Pelo Mundo

Trump e as pressões para o fim da quarentena

Crianças de todas as idades parecem suscetíveis à COVID-19, sem diferenças significativas de gênero. Embora as manifestações clínicas dos casos de COVID-19 de crianças geralmente sejam menos graves do que as de pacientes adultos, crianças pequenas, principalmente bebês, eram vulneráveis à infecção

27/03/2020 13:07

(Reprodução)

Créditos da foto: (Reprodução)

 


O parágrafo acima é a conclusão da pesquisa coordenada por Shilu Tong, do Centro Médico Pediátrico de Xangai. Trata-se do primeiro estudo realizado até o momento sobre a doença, feito com um universo de 2.143 casos de crianças infectadas com a COVID-19 notificados ao Centro Chinês para Controle e Prevenção de Doenças entre 16 de janeiro e 8 de fevereiro de 2020. Pré-publicado pela revista Pediatrics, este artigo certamente terá um papel importante no debate político que se abriu nos últimos dias.

As pressões de empresários e de setores econômicos para a suspensão das medidas de isolamento acentuaram, com indiferença desumana, que o coronavírus causa principalmente a morte de idosos – pessoas que “morreriam de uma forma, ou de outra”. Para eles, isso representa um custo baixo diante dos impactos que afetarão a economia. A declaração do vice-governador do Texas, Dan Patrick, é emblemática deste show de horrores: “avós concordariam em se sacrificar para salvar a economia para seus netos”.

De fato, os dados da China e da Itália, até agora os casos mais graves da pandemia da COVID-19 junto com os EUA, mostram que os casos de morte são em maior número entre os idosos e os portadores de doenças crônicas. A ampla divulgação dessa informação tem sido uma forma de reiterar os cuidados especiais para esse grupo. Vem sendo, no entanto, apropriada por alguns setores para defesa de medidas de mitigação, no lugar do confinamento total.

Como mostra a análise de letalidade estratificada, porém, a mortalidade não está limitada aos idosos e, com a progressão do número de casos, todas as faixas etárias são atingidas. Neste cenário, a quarentena tem como objetivo retardar a exponencial propagação do novo coronavírus e, assim, aumentar as chances de acesso ao atendimento pela rede de saúde para os casos que precisem de internação.

Como a COVID-19 afeta as crianças?

A publicação da revista Pediatrics foi comentada por matéria do jornal The New York Times e do site italiano de notícias TGcom 24, destacando a exposição das crianças à infecção e que, mesmo que em proporções quantitativamente menores, os quadros podem ser graves.

A pesquisa de S. Tong mostrou que, em 5,9% das crianças que contraíram a doença em forma grave (125 crianças no total), 13 já pertenciam ao grupo considerado crítico, aquele que já estava em risco por insuficiência respiratória, ou outros problemas pré-existentes. Os demais foram classificados como “graves” porque apresentaram sérios problemas respiratórios. O estudo revelou também que as crianças foram contaminadas pela família e por outras crianças, e que o risco de infecção nas famílias é de 15%, muito superior a 7,9% para a população em geral.

“Segundo o nosso conhecimento, este é o primeiro estudo retrospectivo sobre as características epidemiológicas e dinâmicas de transmissão da COVID-19 infantil na China. Como a maioria dessas crianças era susceptível de se expor a membros da família e/ou a outras crianças com COVID-19, ele indica claramente a transmissão de pessoa para pessoa”, afirma o artigo.

Além dos aspectos epidemiológicos, o que chama a atenção no estudo chinês é revelar que as crianças também estão expostas a riscos. Trata-se de informação crucial no contexto do debate político e de avaliação sobre as políticas públicas a serem adotadas para a saúde. Ainda que os sintomas nas crianças sejam mais leves, o quadro que o estudo aponta exige atenção, expondo ameaças que não podem ser menosprezadas.

Trump e Bolsonaro: pressão para o fim das medidas de isolamento

Em meio às previsões de crise econômica global, a preocupação com os impactos da quarentena sobre a economia tem feito emergir na cena pública uma faceta sombria. Empresários e políticos, nos Estados Unidos e no Brasil, pressionam para que os trabalhadores voltem às atividades, colocando em descrédito as orientações das autoridades sanitárias locais e internacionais.

Para o presidente Donald Trump, as medidas de isolamento social precisam ter fim para que a economia volte à normalidade. Em entrevista à rede Fox News, o empresário nova-iorquino afirmou que, em 15 dias, o isolamento social precisa ser encerrado, e a economia dos Estados Unidos, reaberta. Segundo ele, a paralisia poderá destruir as bases econômicas da nação, o que poderá ter efeitos ainda mais danosos. Os EUA já ultrapassaram China e Itália em número de casos confirmados, como mostra o mapa do Center for System Science and Engineering (CSSE), da Johns Hopkins.

Em sua fala, o presidente americano defendeu o isolamento vertical, pelo qual apenas os grupos de risco – como idosos e pessoas com doenças preexistentes, infectados ou com sintomas causados pelo novo coronavírus – deveriam continuar em quarentena, e o restante, retomar suas atividades normais. Isso coloca a lógica da economia e dos interesses de grupos à frente das decisões e dos protocolos das autoridades de saúde, nacionais e internacionais.

Com orientações similares às de Trump, o pronunciamento de Bolsonaro em rede nacional esta semana foi criticado por autoridades de saúde, políticos e por grande parcela da população, traduzindo, sem espaço para o benefício da dúvida, sua absoluta falta de discernimento sobre a natureza da pandemia e sobre a responsabilidade política do governo e do Estado. No Brasil, são quase três mil casos confirmados e perto de 80 mortos até o momento.

Especialistas e até aliados criticam Trump

A convocação de Trump é preocupante. Dados sobre a pandemia nos Estados Unidos apontam que o país poderá se tornar o novo epicentro do coronavírus. Como destacou a emissora CNN, as declarações de Trump foram feitas no mesmo dia em que o número de casos passou de 40 mil e que 100 pessoas morreram em um único dia, pela primeira vez.

No artigo “Flatten the Curve of Infection and the Curve of Recession at the Same Time: Now is the Time to Inoculate against the Economic Mutation of COVID-19”, publicado na revista Foreign Affairs, Pierre-Olivier Gourinchas avalia que a proposta de fim da quarentena, justificada pelos danos que serão causados à economia, simplifica o problema e retarda as respostas necessárias. O autor observa que a magnitude da crise é sem precedentes. Ressalta ainda que nenhum sistema de saúde tem condições pra responder à pressão da demanda por leitos de cuidados intensivos, como mostrou um relatório da Equipe de Resposta do Imperial College COVID-19. A estimativa do estudo é que se chegue a 2,2 milhões de óbitos apenas nos Estados Unidos.

Gourinchas critica a atitude precipitada de Trump de propor a retomada da economia sem que se tenha dobrado a curva de evolução da pandemia e defende a necessidade de medidas econômicas que garantam a manutenção do emprego e da renda dos trabalhadores durante a quarentena. Entre elas, sugere políticas de crédito e de assistência financeiras a pequenos e médios negócios, para evitar falências, e ao sistema financeiro. O autor alerta, porém, que “o código de falência está aqui para proteger as corporações dos credores, permitindo-lhes continuar a operar durante e após uma crise. Os lobistas não devem ser autorizados a usar esta emergência nacional para encher os bolsos dos seus senhores”.

Fazendo uma advertência quanto à gravidade da crise de saúde, a representante republicana Liz Cheney (R-WY) também criticou Trump: “Não haverá economia em funcionamento normal, se nossos hospitais estiverem sobrecarregados e milhares de americanos de todas as idades, incluindo médicos e enfermeiros, estiverem morrendo porque não conseguimos fazer o que é necessário para parar o vírus”.

As palavras do governador de Nova York, Andrew Cuomo, ilustram a indignação que tem tomado conta de muitos setores, nos Estados Unidos e também no Brasil, em face dos argumentos que sobrepõem razões econômicas à mortalidade de idosos: “Minha mãe não é dispensável. Sua mãe não é dispensável. Não aceitaremos a premissa de que a vida é descartável e não colocaremos um dólar na vida humana”.

Em entrevista à CNN, o diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, dr. Anthony Faucy, criticou a ideia de estabelecer arbitrariamente uma data para a suspensão da quarentena. Ele frisou que essa decisão depende dos dados e que é preciso aguardar o achatamento da curva, ou seja, o momento em que os indicadores da propagação do vírus começam a declinar. “Você precisa ser realista e entender que não faz a linha do tempo, o vírus faz a linha do tempo”, acrescentou.

O confronto de Trump com especialistas e funcionários públicos no contexto da crise, segundo o artigo de Daron Acemoglu, professor do Departamento de Economia do MIT, é revelador de uma guinada autoritária de Trump e tem contribuído para o enfraquecimento da burocracia federal.

“O governo Trump não apenas falhou em manter a infraestrutura de saúde crítica que protege o país contra doenças contagiosas – por exemplo, ele dissolveu a unidade de preparação para pandemias que fazia parte do Conselho de Segurança Nacional até 2018 –, mas enfraqueceu ativamente o serviço público. A hostilidade do presidente à perícia imparcial forçou muitos dos funcionários federais mais capazes e experientes a deixarem o cargo, apenas para serem substituídos pelos partidários de Trump”, relatou Acemoglu.

Enquanto isso a evolução da pandemia nos Estados Unidos segue de forma ascendente, com 102.338 casos confirmados. Este número já é superior aos de China e Itália, até então os cenários mais críticos. Conforme dados de 27 de março, a situação mais grave é a do estado de Nova York, com 44.810 casos confirmados e 519 mortes, seguido de Nova Jersey, Califórnia e Washington, em número de casos, e por Washington (175), Louisiana (119) e Nova Jersey (108), em número de óbitos.

Economia e eleições: a agenda urgente de Trump

Diante da evidente dificuldade para reverter rapidamente o cenário de aprofundamento da pandemia, parece que a aposta do governo Trump está na mitigação dos efeitos para a economia americana.

Aliás, importante lembrar, sua atitude de indiferença e a recusa em aceitar a gravidade da situação se dissiparam na primeira quinzena de março, quando as previsões de crise e as necessidades de medidas econômicas tomaram conta do debate internacional. Em 30 de janeiro, o secretário americano de Comércio, Wilbur Ross, chegou a afirmar que sua expectativa era que a epidemia na China levasse as empresas a reconsiderarem sua cadeia global de suprimentos. Isso “ajudaria a acelerar” o retorno dos empregos para os Estados Unidos, como declarou em entrevista à Fox Business.

Na contramão dessas expectativas, os dados estão desenhando cada vez com maior nitidez um quadro de recessão para os Estados Unidos e para a economia global, como mostraram as previsões da Morgan Stanley. Segundo o relatório do Departamento do Trabalho americano, o desemprego já atingiu 3,3 milhões de pessoas, que solicitaram seguro-desemprego. Em uma semana “normal”, a média seria de 220.000 pedidos. Esse total representa um índice de desemprego de 13%, mais do que os 10% atingidos em 2009, no fim da recessão deflagrada em 2008.

A pesquisa da The Economist/You Gov, realizada entre 22 e 24 de março, apurou que 67% dos entrevistados acreditam que o coronavírus poderá levar a uma recessão econômica, e 50%, que os Estados Unidos já estão em recessão.

Seguradoras de saúde, banqueiros, setores diretamente afetados, como o aéreo e o turístico, e pesos-pesados da moda, como o Council of Fashion Designers of America (CFDA), a National Retail Federation, o Accessories Council e a Fashion Footwear Association of New York, pressionaram o governo para um pacote de estabilização econômica. A reivindicação envolve acesso a crédito e ajuda para os negócios e apoio para os trabalhadores, na forma de um pacote de resgate que mantenha o consumo por meio de programas de transferência de recursos do Estado.

Nesse contexto, o Senado aprovou, depois de cinco dias de negociações entre o líder da maioria republicana na Casa, Mitch McConnell, o líder da minoria, o democrata Chuck Schumer, e o secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, o que está sendo considerado um dos mais fortes planos de resgate econômico da história: um pacote de US$ 2 trilhões para estimular a economia. Para os republicanos, os democratas tentavam impor seu Green New Deal e políticas introduzindo novo ônus para as regulações. Para os democratas, havia muita ênfase na ajuda aos negócios em detrimento de medidas para socorro aos trabalhadores.

O pano de fundo desse confronto é o desempenho da economia e as eleições. A prosperidade e a recuperação do emprego são dois pilares da retórica política de Trump e, em face da evidente derrota no campo da crise sanitária, a prioridade do presidente e de seus correligionários será evitar a recessão e minimizar o impacto da crise sobre os americanos.

Sem isso, dificilmente convencerá o eleitor de que poderá Make America Great Again.

Edna Aparecida da Silva é cientista política e pesquisadora do INCT-INEU.

*Publicado originalmente em 'OPEU - Observatório Político dos Estados Unidos'

Conteúdo Relacionado