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Trump ameaça mandar o exército a Minneapolis, após o assassinato de um negro

A morte de Floyd provocou protestos em várias cidades do país: em Nova York, apesar da proibição de circulação pelo coronavírus. Também aconteceram em Denver, Los Angeles, Memphis, Columbus, Phoenix, Atlanta e Louisville, Washington, Atlanta. A frase mais comum nos cartazes é ''não consigo respirar''

31/05/2020 17:54

 

 
Mais uma vez, a raiva eclodiu nos Estados Unidos devido à violência oficial sistemática contra a comunidade afro-americana, com outro grito de “basta”, ouvido em várias cidades do país, depois do que aconteceu em Minneapolis: um policial branco, com a cumplicidade de três colegas, prendeu e matou George Floyd, um negro acusado de pagar em um supermercado, supostamente, um cheque falso.

Um policial branco, acompanhado por três outros policiais, prendeu George Floyd segurando-o algemado em um estacionamento, o jogou no chão e manteve seu joelho sobre o seu pescoço por vários minutos, enquanto o detento dizia: eu não consigo respirar. Floyd morreu logo depois. Foi uma execução pública, mais uma. E a manifestação da ira, raiva e fúria sacudiu Minneapolis na quinta à noite e na sexta de manhã.

Um vídeo feito por um transeunte que se tornou viral nas mídias sociais mostra Floyd algemado ao chão enquanto implora a Chauvin que retire o joelho do pescoço porque ele não o está permitindo respirar. À medida que os minutos passam, o detido gradualmente para de se mover e implorar, até ficar imóvel. “Por favor. Por favor. Não consigo respirar, oficial. Não consigo respirar”. Floyd arfou, com as mãos algemadas atrás das costas.

O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, disse que “ser negro nos Estados Unidos não deveria ser uma sentença de morte”.


Os protestos eclodiram pelo terceiro dia na quinta e sexta de manhã, em Minneapolis, e foram confrontados com gás lacrimogêneo e balas de borracha da polícia, causando uma revolta civil que culminou na ocupação de uma delegacia de polícia, em um dos bairros mais afetados pela violência policial, e que foi incendiada enquanto as forças de segurança fugiam.

Resposta de Trump

A resposta do presidente Donald Trump não foi surpreendente: ele ameaçou enviar tropas e disparar contra os manifestantes. O prefeito decretou um toque de recolher, depois que Trump o criticou por “total falta de liderança”. Os protestos contra o racismo e os abusos policiais se espalharam por todo o país, enquanto o presidente ameaçou: “se os saques começarem, o tiroteio começará”.

Embora os quatro policiais tenham sido demitidos, o culpado só foi preso na sexta-feira, e somente após tumultos e ações judiciais em todo o país. Derek Chauvin, cuja imagem com o joelho no pescoço de Floyd se tornou viral, foi acusado de assassinato e seus três colegas ainda estão sob investigação.

Em sua batalha descontrolada pela reeleição (as eleições são – por enquanto – em novembro), Trump acrescentou uma nova frente de conflito interno ao panorama de mais de cem mil mortes por coronavírus, a crise do desemprego e a da saída da OMS (Organização Mundial da Saúde).

O presidente garantiu que o Exército estaria “até o fim” acompanhando o governador do estado de Minnesota, Tim Walz, na repressão dos protestos e descreveu os manifestantes como “bandidos”. O Twitter acrescentou um aviso à mensagem de Trump, considerando que ele violou as regras da rede social sobre “glorificação da violência”.

A mensagem foi denunciada como racista por um grande número de figuras (a frase sobre os saques é perfeita para ser usada por um famoso chefe de polícia de Miami, no final dos Anos 60, para ameaçar manifestantes), levando Trump a tentar retificar, sem sucesso. O presidente também está em uma briga com o Twitter: nesta semana, ele assinou uma ordem executiva para restringir seu conteúdo.

Repúdio

O ex-presidente Barack Obama divulgou uma declaração condenando o assassinato: “Isso não pode ser normal nos Estados Unidos de 2020”. O racismo está vivo, e bem vivo, nos Estados Unidos de hoje, e tem consequências mortais.

O ex-vice-presidente democrata e candidato presidencial Joe Biden denunciou as palavras de Trump e declarou que esta é uma crise nacional, que exige uma verdadeira liderança para enfrentar as feridas históricas do racismo no país.

O senador Bernie Sanders emitiu uma mensagem: “não podemos esperar para agir com ousadia e firmeza para tirar o câncer do racismo sistêmico e da violência policial contra pessoas de cor. Isso tem que parar”.

Várias personalidades destacadas do mundo da cultura e dos esportes, incluindo o fotógrafo Steve McCurry, o jogador de basquete Lebron James e o ex-atleta Magic Johnson, condenaram o racismo e o abuso policial contra afro-americanos.

“Não acho que as pessoas tenham sido tão violentas quanto o sistema tem sido contra elas”, explicou Michael McDowell, um dos fundadores da organização Black Lives Matter em Minneapolis. “Eles estão reagindo a um sistema violento… Eles não vão mais tolerar. Por isso Minneapolis está ardendo”, disse ele ao Washington Post.

A morte de Floyd provocou protestos em várias cidades do país: em Nova York, apesar da proibição de circulação pelo coronavírus. Também aconteceram em Denver, Los Angeles, Memphis, Columbus, Phoenix, Atlanta e Louisville, Washington, Atlanta. A frase mais comum nos cartazes é “não consigo respirar”.

Os afro-americanos representam 13% da população do país, mas foram vítimas de pelo menos 25% das mais de 100 mil mortes de covid-19 registradas nos Estados Unidos. A mesma disparidade na taxa de mortalidade prevalece entre os 5 mil estadunidenses mortos pela polícia desde 2015: os afro-americanos têm duas vezes mais chances de serem alvos da polícia do que os brancos. A violência policial é uma das principais causas de morte para jovens de cor, segundo observa o Democracy Now.

Philonise Floyd, irmão de George, disse à CNN: “eu amo meu irmão, todo mundo amava o meu irmão… conhecê-lo era amá-lo. Ele estava gritando “mãe, mãe, eu não consigo respirar”, mas eles não se importaram. Eu realmente não entendo o que que temos que sofrer na vida. Eles não tiveram que fazer isso com ele”.

O procurador-geral do Minnesota, Keith Ellison, disse em comunicado: “sua vida era importante. Ele tinha coragem… Vamos buscar justiça e vamos encontrá-la… Não estamos lidando com um caso isolado aqui, mas sim com um problema sistêmico. Precisamos uma mudança sistêmica profunda e permanente”.

Histórico recente

Em 23 de fevereiro, na Geórgia, Ahmaud Arbery foi morto a tiros por Travis McMichael e seu pai, o policial aposentado Gregory McMichael, depois de fugir.

Em 13 de março, a polícia de Louisville, em Kentucky, atirou oito vezes na enfermeira Breonna Taylor, e a matou, após invadir sua casa no meio da noite, entrando no apartamento errado, quando procurava um suspeito que já estava sob custódia.

Existem inúmeros casos anteriores, incluindo o de Eric Garner, que também foi detido pela polícia em Nova York em 2014, de modo que suas últimas palavras foram as mesmas que as de Floyd nesta semana: não consigo respirar e gerou o surgimento de novos movimentos direitos civis, incluindo Black Lives Matter, entre outros.

Mirko C. Trudeau é economista do Observatório de Estudos Macroeconômicos de Nova York e analista de temas sobre os Estados Unidos e a Europa, associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli

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