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Trump e a esquizofrenia frente ao coronavírus - não estamos sós

 

24/04/2020 14:07

Hannah Yoest (GettyImages/Shutterstock)

Créditos da foto: Hannah Yoest (GettyImages/Shutterstock)

 
O presidente dos EUA, Donald Trump, tem tido uma relação esquizofrênica com a crise causada pelo vírus da COVID-19, que assola o mundo inteiro há semanas. Inicialmente, tentou negar a gravidade e, por vezes, até mesmo a existência do problema. Em várias ocasiões, especialmente em eventos de campanha com sua base eleitoral, o republicano chegou a afirmar que o país não seria afetado pelo vírus e que tudo estaria sob controle.

Foi somente após a forte insistência de membros técnicos de seu governo, os quais afirmavam que a disseminação do vírus no território americano poderia levar à morte de cerca de dois milhões de pessoas, que Trump foi forçado a reconhecer – muito a contragosto – os fatos a ele apresentados. Começou, então, a colocar em andamento medidas de cunho nacional de gerenciamento da pandemia. Ainda assim, após decretar que o novo coronavírus representava uma situação de calamidade nacional, Trump fez todo o possível para converter a crise em uma grande oportunidade política.

Cortina de fumaça

Isso ficou claro nas coletivas de imprensa diárias dadas na Casa Branca ao longo do último mês. Nelas, Trump ataca reiteradamente os jornalistas que indagam sobre os continuados problemas que o país tem enfrentado no combate à disseminação do vírus – lembrando que os EUA têm hoje o maior número de casos de infecção (mais de 766.200) e de mortes (quase 41 mil) no mundo. O presidente também nega evidências apresentadas por membros de sua própria equipe e, acima de tudo, tem sido incansável em buscar centralizar nele mesmo qualquer fato positivo sobre a crise. Concomitantemente, de maneira dura, rejeita qualquer responsabilidade por eventuais falhas e erros cometidos.

Nesse sentido, já acusou governadores – quando alguns deles reclamaram da falta de apoio do governo federal na distribuição de respiradores hospitalares e de equipamentos de proteção para profissionais da saúde (máscaras) – de não estarem desempenhando bem suas funções. Com isso, joga para eles a responsabilidade central na condução das políticas públicas de saúde. Ao mesmo tempo, de uma maneira novamente esquizofrênica (ou pelo menos cínica), Trump tem atacado estes mesmos governadores por – segundo ele – estarem exagerando a gravidade da situação. Foi especialmente crítico quando muitos deles decretaram o fechamento de escolas e de comércio locais, momento em que volta a reivindicar essa mesma responsabilidade para si, por ser ele a autoridade máxima do país.

Embora do ponto de vista legal seja claro que, constitucionalmente, decretar a necessidade do fechamento de escolas, restaurantes e de outros estabelecimentos comerciais nos estados e municípios seja atribuição de governadores e prefeitos, Trump continua fazendo bravatas. Na semana passada, declarou que ele – e somente ele – poderia decidir estas questões. Aproveitou a oportunidade para lançar uma ameaça: se não conseguir a aprovação de sua agenda e das nomeações administrativas (não ligadas à questão da COVID-19) no Congresso, poderá apelar para o fechamento da Casa. Esta possibilidade encontra amparo em um obscuro e nunca usado artigo da Constituição norte-americana.

A semana foi ainda recheada pela também autoritária e igualmente politiqueira decisão de cancelar a transferência dos recursos que cabem ao país para com a Organização Mundial da Saúde (OMS). A alegação é que a agência teria acobertado a omissão chinesa de alertar a comunidade internacional imediatamente após ter tomado conhecimento da existência da COVID-19 em seu território – algo ainda sob investigação e que, certamente, serve mais para reforçar a imagem de líder nacionalista frente a sua base mais aguerrida do que ao combate à pandemia.

O confronto com os governadores assume agora um novo contorno. Ainda que tenha sido Trump o primeiro a querer abrir mais rapidamente a economia do país, vários governadores começaram a indicar que gostariam de iniciar o processo de reabertura em seus estados. Para não ser, novamente, ofuscado pelos governadores no processo de gerenciamento da crise, Trump assumiu sem perda de tempo o lugar central na narrativa – algo que, como presidente, não foi difícil.

Plano na medida de um ano eleitoral

Anunciou, então, um plano de três etapas para a retomada das atividades econômicas no país por de meio de diretrizes nacionais (não mandatórias) para a flexibilização das medidas de isolamento e a reabertura de atividades de ensino, comércio não essencial e eventualmente de atividades coletivas mais amplas, como restaurantes, eventos, entre outros.

Na primeira fase do processo, atividades comerciais não essenciais e de pequeno volume de pessoas poderiam ser reabertas. Em uma segunda etapa, viagens e escolas poderiam ser retomadas, apesar de, cabe ressaltar, a maioria das empresas ter restringido viagens, e a maioria das escolas, cancelado a retomada de aulas presenciais até a segunda metade do ano. Assim, essa etapa não parece ter grande consequência prática, pelo menos por ora.

Cabe apontar também que, nestas duas primeiras etapas, grupos considerados como de risco para a COVID-19 – idosos e pessoas com doenças pré-existentes, como diabetes e câncer – ainda teriam como recomendação permanecerem isolados. Apenas em uma terceira e última fase essa restrição seria eliminada.

Duas questões centrais sobre o plano anunciado por Trump merecem menção.

Primeiro, a implementação de cada fase será progressiva, com duas semanas de efetivação em cada uma delas, até que uma próxima ocorra. Aqui, os desdobramentos sobre a eficácia e os resultados esperados em cada etapa vão condicionar a consecução da próxima. Os casos de infecção e de internação precisarão ter diminuído de forma contínua ao longo de 14 dias seguidos, a fim de que uma nova fase seja atingida.

Em segundo lugar, diretamente associado ao ponto anterior e algo que tem sido objeto de crítica de especialistas, é essencial dizer que a melhor forma de monitoramento da progressão da doença no meio da população ao longo do processo de diminuição do isolamento social seria a de testes em massa. E isso é algo que os EUA ainda não têm a menor condição de fazer e talvez não consigam efetivar antes do mês de julho. Ainda assim, Trump disse esperar que a maioria do país tenha retomado sua rotina no simbólico 1o de maio.

É compreensível, especialmente em um ano eleitoral, que Trump queira retomar as atividades produtivas da maior economia do planeta. No último mês, 22 milhões de pessoas foram forçadas a pedir seguro-desemprego nos EUA, e analistas projetam uma queda de 5% no PIB para 2020. Embora estejam sofrendo pressão mais direta de empresários e de líderes religiosos locais, os governadores têm sido bem mais cautelosos para oferecer uma data específica para que esse processo ocorra. De fato, governadores da região mais densamente populosa do país (Nova York e Nova Inglaterra) acabam de estender o isolamento até, pelo menos, 15 de maio.

É difícil prever o que vai acontecer nos EUA nas próximas semanas. O que é certo é que Trump, assim como seus parceiros ideológicos, entre eles o presidente Jair Bolsonaro, vem demonstrando um comportamento errático em suas políticas de gerenciamento da crise provocada pela COVID-19 em seu país. Que haja razões políticas e ideológicas para tal comportamento não diminui a importância do estilo volúvel (talvez mesmo esquizofrênico) do presidente, em detrimento claro do bem-estar da população norte-americana.

Rafael R. Ioris é professor da Universidade de Denver e membro do INCT-INEU

*Publicado originalmente em 'OPEU'

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