos verdadeiros assassinos de Che, que a catapultaram do olimpo da mediocridade para o Palácio Queimado, onde ela permanecerá tão medíocre ou mais do que já era.

Quando a autora desta nota foi pioneira em Cuba e cantou, nos eventos escolares e nas sessões matinais, a famosa canção “Seremos como Che”, sem saber onde ficava a Bolívia ou quão profunda era a vida daquele homem, ela entendeu perfeitamente a diferença entre quem deu a ordem e quem o matou. O golpista me fez lembrar versos da minha infância, escritos pelo poeta cubano Nicolás Guillén, musicados pelo chileno Víctor Jara, vítima de outra ditadura, como a do ciclo Barrientos-Áñez:

Soldadinho da Bolívia, soldadinho boliviano

Armado você está, com seu rifle, que é um rifle norte-americano

O que é um rifle norte-americano, soldadinho da Bolívia

O que é um rifle norte-americano.



*Publicado originalmente em 'La Jornada' | Tradução de Victor Farinelli

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