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Trump despede Tillerson: chefe da CIA será o novo Secretário de Estado

Trump disse que tomou a decisão por contra própria, e que "Tillerson será muito mais feliz agora". Segundo o mandatário, "Rex e eu temos uma boa relação, mas discordamos em algumas coisas"

14/03/2018 11:31

Reuters

Créditos da foto: Reuters

 
O presidente estadunidense Donald Trump anunciou nesta terça-feira (13/3), através de sua conta de twitter, a demissão do seu Secretário de Estado, o empresário Rex Tillerson, devido a um desentendimento entre os dois sobre o pacto nuclear com o Irã. O cargo passará a ser ocupado pelo atual chefe da CIA (Agência Central de Inteligência), Mike Pompeo.

Trump disse que tomou a decisão por contra própria, e que “Tillerson será muito mais feliz agora”. Segundo o mandatário, “Rex e eu temos uma boa relação, mas discordamos em algumas coisas”, explicou Trump aos jornalistas. “O acordo com o Irã, eu considerei terrível, ele achou que estava bem. Eu queria desfazê-lo, ele tinha uma ideia um pouco diferente a respeito. Então, realmente não estávamos trabalhando bem este tema”.

Ainda assim, Trump agradeceu Tillerson “pelos serviços prestados”, e assegurou que Pompeo, o substituto para o cargo, “fará um fantástico trabalho”.

Tillerson não falou com o presidente antes de sua destituição. Através de um assessor pessoal, o ex-funcionário afirmou que ele desconhece as razões pelas quais foi demitido. “O secretario não falou com o presidente nesta manhã (de terça-feira 13/3), e por isso não entende o motivo (de sua destituição), mas está agradecido pela oportunidade de servir (no cargo), e ainda acredita fortemente que o serviço público é uma vocação nobre”, disse Steve Goldstein, subsecretario de Estado para Assuntos Públicos, numa série de tuites em sua conta oficial.

Os rumores de que Tillerson, de 65 anos, poderia sair do Departamento de Estado a qualquer já circulavam na imprensa e nas redes sociais há algum tempo. Porém, em dezembro, Trump negou pessoalmente essas especulações, e garantiu que os dois trabalhavam muito bem juntos. Tillerson defendeu posições diferentes das de Trump, por exemplo, a respeito do conflito com a Coreia do Norte. Nesta segunda-feira( 12/3), Tillerson mostrou “plena confiança” na conclusão do governo britânico de que a Rússia foi “provavelmente”, responsável pelo ataque com um agente contra um ex-espião russo no Reino Unido.

Um funcionário da Casa Branca disse que Trump queria formar uma nova equipo antes das conversas iminentes com a Coreia do Norte, e uma série de negociações comerciais. A fonte revelou a informação sob condição de anonimato.

Pouco antes, a Casa Blanca havia evitado confirmar essa versão. A substituição de Tillerson por Pompeo é mais uma entre numerosos casos de troca de secretários no governo estadunidense nos últimos meses.

Em outubro, o noticiário da NBC informou que Tillerson havia chamado Trump de “idiota”, algo que Tillerson jamais negou claramente, apesar de ter buscado evitar explicitar a tensão dizendo que sua relação com o presidente era sólida – na ocasião Tillerson acabava de regressar de uma turnê pela África, que foi interrompida sem que o presidente explicasse o motivo daquela decisão.

Em março de 2017, Tillerson deveria ter se aposentado como alto executivo da Exxon, segundo as disposições da própria empresa. Recebeu 27,3 milhões de dólares no ano passado, e acumulou cerca de 160 milhões em ações da empresa, além de 149 milhões em opções não adquiridas, segundo uma declaração da empresa na Comissão de Bolsa e Valores dos Estados Unidos (SEC, por sua sigla em inglês).

Trump informou também que Gina Haspel será a primeira mulher que comandará a CIA, no lugar de Mike Pompeo, que deixará o cargo para assumir o Departamento de Estado. Porém, o papel desempenhado por Haspel como responsável de operações clandestinas em prisões secretas, onde os presos eram torturados, pode ser uma mancha na hora de dirigir uma das maiores agências de inteligência do mundo.

Haspel, de 61 anos, é uma espiã com grande experiência. Ingressou na CIA em 1985 e esteve em missões em vários lugares do mundo. “Ela é uma agente exemplar e uma patriota devota. Também é uma líder experimentada, com uma aptidão fantástica para realizar projetos e inspirar os que a rodeiam”, declarou Pompeo há um ano, quando a nomeou “número dois” da agência.

Três ex-diretores da CIA e vários altos responsáveis da instituição, entre eles James Clapper, ex-diretor de serviços de inteligência norte-americanos, deram seu apoio a Haspel. A nomeação contou com dois votos contra, de senadores democratas que mostraram reservas a respeito da nomeação, em uma carta enviada ao presidente, onde disseram que “Haspel é uma aposta. Não está capacitada para o posto”, estimaram os senadores Ron Wyden e Martin Heinrich.

Waterboarding na Tailândia

Em 2013, Haspel foi nomeada chega do Serviço Nacional clandestino da CIA, mas duas semanas depois foi substituída, aparentemente por dúvidas sobre sua responsabilidade nos casos de prisões secretas no exterior, onde se praticavam métodos como o waterboarding – tipo de tortura asfixiante com água – para interrogar os suspeitos.

Segundo matéria publicada na época pelo Washington Post, Haspel administrou “uma prisão secreta na Tailândia onde os detidos eram submetidos a simulações de afogamento e outros maus tratos”. O diário estadunidense relatou que a agente também estava envolvida na destruição de vídeos comprometedores sobre técnicas de “interrogatório exaustivo” aplicadas à maioria dos presos na Tailândia.

Os advogados de presos que seriam supostos membros da Al Qaeda tentaram recuperar os vídeos para apresentá-los à Justiça. Entre os presos submetidos a estes brutais métodos de interrogatório sob a responsabilidade de Haspel estavam dois sauditas: Abdelrahim al Nashiri, considerado cérebro do atentado contra o navio petroleiro Limburg, em 2002, e do ataque contra o buque estadunidense USS Cole, em 2000, e Abu Zubaydah, primeiro membro influente da rede islamista capturado pelos Estados Unidos antes do 11 de setembro.

Há um informe secreto sobre o programa de torturas da CIA, realizado em 2014 pela Comissão de Inteligência do Senado norte-americano, mas o presidente atual desta comissão (um republicano) tenta há vários meses reunir todas as cópias, para evitar vazamentos. Os democratas acreditam que há uma tentativa de destruir todas as cópias do informe, e que a verdade sobre o programa da CIA nunca será revelada. Este informe, de 6,7 mil páginas, detalha os métodos de interrogatório e as controversas condições de detenção dos suspeitos, que estão sujeitos a técnicas proibidas, como a simulação de afogamento (waterboarding) ou a privação do sono.

Um resumo de 528 páginas deste informe se tornou público em 2014, mas a versão completa, que consta como informação institucional, inclui detalhes sobre os métodos, os participantes e os lugares.

 * Com informações do diário mexicano La Jornada



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