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Trump 'perdoaria Assange se ele negasse ligação russa com vazamentos'

O WikiLeaks publicou e-mails vazados que prejudicaram a campanha de Hillary Clinton em 2016. Ex-congressista nega ser intermediário do presidente dos EUA

23/02/2020 12:53

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, deixa o tribunal de Westminster em Londres após uma audiência no mês passado (Simon Dawson/Reuters)

Créditos da foto: O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, deixa o tribunal de Westminster em Londres após uma audiência no mês passado (Simon Dawson/Reuters)

 

WASHINGTON - Donald Trump ofereceu perdão a Julian Assange se ele dissesse que a Rússia não estava envolvida no vazamento de e-mails do partido Democrata, conforme uma informação recebida por um tribunal de Londres.

A declaração extraordinária foi feita à Corte de Magistrados de Westminster, antes do início da batalha legal de Assange, na próxima semana, para bloquear as tentativas de extraditá-lo para os EUA, onde ele é acusado de publicar documentos obtidos ilegalmente. A alegação foi negada pelo ex-congressista republicano apontado pela equipe jurídica de Assange como testemunha chave.

Os advogados de Assange afirmaram que, durante uma visita a Londres em agosto de 2017, o congressista Dana Rohrabacher disse ao fundador do WikiLeaks que "por instruções do presidente, ele estava oferecendo perdão ou outra saída, se o Sr. Assange ... dissesse que a Rússia não tinha nada a ver com os vazamentos do documentos do Comitê Nacional Democrata (DNC).

Poucas horas depois, no entanto, Rohrabacher negou a alegação, dizendo que havia feito a proposta por sua própria iniciativa e que a Casa Branca não a havia endossado.

"Em nenhum momento eu conversei com o presidente Trump sobre Julian Assange", escreveu o ex-congressista em seu blog pessoal. “Da mesma forma, eu não fui direcionado por Trump ou por qualquer outra pessoa ligada a ele para me encontrar com Julian Assange. Eu estava em uma investigação minha própria, às minha próprias custas, para descobrir as informações que achava importantes para o nosso país.”

“Em nenhum momento eu ofereci a Julian Assange qualquer coisa do presidente, porque não havia conversado com o presidente sobre esse assunto. No entanto, ao falar com Julian Assange, eu disse a ele que, se ele pudesse me fornecer informações e evidências sobre quem realmente lhe enviou os e-mails do DNC, eu pediria ao presidente Trump que o perdoasse”, acrescentou Rohrabacher.

"Em nenhum momento eu ofereci uma proposta feita pelo presidente, nem disse que estava representando o presidente".

A porta-voz da Casa Branca, Stephanie Grisham, disse a repórteres: “O presidente mal conhece Dana Rohrabacher além saber que ele é um ex-congressista. Ele nunca falou com ele sobre esse assunto ou sobre quase nenhum assunto. "

"É uma completa invenção e uma pura mentira", disse Grisham. "Este é provavelmente outro dos intermináveis embustes e mentiras do Comitê Nacional Democrata."

Trump, no entanto, convidou Rohrabacher para a Casa Branca em abril de 2017, depois de ver o então congressista na Fox TV defendendo o presidente.

Em setembro de 2017, a Casa Branca confirmou que Rohrabacher havia telefonado ao então chefe de gabinete, John Kelly, para conversar sobre um possível acordo com Assange, mas que Kelly não havia repassado a mensagem a Trump. Rohrabacher confirmou essa versão dos eventos em seu blog na quarta-feira (19).

“Eu disse a ele que Julian Assange forneceria informações sobre os e-mails roubados do DNC em troca de um perdão. Ninguém deu prosseguimento do caso comigo, incluindo o general Kelly, e essa foi a última discussão que tive sobre esse assunto com alguém representando Trump ou em sua administração ”, escreveu ele.

"Apesar de não ter conseguido transmitir essa mensagem ao presidente, ainda o peço que perdoe Julian Assange, que é o verdadeiro denunciante do nosso tempo".

Assange apareceu no tribunal na quarta-feira por videoconferência da prisão de Belmarsh, vestindo calça de agasalho escura e um suéter marrom por cima de uma camisa branca.

Antes da negação de Rohrabacher, a juíza Vanessa Baraitser, que está presidindo as audiências do caso em Westminster, disse que a alegação de um acordo era admissível como prova.

Até não ter conseguido se reeleger em 2018, Rohrabacher era uma voz consistente no Congresso em defesa da Rússia de Vladimir Putin, declarando ser tão próximo do líder russo que eles haviam se envolvido, bêbados, em uma disputa de quedas de braço, na década de 1990. Em 2012, o FBI avisou que espiões russos estavam tentando recrutá-lo como um "agente de influência".

A publicação de e-mails hackeados da campanha de Hillary Clinton ajudou a perpetuar uma aura de escândalo em torno da candidata democrata algumas semanas antes das eleições de 2016.

O WikiLeaks os publicou online horas depois de Trump ter sofrido um aparente desastre de relações públicas com o surgimento de uma fita na qual ele se gabava de molestar mulheres.

Os EUA buscam a extradição de Assange para julgá-lo por 18 acusações, incluindo conspiração para cometer invasão de computadores, pela publicação de telegramas nos EUA há uma década.

Ele pode enfrentar até 175 anos de prisão se for considerado culpado. Ele é acusado de trabalhar com a ex-analista de inteligência do exército americano Chelsea Manning para vazar centenas de milhares de documentos classificados.

A audiência de extradição deve começar no tribunal de Woolwich na segunda-feira, começando com uma semana de discussões legais. Será interrompido e continuará com três semanas de provas programadas para começar em 18 de maio.

A decisão, que é esperada para alguns meses depois, com provável recurso do lado perdedor, qualquer que seja o resultado.

Assange está em prisão preventiva na prisão de Belmarsh desde setembro passado, depois de cumprir uma sentença de 50 semanas de prisão por violar suas condições de fiança enquanto estava na embaixada do Equador em Londres.

Ele entrou no prédio em 2012 para evitar a extradição para a Suécia por alegações de crimes sexuais, que ele sempre negou e foram posteriormente retiradas.

As reivindicações de Assange sobre um acordo surgiram um dia depois que Trump concedeu clemência a uma série de figuras de alto nível condenadas por acusações de fraude ou corrupção, incluindo o ex-governador de Illinois Rod Blagojevich e o "rei dos títulos de risco" Michael Milken.

Trump não deixou de incluir no perdão de Roger Stone, ex-assessor que foi condenado em novembro por obstruir uma investigação do Congresso sobre interferência russa na corrida presidencial de 2016 e, em particular, por mentir aos investigadores sobre sua relação com Assange e WikiLeaks.

Stone certa vez se gabou de ter jantado com Assange, mas depois disse que a declaração era uma piada.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de César Locatelli

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