Pelo Mundo

Trump não vê problema no lucro de bilionários com a pandemia

Para o presidente, enquanto impulsionarem o mercado de ações, os bilionários estarão ajudando a economia dos EUA - mas isso é pura balela

12/08/2020 12:10

A Moderna nunca lançou uma vacina no mercado, mas os membros da empresa venderam cerca de US $ 248 milhões em ações - a maioria depois que a empresa foi selecionada para receber o financiamento da Trump (Brian Snyder/Reuters)

Créditos da foto: A Moderna nunca lançou uma vacina no mercado, mas os membros da empresa venderam cerca de US $ 248 milhões em ações - a maioria depois que a empresa foi selecionada para receber o financiamento da Trump (Brian Snyder/Reuters)

Desde o início da pandemia, os bilionários americanos estão enchendo os cofres. Enquanto mais de 50 milhões de americanos pediram seguro-desemprego, os bilionários ficaram 637 bilhões de dólares mais ricos. A riqueza de Mark Zuckerberg, do Facebook, cresceu 59%. A de Jeff Bezos, da Amazon, 39%. A família Walton, do Walmart, aumentou sua fortuna em 25 bilhões de dólares.

Os presidentes das grandes empresas farmacêuticas e seus principais investidores também vão muito bem. Desde o início da pandemia, a Big Pharma aumentou os preços de mais de 250 medicamentos controlados, 61 deles sendo remédios usados para tratar a Covid-19.

Os apologistas dizem que é o “livre mercado” respondendo à oferta e à demanda – os barões da Big Tech e Big Pharma apenas fornecem aquilo de que os consumidores precisam desesperadamente durante a pandemia.

Mas o mercado também responde a leis que proíbem a exploração, a manipulação de preços e o monopólio, e que taxam lucros excessivos em tempo de guerra. Onde estas leis foram parar? O governo Trump não as aplicou.

Trump também está ignorando as leis que proíbem negociações com base em informações privilegiadas. A Casa Branca está distribuindo bilhões em subsídios e empréstimos a empresas selecionadas – e permitindo que seus presidentes e conselhos acumulem ações e opções de compras de ações pouco antes de os negócios serem anunciados, obtendo então grandes lucros quando o valor das ações sobe.

Insiders de pelo menos 11 empresas venderam ações alcançando mais de 1 bilhão de dólares após esses anúncios, segundo com análise do New York Times.

No fim de junho, uma empresa de São Francisco chamada Vaxart anunciou ter sido escolhida pelo governo Trump para desenvolver uma vacina contra o coronavírus. Pronto. O valor das opções de ações distribuídas algumas semanas antes para os insiders da empresa aumentou seis vezes. As opções de ações detidas pelo CEO da Vaxart saltaram de 4,3 milhões de dólares para mais de 28 milhões.

A Moderna, com sede em Cambridge, Massachusetts, nunca lançou uma vacina no mercado, mas os insiders da empresa venderam cerca de 248 milhões de dólares em ações – a maioria depois que a empresa foi selecionada em abril para receber financiamento do governo Trump. (A Moderna planeja vender sua vacina e lucrar com ela, mesmo que os contribuintes tenham financiado sua pesquisa e desenvolvimento.)

O caso mais flagrante envolve a venerável e antiga fábrica de câmeras e filmes Kodak. Em 28 de julho, Trump anunciou um acordo de 765 milhões de dólares com a empresa para que a produção de drogas possa ser levada de volta aos Estados Unidos. Ele o chamou de "um dos negócios mais importantes da história da indústria farmacêutica dos EUA", embora a Kodak não seja exatamente uma empresa farmacêutica.

Antes do anúncio, a Kodak entregou ao conselho de administração 240.000 opções de ações e, no dia anterior, havia dado ao presidente 1,75 milhão de opções de ações. Após o anúncio de Trump, as ações da Kodak subiram mais de 2.757%. Repentinamente, as opções de ações do conselho valiam cerca de 4 milhões de dólares, e as do presidente, cerca de 50 milhões.

Esse tipo de negociação com informações privilegiadas é contra a lei? Pode apostar. A Comissão de Títulos e Câmbio dos EUA (Securities and Exchange Commission – SEC) está examinando o acordo, que foi temporariamente suspenso. Mas o codiretor de fiscalização da SEC, Steven Peikin, que vinha investigando vários dos acordos envolvendo a Casa Branca e insiders – incluindo o da Kodak – pediu demissão na semana passada, sem nenhuma explicação. Seria mais um na lista cada vez maior de fiscais independentes e inspetores afastados por Trump?

O que está muito claro é que Trump e seus amigos republicanos não vão garantir 600 dólares por semana para dezenas de milhões de americanos que precisam de dinheiro para sobreviver à pandemia, porque Trump e o Partido Republicano acreditam que o dinheiro desestimula a busca por trabalho. Mas Trump não vê problemas em permitir que bilionários lucrem ilegalmente com a pandemia. Ele acha que, enquanto eles impulsionarem o mercado de ações, estarão ajudando a economia americana.

Pura balela. O mercado de ações não é os EUA. 1% dos americanos mais ricos tem metade do valor de todas as ações detidas por famílias americanas. Os 10% mais ricos detêm 92%. Durante anos, os preços das ações vêm subindo em grande parte porque os lucros foram desviados dos salários dos trabalhadores.

Na pior crise econômica desde a Grande Depressão, os preços das ações estão quase como estavam antes do início da pandemia. As grandes corporações e os grandes investidores vão muito bem. Os bilionários nunca estiveram tão bem. Mas a maioria dos americanos se arruína a cada dia.

Isso não é só injusto. Grande parte disso é ilegal.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Clarisse Meireles

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