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Trump diz que a pandemia de 1917 terminou a primeira Guerra Mundial

 

21/06/2020 13:35

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Créditos da foto: (Getty Images)

 
Donald Trump não está mais se embaralhando para fazer aqueles testes de livre associação, de várias horas, que se passavam por briefings sobre a COVID-19. Ele, portanto, não tem mais as câmeras de todas as redes focadas nele, enquanto explica como tudo está "totalmente sob controle", ou como o vírus "milagrosamente desaparece", ou quando ele insiste, repetidamente, que "isso é igual uma gripe".

Não estamos mais recebendo informações sobre como seria bom "limpar nosso interior" com uma injeção de água sanitária e não estamos mais sendo pressionados a tomar, sem evidência de benefícios, um medicamento usado contra a malária. Mas, não é por que essas coletivas desapareceram, que Donald Trump esteja parecendo um pouco mais sensato.

Em duas novas entrevistas - uma com Sean Hannity e outra com o Wall Street Journal - Trump retoma o ritmo da distribuição de informações genéricas erradas, mentiras absolutas e declarações que se tornam doloridas de tão irracionais. Você sabia que a Primeira Guerra Mundial terminou porque os soldados ficaram doentes demais para lutar? É verdade! Bem não, não é. Mas Trump disse que era.

Vamos começar …

A entrevista por telefone de Trump com Hannity foi, como tudo o que Trump faz, cambaleante, divagante e demorada demais. Felizmente, a CNN destilou a essência da conversa em uma série de declarações que mostram como a Trumplândia, do outro lado do espelho, realmente é.

Trump gasta bastante tempo nos protestos contra a violência policial que se seguiram ao assassinato de George Floyd. E ele aponta o verdadeiro problema … que são os protestos. A maioria dos manifestantes, segundo Trump, "nem sabe por que está protestando". E eles também não valorizam o tanto que Trump fez para tornar tudo "o melhor". Ele também passa algum tempo explicando como a polícia não está sendo tratada de maneira justa e que está "sitiada". Isso foi logo antes de Trump explicar como a polícia tinha justificativa para atirar em Rayshard Brooks porque ele "recebeu um relatório de que o advogado do policial ouviu um som parecido com o de uma arma".

Afinal, que fonte de informações precisas poderia ser melhor do que o advogado do cara que atirou em um homem negro duas vezes pelas costas enquanto ele fugia? O policial envolvido está sendo acusado de homicídio culposo, por isso deve ser bom ter Trump em sua equipe de defesa.

No final, Trump divagou sobre a crise da COVID-19, onde, como seria de se esperar, ele fez um trabalho fantástico. Trump explicou novamente que, depois que "uma pessoa informou [sobre a Covid-19]", ele interrompeu os voos da China. No mundo real, Trump restringiu alguns voos da China, um mês inteiro depois que a Organização Mundial da Saúde relatou o surto na China e duas semanas após o primeiro caso identificado nos Estados Unidos. É absolutamente claro que a restrição dos voos, decretada por ele, não adiantou nada para retardar a propagação da doença, mas como é a única coisa que ele fez por dois meses, ele precisa continuar repetindo isso.

Trump, então, explica como a gripe espanhola aconteceu em 1917 e como a gripe "provavelmente terminou a Primeira Guerra Mundial, porque todos os soldados estavam … eles estavam muito doentes". O que é um nível de ignorância que seria assustador para um aluno da terceira série. Trump errou a data, a ordem dos eventos e todo o resto sobre a última grande pandemia. Você poderia imaginar que, considerando que ele agora tem assistido à morte de mais norte-americanos do que durante todo o surto da gripe de 1918-1919, ele estaria estudando esses eventos. Você estaria errado se pensasse assim.

No entanto, você ficará emocionado ao saber que os adeptos da ‘conspiração Q’ [NT: um grupo de extrema direita, liderado por alguém misterioso que se identifica por ‘Q’, que acredita em uma teoria que Trump enfrenta uma batalha contra um estado profundo.] já incorporaram o pisoteamento selvagem dos fatos de Trump, enquanto uma série de pistas informa aos conhecedores de que os Estados Unidos estão secretamente em guerra com a rainha da Inglaterra. E se você precisar perguntar como isso se dá, você nunca entenderá.

Além de sua “lição” de história sobre a pandemia de 1918 1917, Trump também insiste que as crianças precisam voltar à escola porque "seus sistemas imunológicos são muito fortes". Ele, é claro, ignorou o fato de que centenas de crianças em todo o país morreram ou sofreram lesões de longo prazo pela COVID-19. Ele também não demonstrou preocupação com pais, professores, treinadores ou qualquer outra pessoa que trabalhe com essas crianças.

E no departamento de “me-engane-com-outra-desculpa”, Trump apresentou uma alegação de que "ninguém sabia que seria tão contagioso". Ninguém sabia, exceto todo mundo, já que a OMS já havia publicado fatores estimados de transmissão no início de janeiro e o crescimento incendiário nas primeiras semanas do surto na China tornou óbvia a gravidade da doença.

Isso estava longe de ser tudo o que Trump tinha a dizer em sua conversa prolongada com Hannity, ele ainda teve tempo para conversar com o Wall Street Journal, onde sua entrevista foi novamente recheada de declarações que, em tempos normais, - ou mesmo em tempos altamente anormais - deveria ter trazido propostas de sua expulsão da cidade.

Além de inventar o Juneteenth [dia 19 de junho, comemoração da libertação dos últimos negros feitos escravos nos EUA, há 150 anos], Trump se esforçou bastante para explicar como as estátuas confederadas deveriam deixar os negros "orgulhosos" e como a remoção dessas estátuas apenas dividiria ainda mais o país.

Presumivelmente, o que Trump quis dizer foi que isso irritará os supremacistas brancos e os dividirá de todos os outros - um bem considerável. Assim como com Hannity, a resposta de Trump às perguntas sobre a violência policial contra a comunidade negra resultou em muitas declarações sobre como Trump criou um “busilhão” [bajillion] de empregos e como fez tudo tão bem e como os negros nunca estiveram tão bem.

Então Trump começou a falar mais sobre o coronavírus e … estava tudo tão distante lá do outro lado da realidade que, de lá, não se conseguia enxergar aqui.

Entre outras coisas, Trump revelou uma teoria da conspiração que a “multidão Q” nem precisa elaborar: Trump explicou como a China permitiu que a COVID-19 se infiltrasse para além de suas fronteiras expressamente para afundar a economia dos EUA, já que, sob Trump, os Estados Unidos estavam indo tão bem e a China estava aprendendo uma lição. Não. Sério.

"Há uma chance de que tenha sido intencional", disse Trump. Questionado se a China havia liberado o vírus para causar impactos econômicos, Trump concordou ansiosamente. "Está correto. Eles estavam dizendo, cara, estamos uma bagunça. Os Estados Unidos estão nos matando. Não se esqueça, minha economia durante o último ano e meio estava acabando com eles. E o motivo são as tarifas.” As tarifas… que estavam sendo pagas pelos consumidores dos EUA e custavam bilhões aos agricultores dos EUA. É por isso que a China se envolveu em guerra biológica, permitindo que milhares de cidadãos morressem para que os Estados Unidos fossem punidos.

Trump não explica a parte disso que exige que a China soubesse, antecipadamente, que resposta dele à pandemia seria totalmente incompetente, ou como foi que a China conseguiu interromper a propagação da doença lá e depois recostar-se na poltrona, enquanto a Covid-19 explodia nos Estados Unidos. Mas é da natureza da teoria da conspiração de Trump que ela contém buracos suficientes para uma década de queijos suíços.

Com base em quais evidências Trump acusou outra nação de se envolver em guerra biológica para destruir a economia dos EUA? Nenhuma. Trump disse que "não tinha informações dos aparatos de inteligência para sustentar essa afirmação, apenas uma percepção interna". Então Trump pareceu recuar, dizendo que a epidemia nos Estados Unidos era apenas "incompetência ou erro" … por parte da China. Embora ele também não tenha se esforçado para explicar como isso teria acontecido.

Trump passou a explicar como ele havia “criado a maior máquina de testes da história”, antes de ter uma tristeza. "De muitas maneiras", disse Trump, "isso faz parecermos mal". Se não houvesse testes, a COVID-19 desapareceria magicamente. E os hospitais encheriam magicamente. E centenas de milhares de pessoas morreriam magicamente. E isso não seria muito melhor?

E então havia coisas sobre John Bolton, mas … depois de saber que a gripe espanhola havia terminado a Primeira Guerra Mundial em 1917, que a China havia sacrificado milhares para matar a economia superior de Trump, e que a máquina de testes de Trump estava criando um problema de imagem, o que quer que Trump viesse a dizer sobre Bolton não pareceria tão importante.

*Publicado originalmente em 'Daily Kos' | Tradução de César Locatelli



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