Pelo Mundo

Syriza deve ignorar os chamados à responsabilidade

A troika vendeu uma fantasia econômica e os gregos pagaram o preço. o programa imposto à Grécia nunca fez sentido, não tinha como funcionar.

03/02/2015 00:00

Ed Ritger / Flickr

Créditos da foto: Ed Ritger / Flickr

Alexis Tsipras, líder da coalizão de esquerdas Syriza, transformou-se no primeiro-ministro da Grécia. É o primeiro dirigente europeu eleito com o compromisso explícito de desafiar as políticas de austeridade que prevaleceram desde 2010. E haverá muita gente que o aconselhará a abandonar esse compromisso, que se comporte de maneira “responsável”.

Mas, para que serviu até agora esta suposta responsabilidade?

Para entender o terremoto político na Grécia, ajuda retomar o “acordo standby” de maio de 2010 entre Grécia e FMI (Fundo Monetário Internacional), em virtude do qual a chamada troika – o FMI, o Banco Central Europeu e a Comissão Européia – fizeram empréstimos ao país em troca de uma combinação de austeridade e reformas. É um documento notável, no pior sentido da palavra. A troika, que pretendia ser prática e realista, vendia uma fantasia econômica. E o povo grego vem pagando o preço desses delírios de elite.

Falsas suposições
 
As projeções econômicas que acompanharam o acordo assumiram que a Grécia poderia impor uma dura austeridade que pouco afetasse o crescimento e o emprego. A Grécia estava em recessão quando o acordo foi feito, mas as projeções estimavam que essa fase  terminaria logo – que haveria somente uma pequena contração em 2011, e que, para 2012, a Grécia se recuperaria. O desemprego, supunham, aumentaria substancialmente, de 9,4% em 2009, para quase 15% em 2012, mas depois diminuiria rapidamente.

O que realmente aconteceu foi um pesadelo econômico e humano. Longe de terminar em 2011, a recessão piorou ainda mais. A Grécia não tocou o solo até 2014, nesse momento, passou por uma depressão com todas suas características, com um desemprego total que chegava a 28% e um desemprego da juventude que chegava a quase 60%. E a recuperação atual é apenas visível, e não oferece nenhuma perspectiva de recuperar os níveis de vida anteriores à crise.

O que deu errado? Frequentemente me pego fazendo afirmações no sentido de que a Grécia não cumpriu suas promessas, não fez os cortes de gastos prometidos. Nada poderia estar mais longe da verdade. Na realidade, a Grécia realizou cortes selvagens nos serviços públicos, os salários dos trabalhadores públicos e nos serviços sociais. O gasto público se reduziu muito mais do que o previsto no programa, e é cerca de 20% inferior ao de 2010.

Entretanto, os problemas da dívida da Grécia são piores do que antes do programa. Uma razão é que a crise econômica reduziu a renda: o governo grego está recolhendo uma porcentagem muito mais importante do produto interno bruto em impostos, mas o PIB caiu tão rapidamente que a arrecadação tributária geral diminuiu. Por outro lado, a queda do PIB fez com que um indicador fiscal chave, o rácio da dívida em relação ao PIB, continuasse subindo apesar de o crescimento da dívida ter se reduzido e a Grécia ter obtido uma modesta quitação da dívida em 2012.

Por que as projeções originais foram tão otimistas? Como já mencionei, porque os supostamente decididos funcionários viviam, na verdade, uma fantasia econômica. Tanto a Comissão Européia como o Banco Central Europeu decidiram acreditar na fada da confiança: pensar que os efeitos diretos da destruição do emprego causados pelos cortes de gasto seriam mais do que compensados pelo aumento do otimismo do setor privado. O FMI foi mais cauteloso, mas subestimou os dados que a austeridade poderia causar.

E aqui está a coisa: se a troika tivesse sido realmente realista, teria reconhecido que estava exigindo o impossível. Dois anos depois do início do programa, o FMI buscou exemplos históricos de programas como o grego, tentativas de pagar a dívida mediante a austeridade sem grande alívio da dívida ou inflação, que teriam tido êxito. Não tiveram nenhum.

Nada de dar lições

Agora que Tsipras ganhou, os funcionários europeus fariam bem se evitassem dar lições exigindo ações responsáveis e a continuidade da aplicação do programa. O fato é que não têm credibilidade; o programa imposto à Grécia nunca fez sentido. Não tinha nenhuma possibilidade de funcionar.

Em todo caso, o problema com os planos do Syriza pode ser que não sejam suficientemente radicais. Mas não está claro o que mais um governo grego pode fazer, a menos que esteja disposto a abandonar o euro, e o povo grego não está preparado para isso.

Ainda assim, ao pedir uma mudança importante, Tsipras é muito mais realista do que os funcionários que querem continuar com os golpes até que aprendam a lição. O resto da Europa deve dar a oportunidade de colocar fim ao pesadelo em seu país.
 

*Paul Krugman é professor de Economia de Princeton e prêmio Nobel de 2008.
 
Tradução de Daniella Cambaúva



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