Pelo Mundo

Trump ajuda as grandes empresas a lucrarem com a nossa miséria

O federalismo darwiniano da Casa Branca concede passe livre à ganância corporativa enquanto faz opositores políticos de bodes expiatórios

05/04/2020 15:37

Jared Kushner e Donald Trump conversam na sala de imprensa com membros da Força-Tarefa de Coronavírus da Casa Branca (Win McNamee/Getty Images)

Créditos da foto: Jared Kushner e Donald Trump conversam na sala de imprensa com membros da Força-Tarefa de Coronavírus da Casa Branca (Win McNamee/Getty Images)

 
Um dos fatos mais terríveis da pandemia do coronavírus é que Jared Kushner ainda está definindo políticas. O genro do presidente foi um dos arquitetos chefes da resposta inicial leviana à pandemia. Se Trump falou sobre a crise como uma farsa promovida pelos seus inimigos políticos e sobre a Covid-19 como um problema similar a uma gripe, foi porque Kushner estava sussurrando em seu ouvido. Kushner, alinhado com muitos na direita, pensava que a ameaça do coronavírus era exagerada pela mídia.

Durante as coletivas de imprensa diárias na Casa Branca sobre a pandemia, Kushner não minimiza mais. Ao invés, Kushner argumentou que muitos dos problemas que estão minando a resposta à pandemia foram originados nos governos estaduais. Ele insistiu que a escassez dos suprimentos médicos, como ventiladores e equipamentos de proteção pessoal, são questões que os governadores têm que enfrentar. “A noção do estoque federal era que deveria ser nosso estoque”, disse Kushner. “Não deveria ser o estoque dos estados que eles então usariam.” Kushner também disse que muitos governadores não sabem quantos ventiladores possuem. Ele explicou, “o que muitos eleitores estão vendo agora é que quando você eleger alguém...pense sobre quem será um gerente competente durante tempos de crise”.

As observações de Kushner deixaram claro que a Casa Branca de Trump transformou a pandemia em uma competição de reality show. Assim como os rivais no “O Aprendiz” tinham que batalhar para conseguir a aprovação de Trump, agora os governadores de 50 estados estão lutando para conseguir seus próprios suprimentos médicos.

“Essa é uma abordagem darwiniana ao federalismo; os direitos dos estados levados a um extremo mortal”, disse o ex-governador de Maryland, Martin O’Malley.

Esse torneio repulsivo tem dois propósitos: é uma maneira de fazer os governadores de bobos da côrte se tudo der errado; também cria novas oportunidades de lucro para as grandes empresas.

O reality show da pandemia, então, serve Trump tanto politicamente quanto ideologicamente. Um problema que ele tem tido com a pandemia é que foi difícil combater a crise sem violar a aversão Republicana aos gastos estatais. Mas os interesses corporativos que apoiam Trump não se importam com programas governamentais que possam ser lucrativos para eles, diferentemente das medidas de bem-estar social.

Em um nível ideológico, o federalismo darwiniano de Trump ajuda a ganhar conservadores que têm receio do governo federal. Estados liderados por Republicanos como o Arizona, Flórida e o Texas receberam permissão para tomar medidas mais tranquilas em relação ao distanciamento social. No Arizona, muitos negócios pequenos que seriam fechados em outro lugar, como barbearias, têm permissão para continuar funcionando. O governador da Flórida conquistou exceções para as igrejas continuarem a realizar grandes encontros.

Essa abordagem federalista darwiniana faz pouco sentido como política pública. Os EUA são uma nação sem fronteiras internas e uma mobilidade geográfica tremenda. Um surto na Flórida ou no Arizona poderia facilmente se espalhar pelo país.

Além disso, a abordagem de Trump coloca o governo federal e 50 jurisdições em competição pelos mesmos suprimentos médicos, estabelecendo uma guerra de preços que prejudica todos. Um sistema centralizado no qual suprimentos médicos fossem enviados para as regiões mais atingidas primeiro seria muito mais lógico e eficaz.

Mas a política de Trump é guiada não pela lógica, mas sim pela ideologia de direita que prioriza o enriquecimento das grandes empresas. Até o exército está, agora, incluso nesse objetivo. A marinha montou uma ponte aérea para ajudar a trazer equipamentos de proteção pessoal para os EUA. Falando sobre isso em uma coletiva de imprensa, o contra-almirante John Polowczyk disse: “esse produto que estamos transportando é primeiramente um produto comercial que entraria no sistema comercial e seria distribuído por meio de transações financeiras entre hospitais e esses distribuidores”.

Andy Slavitt, ex-administrador do governo Obama, conversou com diversos governadores sobre a situação dos ventiladores. “Um dos governadores fala comigo sobre preço”, reporta Slavitt. “A Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA) está comprando todos os ventiladores no mercado. ‘Não podemos comprar nenhum’, me diz outro governador. O outro achou um produtor que produziu 10 para ver se funcionam. Trump estava na TV reclamando que era culpa dos estados, no entanto, é a FEMA que está tornando difícil encontrar os ventiladores.”

Slavitt também observou, “um dos governadores está tentando comprá-los por $45.000 por ventilador. O custo típico é $15.000 por ventilador. O outro não consegue encontrar por esse preço (por isso o produtor). Estão todos apostando uns contra os outros. Estado vs. estado”.

Como observa Josh Marshall do Talking Points Memo, “está claro que imensas, imensas fortunas estão sendo criadas agora com a crise do COVID-19”. Marshall também observou que “se você tem os contatos certos, acesso a redes de comércio e poder político, essas fortunas a serem criadas estão iniciando guerras por produtos pelos quais as pessoas estão literalmente morrendo para ter. Isso é muito pior do que a maioria das pessoas imagina. E isso está sendo possível por não haver uma resposta federal clara ou por haver uma resposta federal que quer deixar os mercados do setor privado responderem ao desastre”.

Jared Kushner não minimiza mais a pandemia, ao invés, argumenta que os governadores têm que lidar com isso. A mesma transição pode ser vista nas visões de muitos intelectuais de direita. Em 27 de fevereiro, Candace Owens, uma provocadora alinhada à Casa Branca de Trump, tuitou, “agora todos vamos morrer de coronavírus. A esquerda está virando um culto apocalíptico”. Em 1 de abril, Owens teve um posicionamento diferente: “duas coisas podem ser verdade: o #coronavirus pode ser real, e políticos corruptos como @GovNedLamont e @NYGovCuomo podem estar mentindo para tirar dinheiro do governo federal porque seus estados liderados por socialistas estão sem dinheiro”.

O fato de que Kushner e Owens não estão mais descartando a pandemia é bem-vindo, mas como resposta à pandemia, o federalismo darwiniano é somente uma melhora sutil da negligência maligna.

*Publicado originalmente em 'The Nation' | Tradução de Isabela Palhares

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