Pelo Mundo

Trincheira de ideias: algumas reflexões

 

16/07/2021 17:44

(Reprodução/Resumen.cl/bit.ly/3Bf3O7e)

Créditos da foto: (Reprodução/Resumen.cl/bit.ly/3Bf3O7e)

 
Após várias semanas, chega o momento de escrever estas linhas na intenção de contribuir com o debate de ideias e o processo de formação crítica que melhore a capacidade de compreensão dos fenômenos políticos e sociais, a fim de elevar a capacidade de resistência dos nossos povos.

Há alguns dias fui convidado à rede de televisão Telesur (rede televisiva multi-estatal com sede na Venezuela) para comentar as causas e as prováveis consequências regionais e globais da retirada das tropas dos Estados Unidos que estão no Afeganistão. Sem dúvidas um tema de grande importância, conduzido com muito cuidado, rigor e profissionalismo pela apresentadora do programa, a ponto de me pressionar tacitamente afim de estar à altura da exposição da jornalista, sobretudo porque, eu tinha de fazer um esforço reflexivo para “escapar” da análise pontual do tema, o que deixaria pouco tempo para a apreciação estrutural que a questão exigia.

Passavam pela minha cabeça os acontecimentos recentes na Venezuela e região, especialmente no Haiti e em Cuba, cuja relação temporal e espacial não podem ser uma mera casualidade. Parece que esses eventos começam a configurar um novo modelo de ação imperial dentro das tradições intervencionistas e agressivas tão antigas quanto a própria existência dos Estados Unidos.

Alguém pode ser tão inocente de pensar que é apenas uma casualidade que após a visita do diretor da CIA na Colômbia, mercenários paramilitares deste país estejam envolvidos no assassinato do presidente do Haiti e na realização de protestos com envolvimento militar em Caracas? Alguém pode crer que estes acontecimentos não têm relações com os interesses de desestabilização contra o movimento revolucionário na Nicarágua e Cuba?

Cara leitora, a essência da análise política correta está na capacidade de agregar acontecimentos aparentemente isolados, projetando-os no futuro, analisando-os à luz dos interesses de classes, de setores, grupos e países, e, com isso determinar os cursos mais prováveis e os planos de ação do inimigo.

Assim que o Estados Unidos declararam os povos latino-americanos nessa condição (a de inimigo) e, considerando que desde o início de sua expansão em direção ao sul e oeste no início do século XIX, a história da relação estadunidense com a América Latina e Caribe tem exibido uma extensa lista de invasões, ocupações, assassinatos de presidentes e golpes de Estado, entre outros instrumentos que envolvem seu amplo catálogo ofensivo, torna-se fácil deduzir que a “missão delicada” do diretor da CIA, William Burns, na Colômbia, seu principal aliado na região, está associada a novos planos de ataque contra países que decidiram ser autônomos em relação às políticas ditadas por Washington.

O fato de setores da esquerda se acreditarem capazes de distinguir, entre os governos progressistas, aqueles bons e aqueles ruins, não muda que os Estados Unidos queiram agredir e destruir todos por igual fazendo desaparecer seus Estados e instituições, submetendo seus povos à miséria, à pobreza, à guerra e à morte. Os exemplos da Líbia, Síria, Iraque e Haiti, entre outros, são ainda recentes. Em todos eles houve críticas destes setores da esquerda em relação aos governos que ali estavam antes das intervenções “salvadoras” dos Estados Unidos e da OTAN.

Não é comum que se realizem reflexões pessoais nesse espaço, porém frente às reivindicações fraternais de alguns leitores que me perguntam por que não busco teorizar ou sistematizar a experiência do que está ocorrendo no mundo, quero responder-lhes muito cordialmente que, para meu pesar, não me encontro no cômodo escritório da universidade, mas na nada prazerosa – ainda que reconfortante – trincheira da luta anti-imperialista. Não posso me desvincular – ainda que quisesse – dessa realidade que me envolve com a desumanidade dos tempos e com o calor dos povos. Minha caneta – modesta na realidade – está a serviço desta causa, da mesma maneira que em tempos passados, outros instrumentos foram usados para a busca deste mesmo objetivo.

 A urgência e a angústia de colaborar com a busca de respostas aos conflitos cotidianos que o imperialismo nos impõe, são os meios que impulsionam meu trabalho e assim será enquanto a situação não mudar. Creio que – apesar das vitórias que se aproximam – não haverá mudança estrutural a curto prazo, porque não se alterará a essência agressiva do imperialismo, com a qual está associado seu DNA intervencionista.

A luta pela libertação dos povos é permanente e continua. Na América Latina e no Caribe, a resistência de Cuba, Nicarágua e Venezuela seguirá sendo a proa que indica o caminho a seguir. Não por acaso, é para estes países que a força imperial aponta seu aparato mais violento.

Os governos do México, Argentina e Bolívia se somam ao sentimento majoritário dos povos que clamam por paz, justiça e independência e isso logo chegará no Peru. Entre os paladinos que sustentam a ideia da democracia representativa neoliberal respaldada pelas doutrinas de segurança nacional contra um inimigo interno: Chile e Colômbia, seus povos dão mostras de sentimentos nacionalistas, patrióticos e democráticos em que enquanto governo ou oposição continuarão a dar mostras de sua luta pela emancipação.

Os povos do Caribe, com a dignidade de seus pequenos territórios e a grandeza de seu orgulho, dão exemplo de resistência às pressões neocoloniais. No mesmo sentido, os uruguaios acabam de proporcionar um contundente golpe ao governo de direita, recolhendo mais de 800 mil assinaturas para manifestarem seu descontentamento com as práticas neoliberais que pretendem retroceder as importantes conquistas obtidas por décadas de lutas da classe operária e do povo. No próximo ano, o retorno de Lula ao governo brasileiro dará um impulso decisivo aos esforços da região para recuperar seu caminhar histórico na via da sua necessária integração.

“Se o presente é de luta, o futuro é nosso”, disse Che Guevara. Para conquistar esse futuro, devemos continuar a luta. Não haverá Biden, nem império algum que poderá impedi-lo. Espera-nos um futuro luminoso. Os líderes podem equivocar-se, os povos sempre têm razão.

*Publicado originalmente em Ciudad CCS | Traduzido por Caio Cursini



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