Pelo Mundo

Tunísia: porque Ghannouchi se demitiu?

14/03/2011 00:00

Fathi Chamkhi

Mohammed Ghannouchi, primeiro-ministro de Ben Ali, anunciou a sua demissão. Esta foi mais uma vitória para a revolução tunisina. O homem que foi o artífice do capitalismo neoliberal na Tunísia foi expulso do poder, sob a pressão popular. Assim, em pouco mais de dois meses, as massas populares deram um grande passo para a libertação do poder ditatorial da Tunísia; o ditador, o seu governo e o seu partido estão já fora de combate.

Esta demissão abre, no plano político, todas as recomposições possíveis e imagináveis. Primeiro, todas as alianças e todos os grupos políticos estão sob alta pressão; é muito provável que muitos vão rebentar, se isso não aconteceu ainda.

Ghannouchi anunciou o tom. Disse preferir como perspectiva política um processo que conduza diretamente a uma Assembleia Constituinte e a uma nova Constituição. As coisas estão claras. Trata-se agora, até meados de julho, de preparar, nomeadamente, uma nova lei eleitoral que será o quadro das próximas eleições legislativas.

A questão do novo governo põe-se, portanto. Primeiro, quem vai ficar e que vai deixar o governo atual? Na minha opinião, o trio Chebbi, Brahim (ex-oposição) e Baccouche (independente) vai se manter no próximo governo. Quem vai entrar para este novo governo? Esta questão é mais importante do que o nome do futuro primeiro-ministro.

Penso que a quase totalidade dos partidos, dentro e fora do ex-governo Ghannouchi, estarão de acordo em participar no futuro governo, se não estão já lá dentro, porque não há nenhuma dúvida de que, antes de anunciar a sua demissão, Ghannouchi assegurou a sucessão. Esta questão vai, portanto, pôr em causa todo o espectro político pós-14 de Janeiro.

Porque se demitiu Ghannouchi?
Primeiro porque já não tinha escolha. Desde a semana passada, em especial, a mobilização popular recorde não enfraqueceu, enquanto que o sit-in diante da sede do governo continua há 10 dias. Além disso, o governo Ghannouchi ficou sem dentes com a questão social.

Acho na verdade que a questão social, essencialmente, é que precipitou a queda de Ghannouchi. Mais de meio milhão de desempregados (desemprego segundo padrões internacionais e números oficiais), dos quais cerca de 200 mil são diplomados em universidades e, finalmente, ¾ dos desempregados são jovens com menos de 34 anos! Além disso, a pobreza atingiu proporções importantes sob o reinado do liberalismo econômico. Ben Ali admitiu que apenas 100 mil famílias estavam vivendo abaixo da linha da pobreza; há poucos dias, o porta-voz do governo tinha reconhecido 180 mil, depois Ghannouchi falou de 200 mil famílias!

A queda do ditador libertou um discurso há muito confiscado pela ditadura, mas libertou também as reivindicações sociais, nomeadamente as mais insuportáveis de entre elas. Depois do 14 de janeiro nenhum pobre, já nenhum desempregado está mais disposto a ter paciência, a esperar por um amanhã melhor, e é perfeitamente legítimo.

Ghannouchi entendeu isso, ele que pensava que ao aceitar quase todas as reivindicações relativas a liberdades individuais e coletivas podia salvar o essencial, ou seja, o sistema econômico e social, rendeu-se à evidência. A Tunísia ficou socialmente estagnada durante o reinado de 23 anos de capitalismo neoliberal. A austeridade social, a quebra do emprego, a mercantilização dos serviços públicos básicos, além de uma política fiscal e predatória e das práticas mafiosas dos clãs de Ben Ali, sangraram a Tunísia até à lividez.

Tempo de recuperar a dignidade confiscada
Os pobres e os desempregados, especialmente, compreenderam, com razão, que a revolução fez soar para eles o momento da libertação da miséria, o tempo de recuperar a dignidade confiscada. O governo de Ghannouchi, mantendo-se na lógica econômica e social de antes do 14 de janeiro, não poderia de forma alguma dar-lhes satisfação. Assim, não é de excluir que a saída de Ghannouchi caia dentro da perspectiva da salvaguarda do regime! Permanecer no poder por mais tempo alimentaria o descontentamento e nutriria o processo revolucionário, e fazer isso cai numa dinâmica de ruptura com a ordem estabelecida. Deixar o governo e envolver ao mesmo tempo representantes da oposição que beneficiaram politicamente com esta posição, pode ter um duplo objectivo. Por um lado, dividir o campo adverso, e por outro, envolver esses partidos na gestão quotidiana da crise social, o que irá certamente enfraquecê-los por sua vez, excepto, bem entendido, se eles se comprometerem numa perspectiva de ruptura com a ordem estabelecida, por exemplo anunciando a suspensão do pagamento da dívida pública externa e redireccionando o dinheiro assim libertado para aliviar o fardo da pobreza e para o subsídio de desemprego.

Por agora, uma questão preocupa, e com razão, muitos tunisinos e tunisinas.

O que facilita ainda mais este processo é a revolução árabe que avança com determinação e que conquistou várias vitórias na expectativa de realizar mais ainda.

Fathi Chamkhi, Tunes, 27 de Fevereiro de 2011 (17h30).

http://www.cadtm.org/Tunisie-Pourquoi-Ghannouchi-a-t-il

Tradução de Paula Sequeiros para o Esquerda.net


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