Pelo Mundo

Trump ignorou os alertas para a COVID-19 até ficar tarde demais

 

16/04/2020 14:10

 

 
"Ele poderia ter visto o que estava por vir: por trás do fracasso de Trump com o vírus". Esse é o título do longo artigo do New York Times que denuncia a demora do presidente Trump em determinar o início da fase de mitigação da pandemia. A principal autor da matéria, Eric Lipton, é o entrevistado do Democracy Now!

Nó início do vídeo, uma montagem do site The Recount, chamada o “Calendário do Coronavírus de Trump”, mostra o que o presidente disse em cada fase da pandemia desde o dia 22 de janeiro, começando por: “temos tudo sob controle...”



Amy Goodman: Este é o Democracy Now!, democracynow.org, a Reportagem da Quarentena. Eu sou Amy Goodman. No momento em que os Estados Unidos superam o número de mortos de qualquer outro país do mundo, com mais de 22.000 mortes por COVID-19, começamos o programa de hoje analisando o que nos levou a este ponto. Em um minuto, estará conosco o autor principal da matéria com revelações comprometedoras do The New York Times com o título: "Ele poderia ter visto o que estava por vir: por trás do fracasso de Trump com o vírus".

Mas primeiro vamos a este vídeo, chamado "Calendário do Coronavírus de Trump". Foi produzido por The Recount, capturando os meses que Trump subestimou e negou a gravidade, antes de sintonizar no modo de crise de coronavírus. O vídeo começa no dia 22 de janeiro.

Donald Trump: Temos tudo sob controle. É uma pessoa que veio da China… Achamos que temos tudo muito bem sob controle… Nós praticamente fechamos tudo, vindo da China… Sabe, em abril, supostamente ele morre, com o clima mais quente… Quando fica quente, historicamente, foi capaz de matar o vírus…

As pessoas estão melhorando. Todos estão melhorando… E os 15, em alguns dias, cairão para perto de zero… Vai desaparecer um dia. É como um milagre. Isso desaparecerá… E vocês ficarão bem… Agora, eles vão ter vacinas, eu acho, relativamente breve… Não apenas as vacinas, mas as terapias. Terapias é uma espécie de outra palavra para cura… Estamos falando de números muito baixos nos Estados Unidos… Nossos números são mais baixos do que praticamente qualquer um…

Está realmente dando certo e muitas coisas boas vão acontecer… E estamos respondendo com grande rapidez e profissionalismo… Vai desaparecer… Sim, não, eu não assumo nenhuma responsabilidade… Vamos ficar ótimos. Nós vamos ficar tão bem… Isso veio à tona. Ele - nós chegamos tão de repente… Isso é uma pandemia. Eu senti que era uma pandemia muito antes de ser chamada de pandemia. Tudo que você tinha a fazer era olhar para outros países…

O coronavírus. Você sabe disso, certo? Coronavírus. Esta é a nova fraude deles. Temos 15 pessoas neste país enorme. E pelo fato de termos ido cedo - fomos cedo. Poderíamos ter tido muito mais do que isso. Estamos indo muito bem. Nosso país está indo tão bem.

Amy Goodman: Essa montagem do presidente Trump foi produzida por The Recount.

Foi assim que o New York Times iniciou sua investigação sobre a falha de Trump em responder à ameaça do coronavírus, eu cito:

“'De qualquer ângulo que você analise, será ruim', um consultor médico sênior do Departamento de Assuntos dos Veteranos, Carter Mecher, escreveu na noite de 28 de janeiro, em um e-mail para um grupo de especialistas em saúde pública espalhados pelo governo e universidades. Ele continua: 'o tamanho previsto do surto já parece difícil de acreditar.'”

“Uma semana após o primeiro caso de coronavírus ter sido identificado nos Estados Unidos, e seis longas semanas antes do presidente Trump finalmente tomar medidas agressivas para confrontar o perigo que ameaçava o país - uma pandemia que, como agora se prevê, levará dezenas de milhares de vidas americanas - o Dr. Mecher insistia para que os altos escalões da burocracia da saúde pública do país acordassem e se preparassem para a possibilidade de uma ação muito mais drástica.

“’Vocês zombaram de mim quando eu gritava para fechar as escolas’, escreveu ele ao grupo, que se autodenominava 'Red Dawn' (Alvorada Vermelha), uma piada interna baseada no filme de 1984 sobre um grupo de americanos tentando salvar o país após uma invasão estrangeira. Mecher continua: 'Agora estou gritando, fechem as faculdades e universidades.'

“A voz, quase certamente, não era solitária. Ao longo de janeiro, enquanto Trump minimizava repetidamente a gravidade do vírus e se concentrava em outros assuntos, uma série de figuras dentro de seu governo - desde os principais assessores da Casa Branca até especialistas nos departamentos do gabinete e agências de inteligência - identificaram a ameaça, dispararam alarmes e deixaram clara a necessidade de ação agressiva.”

Esses são os primeiros parágrafos dessa notável denúncia no The New York Times.

Para sabermos mais sobre como Trump demorou a absorver a escala do risco e a agir adequadamente, o autor principal dessa matéria, Eric Lipton, jornalista ganhador do prêmio Pulitzer, repórter investigativo do jornal The New York Times. Juntamente com vários outros repórteres do Times, ele escreveu este artigo em profundidade, intitulado "Ele poderia ter visto o que estava por vir: por trás do fracasso de Trump com o vírus". Seu artigo seguinte, "Os e-mails do 'Red Dawn': 8 trocas importantes sobre a resposta vacilante ao coronavírus".

Eric Lipton, bem-vindo de volta ao Democracy Now! É ótimo tê-lo conosco. Então, leve-nos de volta para esse momento e falaremos sobre por que isso é tão significativo hoje, ou seja, refletido no fato de que, enquanto falamos hoje, os EUA superaram o número de mortes de qualquer outro país no mundo. Leve-nos de volta a esses alertas, os primeiros alertas que cientistas e membros do governo estavam emitindo.

Eric Lipton: Na verdade, acho que é preciso voltar para bem antes de janeiro de 2020, voltar a 2006, acredite ou não, voltar para o governo Bush, foi durante o governo Bush, de George W. Bush, que havia assessores-chave do presidente que perceberam que era apenas uma questão de tempo até que uma doença infecciosa significativa chegasse aos Estados Unidos, como aconteceu logo após a Primeira Guerra Mundial, que causaria doenças e mortes generalizadas e que os Estados Unidos não estavam adequadamente preparados para isso. Assim, foi em 2006 que os Estados Unidos desenharam um plano abrangente de pandemia, que possui dois estágios essenciais, os estágios são de contenção e mitigação.

O primeiro estágio é a contenção, na qual você tenta - essencialmente, como a palavra indica, tenta conter a infecção e impedir que ela se espalhe. Você faz isso impedindo que pessoas doentes venham para os Estados Unidos com a doença ou se alguém estiver doente, você faz o que é chamado rastreamento de contato, no qual identifica qualquer pessoas que teve contato com esse indivíduo e você os isola até melhorarem, de modo que… assim como aconteceu na China após o número de casos começar a explodir. Então isso é contenção.

Mas, a certa altura, torna-se… há contaminação comunitária. Depois que houver contaminação comunitária, será preciso mudar para a mitigação, na qual você toma as medidas necessárias - não há vacina. Isso é chamado… na verdade, o outro termo para mitigação é Intervenções Não Farmacêuticas - NPIs, como eles chamam.

A maior questão aqui foi, no primeiro dia, em janeiro de 2020, Carter Mecher, que é médico, médico que trabalha na Administração de Veteranos, já estava… quando ele está falando sobre o fechamento de faculdades e universidades, ele está falando sobre NPIs, intervenções não farmacêuticas ou mitigação. Ele já está prevendo que isso será necessário.

Essa é a coisa mais importante que temos que recapitular nos Estados Unidos agora: que é quando eles mudaram da contenção para a mitigação e se eles agiram com a rapidez necessária? E a resposta é que eles não avançaram rapidamente o suficiente para a mitigação.

O resultado é que mais pessoas estão morrendo e há mais doença do que teria sido necessária se tivessem mudado para a mitigação mais cedo.

É nesse o ponto que o Dr. Mecher estava insistindo em janeiro de 2020, era que precisávamos estar preparados para avançar para a mitigação assim que houvesse evidências suficientes de que a disseminação comunitária tinha começado. Se você deseja entender a maior falha, que tem sérias consequências nos Estados Unidos, foi a lentidão para passarmos à mitigação.

Amy Goodman: Vamos ao conjunto de e-mails chamado Red Dawn, no qual especialistas em doenças infecciosas compartilharam suas preocupações sobre o coronavírus desde muito cedo. Na verdade, este foi 13 de março. O ex-conselheiro dos presidentes Bush e Obama, James Lawler, especialista em doenças infecciosas - acho que ele era da Universidade de Nebraska - escreveu: “O CDC (Centro de Controle de Doenças e Prevenção) está realmente errando o alvo aqui. No momento em que você tem uma transmissão… substancial, é tarde demais. É como ignorar o detector de fumaça e esperar” toda a sua casa pegar fogo antes de ligar para o departamento de bombeiros. Se você puder comentar? E volte mais um pouco atrás, porque o pessoal dele, o pessoal do próprio Trump, como Navarro, como Azar, estava avisando, soando os alarmes em janeiro. Na verdade, as agências de inteligência estavam dizendo que uma pandemia estava prestes a explodir no cenário global.

Eric Lipton: Certo. Bem, novamente, como a coisa sobre mitigação ou intervenções não farmacêuticas é muito simplista - sabe, é como você pensar que somos… somos tão modernos, tão avançados em nossa ciência, por que teríamos que recorrer a coisas como fechamento de escolas e empresas e distanciamento social, o que parece tão grosseiro, porque você pensaria que haveria algum tratamento ou método científico. Mas, infelizmente, a realidade é que, com vírus aos quais a população não tem resistência e que não há tratamento, voltando à Peste, não há outra solução senão o isolamento forçado.

Assim, novamente, quando o Dr. James Lawler, da Universidade de Nebraska, que também estava no Conselho de Segurança Nacional durante o governo Bush, participou da elaboração do plano de pandemia de 2006 e tornou-se conselheiro do Presidente Obama, em preparativos para uma pandemia - o que ele mais uma vez ficou contrariado com o CDC foi quando o CDC, em março, disse que estava questionando a eficácia do fechamento de escolas nos Estados Unidos. Isso deixou esses especialistas em pandemia tão frustrados e com muita raiva, porque, novamente, o alarme de incêndio estava disparando.

Eles têm um método muito científico, esses médicos de doenças infecciosas pandêmicas, onde eles têm… há um momento em que a primeira morte ocorre. Desde a data em que a primeira morte ocorre, você tem um certo período de tempo para instituir a mitigação, intervenções não farmacêuticas. Se você não fizer isso nessa pequena janela, o número de mortes que ocorrerá… e basicamente é uma equação. Você pode mostrar quantas mortes ocorrerão se não ativar a atenuação em uma determinada data. Eles sabiam que data era essa.

Agora, não é que você precise fazer mitigação nacional de uma só vez. Não precisava. Você precisa fazê-lo por localidade. Quando você teve a primeira morte em uma comunidade ou certo número de casos infecciosos, precisava dizer: “Bum! Hora de instituir as NPIs, distanciamento social”.

O problema é que...o que esses médicos me disseram quando os entrevistei é que os governadores, quem realmente têm o poder de fazer isso, são os governadores… sabe, é difícil para um governador sair na frente quando há uma morte em um estado do tamanho do estado de Washington ou Oregon ou Califórnia, quando há uma única morte ou um punhado de infecções.

É muito difícil para o governador dizer aos cidadãos de seu estado que precisamos fechar a economia por nossa conta própria. Precisa de um funcionário federal para dizer que isso deve acontecer. Agora, eles não têm o poder de fazer isso - o presidente, o ministro da saúde ou o chefe do CDC -, mas eles têm a autoridade para exigir esse passo. É isso que tinha que acontecer.

Era isso que o HHS, o Departamento de Saúde e Serviços Humanos, queria que o presidente fizesse em fevereiro. O presidente não estava disposto a fazê-lo, e assim ficou por várias semanas. Então coube aos governadores, um de cada vez, fazer o movimento. Alguns deles fizeram isso cedo, como a Califórnia, e fizeram cedo. Nova York fez isso mais tarde, porque eles não tinham a orientação federal e o tipo de apoio para dizer: "Agora, mexam-se. Façam."

Amy Goodman: Quando você olha para os números… os EUA disseram que seu primeiro caso de coronavírus foi na mesma época da Coreia do Sul. Agora, os EUA têm 50 vezes mais casos, cem vezes as mortes. Observe a população dos EUA e do mundo: 4,25% da população mundial - menos de 5% da população mundial - 30% dos casos confirmados e 20% das mortes no mundo.

Então, voltemos à corrente de e-mails da Red Dawn que você expôs. Em um e-mail no final de janeiro, o Dr. James Lawler, o médico de doenças infecciosas, escreveu: “Grandes eufemismos na história: a retirada de Napoleão de Moscou - 'apenas um pequeno passeio que deu errado'. Pompeia - 'uma pequena tempestade de areia'. Hiroshima - 'uma onda de calor ruim de verão'. Wuhan - 'apenas uma temporada ruim de gripe'.”

Esses documentos estavam soando o alarme, mas os conselheiros mais confiáveis do presidente Trump também estavam. Fale sobre o que Azar tinha a dizer, chefe do Departamento de Saúde e Serviços Humanos. Fale sobre o que Navarro estava dizendo, dizendo que isso seria sério. E fale sobre quem estava se opondo a eles.

Não é que o presidente Trump não soubesse. Quer dizer, ele não tinha mais sua força-tarefa de pandemia no Conselho de Segurança Nacional, que teria soado o alarme. Ele a tinha dissolvido em 2018. Mas ele também tinha forças contrárias, como Mnuchin, profundamente preocupados com a economia e o fechamento de tudo, de fato, cancelando uma reunião de médicos, você escreve sobre, quando um dos médicos disse: "Temos que fazer alguma coisa."

Eric Lipton: Eu acho que o contexto em que isso se deu tinha o impeachment de janeiro acontecendo no Senado, enquanto esse processo estava apenas começando em termos de suas primeiras infecções chegando aos Estados Unidos. Não apenas isso, mas este é um ano de eleição, em janeiro de 2020, e o presidente está realmente focado em sua reeleição, e o tema único, de longe, que definirá sua campanha de reeleição é "Olhe para o mercado de ações. Veja o incrível aumento, os números recordes do mercado de ações. Veja o crescimento econômico nos Estados Unidos.”

E também, em janeiro, ele estava no meio da finalização das negociações com a China sobre o que eles chamavam de Fase 1, que tentaria remover… ele tentaria remover algumas das tarifas da guerra comercial que estava acontecendo. Isso seria assinado em 15 de janeiro e, portanto, sabe… e a capacidade de chegar a um acordo com a China era central para os mercados de ações continuarem a subir e o crescimento econômico se recuperar, e os agricultores ficarem felizes porque a soja seria comprada novamente pela China.

Tudo isso estava em jogo para Trump. Portanto, se ele estivesse pensando seriamente em tomar medidas para fechar as empresas, escolas e forçar o distanciamento social, instando os governadores a adotá-las, ele estaria essencialmente minando a economia que seria o tema central de sua campanha. E essa era a última coisa que ele queria fazer.

Mas o que ele não percebeu é que, se eles permitissem que essa infecção florescesse nos Estados Unidos e, potencialmente, que centenas de milhares de mortes ocorressem porque não fizeram a mitigação, a economia teria sido interrompida pela força do próprio vírus de uma maneira ainda mais devastadora, porque o número de mortes teria chegado à casa das centenas de milhares.

E remonta ao fato de que este é um governo em que você tem um chefe de gabinete em exercício há mais de um ano que tem muito pouca influência na Casa Branca. Você teve uma rotatividade muito alta entre as principais pessoas das várias agências, chefe interino de segurança nacional, quer dizer, diferentes secretários do Departamento de Defesa, diferentes assessores de segurança nacional. E você teve muitas brigas entre esses diferentes conselheiros. Você tinha um secretário de saúde e serviços humanos, Azar, que não era respeitado pelo presidente, cuja voz não exercia muito peso na Casa Branca. Você tinha Peter Navarro, que era…

Amy Goodman: Eles o chamavam alarmista?

Eric Lipton: Sim. Você tinha Peter Navarro, que era consultor comercial, foi uma das primeiras vozes a demonstrar preocupação. As pessoas diziam: "Oh, isso é loucura. Ele é louco. Não devemos ouvi-lo na Casa Branca."

Assim… então falta um processo funcional de formulação de políticas, em que o chefe de gabinete deve ser a pessoa que considera todos esses debates e, em seguida, leva ao presidente sua recomendação, mas Mulvaney, desde que ele fez seus comentários no fim do ano passado, em outubro, que, “oh, foi um toma lá dá cá” [referindo-se à questão da Ucrânia], ele ficou em posição tão divergente que ninguém o ouvia de verdade e estava prestes a ser demitido de seu emprego, o que aconteceu mesmo no meio disso tudo.

Então você tinha uma Casa Branca disfuncional que era incapaz de fazer a escolha política correta e trazê-la ao presidente, e daí um presidente tão apegado à sua reeleição que não estava em posição de ouvir as pessoas que estavam avisando que essa era uma pandemia de proporções históricas que chegava até nós e que tínhamos uma pequena janela de oportunidade para agir decisivamente para limitar o número de mortes.

O resultado foi que, no final de fevereiro, quando todos os seus conselheiros, todos os consultores médicos, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos, CDC, dos Assuntos dos Veteranos, concluíram que os Estados Unidos precisavam anunciar que era hora de mudança para mitigação e distanciamento social, que havia chegado o momento em que cabia ao presidente endossar isso - e foi quando ele ficou com raiva, quando alguém do CDC disse que isso seria algo que teria que acontecer. Esse anúncio foi adiado por várias semanas. Essas várias semanas foram a diferença entre… há muitas pessoas que terão morrido por causa dessa demora, particularmente no estado de Nova York, em implantar a mitigação.

Amy Goodman: Eu queria ir… quer dizer, você… Navarro também recomendou a proibição da entrada de pessoas vindas da China. Quando você fala sobre a proibição de viajar, os ouvidos do presidente Trump se animam. Então, ele adotou a proibição de viagens da China, mas foi, no mínimo, cheia de falhas. No final, ele faria o mesmo com a Europa. Mas, ao mesmo tempo, toda vez que ele diz: "Olha, eu agi cedo", já que ele entendeu o significado do que estava acontecendo cedo - esse foi o começo do quê? Fevereiro. Está certo? Se ele tivesse começado a aumentar os testes e a cadeia de suprimentos para garantir que houvesse EPIs - certo? - o equipamento de proteção individual, que os médicos, enfermeiros e zeladores dos hospitais carecem tão severamente agora, se tudo tivesse começado como começou em Taiwan - eles nem fecharam o país lá. Mas aqui, isso levou a essa catástrofe absoluta. A parte mais significativa disso é a enorme perda de vidas.

Eric Lipton: Bem, quer dizer, alguns pontos que você abordou. O primeiro foi sobre, novamente, duas fases aqui: contenção e mitigação. Assim, em relação à fase de contenção, o presidente, no final de janeiro, anuncia a limitação de voos na China. Mas, como você diz, houve uma implementação com muitos problemas, de várias maneiras.

Talvez entre eles esteja que aproximadamente 400.000 pessoas que vieram da China para os Estados Unidos, como meu colega Steve Eder relatou recentemente, que - desde o momento em que soubemos que o vírus estava se espalhando na China até mais recentemente. E 45.000 delas, aproximadamente, vieram no período depois que o presidente limitou os voos.

O problema não era realmente um… no mundo de hoje, é quase impossível impedir completamente os movimentos das pessoas. Você não pode proibir os cidadãos americanos de voltarem aos Estados Unidos. Assim cidadãos americanos e cidadãos naturalizados estavam entrando nos Estados Unidos, dezenas de milhares deles, mesmo depois que ele adotou essa limitação. Eles não estavam, na verdade, em muitos casos, fazendo testes suficientes nessas pessoas ou exigindo isolamento dessas pessoas por duas semanas para garantir que não estavam infectados.

Portanto, se você realmente fizesse uma "proibição de viagem", precisaria ter quarentenas obrigatórias, infelizmente, que é uma questão de liberdades civis. Você precisaria ter quarentenas obrigatórias para essas pessoas e testes suficientes para garantir que eles não estivessem realmente trazendo o vírus. Nada disso aconteceu. Essas pessoas estavam trazendo muitos casos de infecções. Assim, o primeiro estágio, contenção, foi um fracasso. Certo?

Então, no segundo estágio, mesmo durante a contenção, você precisava trabalhar na mitigação, porque sabe que isso se espalhará de qualquer maneira. A questão é: quantos casos você terá? Portanto, durante a contenção, você precisa aumentar todos os seus preparativos, o plano B. Você precisa ter os EPIs.

Você precisa dos respiradores. Você precisa ter os hospitais. Você precisa ter o pessoal do hospital. Mas o que descobrimos foi que… eu estava trabalhando em uma história com meu colega Zolan, que cobre a Agência Federal de Gerenciamento de Emergências pelo New York Times e o Departamento de Segurança Interna. Era 17 de março, e perguntamos ao Corpo de Engenheiros do Exército: "Vocês já receberam alguma tarefa para ajudar os Estados Unidos a responder à pandemia?" E nesse ponto, você sabe, Nova York teve...

Amy Goodman: Temos 30 segundos, Eric.

Eric Lipton: Oh, ok. O Corpo de Engenheiros do Exército não tinha recebido nenhuma atribuição até 17 de março, o que foi extraordinário. Portanto, eles não haviam mudado para o plano B até ter se tornado tarde demais.

Amy Goodman: Bem, quero agradecer muito por estar conosco e terminar com o Dr. Fauci. No domingo, Jake Tapper, da CNN, questionou o Dr. Anthony Fauci sobre sua matéria do New York Times.

Jake Tapper: Você acha que vidas poderiam ter sido salvas se as medidas de distanciamento social, distanciamento físico e permanência em casa tivessem começado na terceira semana de fevereiro, em vez de meados de março?

Dr Anthony Fauci: Sabe, Jake, novamente, é o que teria, o que poderia ter. É muito difícil voltar e dizer isso. Quer dizer, obviamente, você poderia dizer logicamente que, se tivesse um processo em andamento e iniciasse a mitigação mais cedo, poderia ter salvo vidas. Obviamente, ninguém vai negar isso.

Amy Goodman: Então, foi o Dr. Anthony Fauci falando ontem no programa de Jake Tapper na CNN. Em resposta, o presidente Trump retuitou uma mensagem que terminava com "demitir Fauci". Eric Lipton, quero lhe agradecer muito por estar conosco, jornalista premiado pelo Pulitzer, repórter investigativo do jornal The New York Times.

*Publicado originalmente em 'Democracy Now!' | Tradução e legendas de César Locatelli para o 'Democracy Now! Brasil'

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