Pelo Mundo

Trump está nos desafiando a pará-lo

 

05/08/2020 19:15

(Nathaniel St. Clair)

Créditos da foto: (Nathaniel St. Clair)

 
A recente propaganda de reeleição eleitoral do presidente Donald Trump veio direto de um filme de terror. Apenas dias após ele enviar oficiais federais para as ruas de Portland, no Oregon, sua campanha divulgou uma propaganda televisiva de 30 segundos que contou com uma idosa branca assistindo em sua TV ativistas exigindo o corte de verbas da polícia. A mulher balança a cabeça em reprovação enquanto percebe a silhueta de alguém em sua porta tentando entrar em sua casa. Nervosa, ela liga para a polícia, mas aparentemente os ativistas que ela tanto reprova foram tão eficazes em seus protestos que, agora, a linha direta com a polícia que tantos cidadãos dependem, não responde. A mulher vulnerável derruba o controle remoto enquanto o intruso entra em sua casa, e nós só podemos imaginar o horror que ele fará com ela enquanto as palavras “você não estará seguro nos EUA de Joe Biden” aparecem na tela. Nessa versão distópica da nação, somente Trump promete lei e ordem.

Trump já alegou repetidamente que Biden, o presumido candidato Democrata à presidência, apoia o corte de verbas da polícia norte-americana. Ele não apoia, e, na realidade, tendo em vista seu histórico de apoio a polícia, Biden exigiu um aumento da verba das forças de segurança. Mas Trump já provou que não vai deixar a verdade atrapalhar seus desejos, e, com isso, um pouco mais de investigação da parte dos eleitores e um pouco mais de reportagens da parte dos jornalistas são necessários para entender exatamente quem está violando as leis estadunidenses.

As unidades paramilitares do Departamento de Segurança Nacional (DHS) que Trump enviou para Portland se envolveram em violações perturbadoras dos direitos humanos. Eles usaram munição para machucar pessoas, e agiram como “criminosos e valentões” nas palavras de um veterano da marinha que foi atacado com cassetetes e spray de pimenta no rosto. Eles prenderam e detiveram pessoas sem documentação. Trump defendeu suas táticas dizendo que os alvos eram “anarquistas. Eles não são manifestantes... são pessoas que odeiam nosso país”.

Chad Wolf, atual Diretor Secretário da Segurança Nacional, levou a caracterização de Trump sobre os manifestantes “anarquistas” à extremos cômicos em sua declaração pública sobre como e porque seus agentes se envolveram com os manifestantes. Dizendo que “condena a violência desenfreada em Portland”, Wolf usou as palavras “violência” 76 vezes para descrever o que os manifestantes fizeram para justificar as prisões e a repressão. A definição de violência de Wolf parece quase inteiramente englobar danos à propriedade privada como vandalismo e grafite. O mais próximo que os manifestantes de Portland chegaram de cometer violência foi quando, aparentemente, “tentaram causar danos aos olhos dos agentes com lasers de brinquedo”, e em outra situação, “procederam a lançar fogos de artifício para dentro de propriedades privadas”.

Os registros do DHS usaram o termo “anarquistas violentos” 70 vezes e o termo “manifestantes” apenas uma, sem fazer o menor esforço para explicar como exatamente eles distinguiram os “anarquistas violentos” dos manifestantes, jornalistas ou transeuntes. Em nenhum lugar no documento havia comportamentos registrados sobre manifestantes que chegarem perto de atacar idosas vulneráveis como a propagando fictícia de Trump. Em nenhum exemplo relatado pelo DHS algum manifestante – ou anarquista violento, segundo Wolf - cometeu, de fato, uma violência intencional contra outro ser humano.

A política de Trump viola a ideia que há tempos os Republicanos apoiam – de que os estados devem ter o direito de estabelecer suas próprias leis e normas e que o governo federal deve respeitar esse direito. Também vai de encontro com os alertas que os Republicanos pró-armas ecoam há anos – de que a posse em massa de armas é necessária afim de que os cidadãos vigilantes possam enfrentar a tirania do governo federal, do tipo declarada por Trump. Agora que o tipo de excesso governamental que eles alertaram por anos está de fato se desenrolando, não há nem um pio da multidão “pró-armas”.

Não são somente os Republicanos que abraçaram a marcha contra o autoritarismo. 18 anos atrás, o Congresso aprovou a Lei de Segurança Nacional para criar o DHS – uma agência com um nome Orwelliano – com 88 Democratas se unindo a mais de 200 Republicanos na aprovação. Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 motivaram uma reconfiguração da sociedade estadunidense e do governo que reverbera até hoje, desencadeando vigilância excessiva e repressão dura contra a imigração, enquanto faz pouco sobre os fatos que provocaram os ataques como às Torres Gêmeas e ao Pentágono em primeiro lugar.

Ainda assim, ano após ano, os Democratas votaram para re-autorizar a Lei Patriota dos EUA e outros aspectos da arquitetura autoritária pós-11/9. Agora, até os agentes do DHS estão sendo enviados por um presidente que eles criticam fortemente, legisladores Democratas estão tentando atar o financiamento do DHS com o do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, o que, de acordo com Ryan Grim do Intercept, está “tornando mais difícil para os Democratas progressistas se oporem”.

Mas Trump abusou da infraestrutura da repressão estatal do pós-11/9 ainda mais que os presidentes George W. Bush ou Barack Obama. O Washington Post reportou que Tom Ridge, o famoso secretário do DHS na administração Bush, denunciou a ação de Trump dizendo que a agência foi formada para enfrentar o “terrorismo global”, e que, “não foi estabelecida para ser a milícia pessoal do presidente”. Um ex-agente do DHS da era Bush, Paul Rosenzweig, caracterizou o envio dos agentes como “legal, mas horrível”, enquanto vê o fenômeno como claramente inconstitucional. Michael Chertoff, outro secretário do DHS da era Bush, disse ao colunista do Washington Post, “enquanto é apropriado para o DHS proteger a propriedade federal, não há desculpa para agir amplamente em uma cidade e conduzir operações policiais, particularmente se as autoridades locais não pediram por assistência federal”. Chertoff adicionou que a ação de Trump é “muito problemática” e “muito inquietante”. Se esses oficiais do GOP que serviram na era Bush – que eram considerados os vilões políticos na época – são perturbados, Trump, de fato, ultrapassou o limite.

Mas outra figura dos anos de Bush está se esgueirando ao lado de Trump e encorajando seu autoritarismo. John Yoo, o infame advogado que ajudou a esboçar “memorandos de tortura” durante a “guerra ao terror” da administração Bush para justificar o uso da tortura pela CIA durante interrogações, está, aparentemente, aconselhando a administração Trump sobre como fazer o melhor uso do seu poder executivo para contornar a autoridade congressional, de acordo com o The Guardian. Em junho, Yoo escreveu em um artigo no National Review, “mesmo se Trump soubesse que seu esquema não possuía autoridade legal, ele poderia se safar devido à duração da sua presidência”.

Trump deixou claro que normas, ética, leis e até a constituição dos EUA são meramente sugestões que o limitam brevemente e que podem ser descartadas quando necessário. Seu modus operandi é forçar os limites do que ele pode fazer e desafiar a nação a pará-lo. E nós iremos?

*Publicado originalmente em 'Counter Punch' | Tradução de Isabela Palhares

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