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Terra para Biden: pare de falar sobre o fracking

Pesquisa do Data for Progress mostra que apoio pelo banimento do fracking caiu 16 pontos entre Democratas após Biden e Harris declararem oposição contra a prática nos debates

24/10/2020 13:19

Joe Biden fala durante o primeiro debate presidencial em 29 de setembro de 2020 (Jim Watson/AFP via Getty Images)

Créditos da foto: Joe Biden fala durante o primeiro debate presidencial em 29 de setembro de 2020 (Jim Watson/AFP via Getty Images)

 
Um das piadas favoritas do presidente Donald Trump e dos Republicanos na campanha é a noção absurda de que Joe Biden e os Democratas sujeitariam os estadunidenses a um “New Deal verde, socialista e radical”. O Partido Republicano gostaria que os eleitores acreditassem que os Democratas estão apenas a uma eleição de distância de abolir hambúrgueres, aviões e pickups, enviando os preços da contas de energia lá no teto, e colocando todos os trabalhadores no seguro-desemprego. Tanto Trump quanto o VP Mike Pence lançaram esses ataques contra o ex-vice-presidente Joe Biden e a senadora Kamala Harris durante os debates presidencial e vice-presidencial. Enquanto a Data for Progress observou que os eleitores, na realidade, apoiam o plano de Biden por um investimento massivo em empregos na energia renovável e não acreditam em Trump e nas difamações sobre o New Deal verde, um ponto essencial na questão do fracking permanece.

Como um lembrete, o fraturamente hidráulico – conhecido como fracking – envolve injetar fluídos no solo para fraturar pedra de xisto e liberar gás natural. No meio dos anos 2000, um boom do fracking começou na rica formação de xisto Marcellus na Pennsylvania. Com auxílio das políticas da era Obama – incluindo créditos baratos – a indústria de gás natural criou mais de 10.000 empregos na Pennsylvania entre 2007 e 2012, de acordo com o Bureau de Estatísticas do Trabalho.

Esse boom veio com custos significativos ao meio ambiente e à saúde pública. O fracking exige grandes quantidades de água – até 9.6 milhões de galões por poço, de acordo com o Levantamento Geológico dos EUA. Águas residuais podem contaminar a água da superfície, enquanto químicos tóxicos envolvidos no processo de extração foram descobertos nos aquíferos. O fracking também libera vapores nocivos que podem causar problemas respiratórios e cardiovasculares bem como câncer e defeitos congênitos. Pesquisas mostram que a injeção de fluídos induziu terremotos de nível 5.8 na escala Richter. E enquanto o fracking já foi considerado um “combustível ponte” para a energia renovável, estudos recentes sugerem que a queima de metano e o vazamento de gás podem ser maiores do que pensado inicialmente. Em suma, essa não é uma atividade ideal em meio a uma pandemia respiratória e a pior crise climática mundial.

Sem surpresa, o fracking se tornou uma das questões decisivas na luta pelos 20 votos do Colégio Eleitoral da Pennsylvania, que foram para Obama em 2012 e foram importantes na vitória estreita de Trump em 2016. Consciente que Trump e os Republicanos querem rotular Biden e os Democratas como hippies cortadores de empregos, Biden e Harris deixaram claro em muitas ocasiões que eles não vão banir o fracking. (Não importa que um presidente não pode fazer isso sem o Congresso)

Em duas pesquisas com possíveis eleitores estadunidenses, uma conduzida apenas dias antes do primeiro debate presidencial, e outra imediatamente após o debate dos vice-presidentes, a Data for Progress perguntou aos eleitores as mesmas questões sobre três políticas climáticas:

Alcançar um sistema de eletricidade 100% livre de poluição por carbono até 2035, um investimento de $2 trilhões de dólares em nova infraestrutura de energia limpa, e banimento do fracking. Para medir como essas políticas vão se sair quando confrontadas, apresentamos duas declarações diferentes aos eleitores – uma em favor da política de Biden e outra contra – e os pedimos para escolher com qual concordam mais. O exato ordenamento das perguntas está escrito abaixo:

Qual declaração se aproxima da sua visão?

O governo deveria conduzir o país para um sistema de eletricidade 100% limpo até 2035 para abordar a mudança climática e reduzir a poluição.

O governo deveria manter nosso sistema atual no qual usamos carvão, petróleo e gás natural, bem como fontes de energia limpa, para gerar eletricidade baseada no que mantém os preços baixos.

Não sei dizer.

Qual declaração se aproxima da sua visão?

• O governo deveria investir $2 trilhões nos próximos quatro anos para criar milhões de empregos reconstruindo a infraestrutura da nação e transformando os EUA em uma economia de energia limpa.

• O governo não deveria desperdiçar $2 trilhões em projetos de políticos porque é um gasto governamental inútil que vai aumentar dramaticamente a dívida nacional.

• Não sei dizer.

Qual declaração se aproxima da sua visão?

• O governo deveria banir o “fracking”, o processo de extração de gás natural abaixo do solo, porque o gás natural é um combustível fossil que contribui com o aquecimento global e o fracking gera poluição do ar e da água ao redor dos locais de extração.

• O governo não deveria banir o “fracking” porque a indústria de gás natural emprega centenas de milhares de trabalhadores com bons salários e o gás natural é uma energia barata que é muito mais limpa do que outras como o petróleo e o carvão.

• Não sei dizer.

As respostas mostraram uma movimentação pequena, mas estatisticamente significativa sobre essas políticas climáticas enquanto os eleitores recebiam sugestões dos líderes dos partidos. Entre todos os eleitores, o apoio por um padrão de eletricidade limpa até 2035 permaneceu essencialmente constante antes e depois do debate em cerca de 50%. Apoio a uma infraestrutura de energia limpa de $2 trilhões cresceu pouco, de 52 para 54%, embora estando dentro da margem de erro. E, notavelmente, observamos uma movimentação significativa para longe do banimento do fracking, que teve seu apoio reduzido em sete pontos, de 46% antes dos debates para 39% depois.

Essas tendências são mais pronunciadas entre eleitores que se auto-identificam como Democratas. O apoio dos eleitores Democratas a um padrão de energia limpa até 2035 estava estável antes dos debates em 67%. O apoio por um investimento em infraestrutura de energia limpa no valor de $2 trilhões cresceu cinco pontos, de 66% para 71%. E seu apoio pelo banimento do fracking caiu incríveis 16 pontos, de 65% para 49%.

Pesquisas antes e depois desses debates mostram uma polarização assimétrica em políticas climáticas cruciais. Enquanto Trump e Pence tentaram associar Biden e Harris ao banimento do fracking – uma política com a qual os Republicanos acreditam poder evitar uma vitória Democrata na Pennsylvania – os candidatos Democratas rapidamente e empaticamente esclareceram que essa não era sua plataforma. Ao redor do país, seus eleitores os ouviram alto e claro. Os Democratas de toda a nação são agora menos inclinados a expresser apoio pelo banimento do fracking do que eram setembro.

Esse, como muitos outros “debates” na era Trump, parece como um slideshow. Um presidente não pode banir o fracking – somente uma lei do Congresso pode fazer isso, e os ambientalistas estão longe de conseguir os votos para isso. No 116o Congresso, a legislação para banir o fracking possui somente 21 co-patrocinadores na Câmara, e a legislação de Bernie Sanders no Senado possui somente um co-patrocinador solitário. Em troca, legisladores – como Biden e a maior parte do Partido Democrata – disseram que estão mais inclinados a buscar abordagens reguladoras para restringir e, com o tempo, eliminar progressivamente a indústria. Tendo isso em vista, a movimentação contra o banimento do fracking é certamente um desenvolvimento infeliz, mas nao é catastrófico, já que o banimento do fracking era, em boa parte, sobre expandir as fronteiras do debate nacional, o que não é algo que poderia ser aprovado pelo Congresso no curto prazo.

Mas com os dados nas nossas mãos, nos perguntamos se o tempo que Biden e Harris gastaram refutando Trump e as difamações dos Republicanos poderia ter sido melhor aproveitado. Nossa pesquisa sugere que se Biden e Harris tivessem sido tão enérgicos quanto foram em sua promoção do investimento de $2 trilhões e do padrão de energia limpa até 2035, eles teriam mobilizado Democratas e também persuadido os jovens, latinos, e eleitores de estados decisivos a votarem azul. Em outros momentos, Biden acertou a fórmula. “Quando Trump pensa sobre mudança climática, a única palavra que ele consegue pensar é ‘farsa’”, disse Biden aos repórteres em julho quando divulgou seus planos climáticos atualizados. “Quando eu penso sobre mudança climática, eu penso em empregos.” Nossa pesquisa mostra que os eleitores estão prestando atenção ao que os candidatos estão dizendo sobre essas questões. E quando o assunto é clima, energia limpa, o meio ambiente, e, agora, até a economia, são os Republicanos – não os Democratas – que se colocaram em maus lençóis. Se forem espertos, o Partido de centro-esquerda vai mudar as coisas, e será Trump e os Republicanos que vão se encontrar em desvantagem no próximo e ultimo debate.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares

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