Pelo Mundo

Tráfico de drogas: o que revela a prisão de general mexicano pelos EUA

 

22/10/2020 14:57

General Salvador Cienfuegos Zepeda (à esquerda) e o ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto (à direita).

Créditos da foto: General Salvador Cienfuegos Zepeda (à esquerda) e o ex-presidente mexicano Enrique Peña Nieto (à direita).

 

A prisão do ex-ministro da Defesa do México pelos Estados Unidos, acusado de tráfico de drogas, confirma o que traficantes e civis há muito afirmam: que o exército do país, que desempenha um papel exagerado no combate ao crime organizado, foi totalmente corrompido.

Em 15 de outubro, o Embaixador dos Estados Unidos no México, Christopher Landau, informou ao Ministro das Relações Exteriores, Marcelo Ebrard, que o General Salvador Cienfuegos Zepeda, Secretário de Defesa do México durante a gestão do ex-Presidente Enrique Peña Nieto (2012- 2018), foi preso no Aeroporto Internacional de Los Angeles.

O mandado de prisão pela Drug Enforcement Administration (DEA) [Agência para o Controle de Drogas] veio depois que Cienfuegos, apelidado de “O Poderoso Chefão”, sofreu três acusações de conspiração para traficar drogas e uma acusação de lavagem. de dinheiro, de acordo com uma denúncia apresentada em agosto de 2019 no Distrito Leste de Nova York.

As acusações resultam de alegações de que o general conspirou com o Cartel H-2 entre 2015 e 2017, de acordo com documentos judiciais. O Cartel H-2, que se desmembrou da Organização Beltrán Leyva, costumava ser liderado por Juan Francisco Patrón Sánchez, conhecido como “H2”, que foi morto a tiros por fuzileiros navais mexicanos no início de 2017.

Os promotores federais dos EUA acusam o general Cienfuegos de usar sua "posição pública para ajudar o cartel H-2 a [...] operar impunemente" em troca de subornos, de acordo com uma carta de 16 de outubro dos promotores à juíza do Distrito Leste, Carol B. Amon.

As evidências fornecidas incluem "milhares de comunicações [interceptadas] feitas por Blackberry Messenger" que mostram que Cienfuegos ajudou as operações militares não para visar o grupo, mas as organizações rivais, obter transporte marítimo para remessas de drogas, alertar o grupo sobre as investigações da polícia dos EUA e vincular os membros do grupo a outras autoridades mexicanas corruptas, dizem os promotores.

A ajuda de Cienfuegos permitiu que o Cartel H-2 operasse sem "interferência significativa do exército mexicano", o que permitiu ao grupo criminoso trazer "milhares de quilos de cocaína, heroína, maconha e metanfetamina para os Estados Unidos", sustentam os promotores na carta.

Cienfuegos não é o primeiro oficial mexicano acusado de conspirar com o Cartel H-2. O ex-procurador-geral do estado de Nayarit, Edgar Veytia, foi preso em 2017 e condenado a 20 anos de prisão por sua participação em uma conspiração internacional de tráfico de drogas com o grupo.

Embora Cienfuegos seja o membro do mais alto escalão das forças armadas mexicanas que enfrenta acusações de tráfico de drogas, ele é apenas um dos mais recentes oficiais de segurança de alto nível a ser preso.

Genaro García Luna, secretário de segurança pública do México entre 2006 e 2012, recebeu, em 2019, várias acusações de tráfico de cocaína. Ele também foi acusado de aceitar suborno do Cartel de Sinaloa, junto com dois agentes policiais de alto escalão, Luis Cárdenas Palomino e Ramón García.

A prisão de Cienfuegos não tem precedentes. E o simples fato de isso acontecer é impressionante.

Oficiais militares, há muito, são acusados de corrupção, mas raramente, ou nunca, foram levados à justiça. Mais de duas décadas se passaram desde que o general e ex-czar antidrogas Jesús Gutiérrez Rebollo foi preso e posteriormente condenado por conluio com importantes traficantes de cocaína como Amado Carrillo Fuentes, mais conhecido como o "Senhor dos Céus".

As Forças Armadas do México tem desempenhado, há muito tempo, um papel central na luta do país contra as drogas. Esse papel aumentou e se tornou cada vez mais militarizado em 2006, quando o então presidente Felipe Calderón lançou um ataque oficial contra grupos do crime organizado.

Desde então, mais de 200.000 pessoas foram mortas no país como parte da chamada ‘guerra às drogas’ e dezenas de milhares desapareceram. A acusação indica que Cienfuegos, ao mesmo tempo em que liderava a principal instituição na luta contra o crime organizado durante o governo Peña Nieto, estava em conluio com os próprios criminosos que deveria atacar.

Na verdade, a prisão de Cienfuegos muda drasticamente a noção de "guerra", em que o Estado está de um lado e os grupos criminosos do outro. Na verdade, esses atores estão muito interligados, mantendo a ordem e gerando violência como forma de normalizar condições que são mutuamente benéficas.

Os Estados Unidos também devem fornecer algumas respostas. Com a prisão de García Luna, e agora a de Cienfuegos, está cada vez mais claro que as autoridades de segurança e do governo dos Estados Unidos costumam trabalhar com contrapartes profundamente envolvidas no tráfico de drogas. A questão é, então, o que eles sabiam e quando sabiam disso. A especulação sobre a corrupção de alto nível existe há décadas, especialmente entre 2006 e 2012, durante o governo Calderón.

“Houve vários alertas quando Cienfuegos era general e, quando foi nomeado ministro da Defesa em 2012, ouvi rumores sobre sua corrupção”, disse Mike Vigil, ex-diretor de Operações Internacionais da DEA, em comunicação com a InSight Crime.

Não é exatamente a primeira vez que Cienfuegos está no centro da polêmica. Em 2015, o ex-chefe do Exército disse que seus soldados “não serão tratados como criminosos”, referindo-se ao desaparecimento de 43 alunos da Escola Normal de Ayotzinapa. No mês passado, as autoridades emitiram mandados de prisão para os supostos autores materiais e intelectuais do crime, incluindo membros das Forças Armadas.

Em 2014, Cienfuegos também rejeitou acusações de que suas tropas eram culpadas do chamado massacre de Tlatlaya, quando soldados mataram 22 pessoas no que foi considerado um “tiroteio”. Na verdade, os soldados receberam uma ordem direta para matar, segundo ativistas de direitos humanos.

A prisão de Cienfuegos também se soma à lista de autoridades mexicanas a serem indiciadas nos Estados Unidos e não em seu próprio país. Portanto, ele não terá que responder por algumas das graves violações dos direitos humanos de que é acusado enquanto servia como general no México.

Além disso, os militares continuam a ser uma das instituições de maior confiança no México e um dos pilares da segurança interna. Um decreto assinado em maio passado consolidou seu lugar na luta contra grupos criminosos em um futuro próximo. Os Estados Unidos também instaram recentemente o México a intensificar sua repressão, exigindo que o governo mexicano demonstre seu "compromisso de desmantelar os cartéis e suas empresas criminosas".

O que tudo isso faz é garantir que os militares permanecerão na linha de frente da batalha, apesar das últimas notícias.

*Publicado originalmente em 'InSight Crime' | Tradução de César Locatelli

Conteúdo Relacionado