Pelo Mundo

Um golpe de Estado contra Donald Trump? Não, obrigado!

 

10/01/2019 08:23

(Yuri Gripas/Reuters)

Créditos da foto: (Yuri Gripas/Reuters)

 
Os últimos acontecimentos nos Estados Unidos indicam mudanças relevantes na política da superpotência. Façamos uma cronologia dos fatos:

19 de dezembro – Trump anuncia a retirada das tropas da Síria (e não por ser uma ocupação ilegal), além da redução do efetivo militar no Afeganistão, provocando uma grande tensão entre os generais, o lobby militar e seus aliados na região.

21 de dezembro – O Secretário de Defesa, general James Mattis, apresenta sua demissão, após meses se posicionando contra uma série de decisões, incluindo: a retirada militar da Síria, a ordem de assassinar Bashar al-Assad (“matemos a todos esses putos”, teria dito Trump, em abril de 2017), o fim do acordo nuclear com o Irã, a mudança da embaixada estadunidense em Israel a Jerusalém e a proibição de contratar pessoas transexuais no Exército, quando o que se necessita é mais carne de canhão.

25 de dezembro – Trump, Melania e o sinistro John Bolton fazem uma visita surpresa à base Al Assad (que significa “o leão”, em árabe), no Iraque. É a primeira visita do presidente aos seus soldados depois que o The New York Times publicou um artigo falando do mal-estar dos militares com o seu descaso para com o setor: “deixe os tacos de golfe por um dia e visite as tropas”. Segundo revelou o Washington Post, Trump se negava a gestos assim porque “tem medo de que as pessoas o matem”.

31 de dezembro – Trump muda de postura e faz o processo de retirada da Síria ser mais lento, com o argumento de que “não se pode ceder terreno para Rússia e Irã”, e anuncia sua intenção de controlar suas operações na região a partir das 12 bases militares estadunidenses no Iraque.

4 de janeiro – O Secretário de Estado Mike Pompeo anuncia uma viagem por 8 países da região, para seguir com o projeto da Aliança Estratégica para o Oriente Médio (pseudônimo da chamada “OTAN árabe”), cujo principal alvo é o Irã.

5 de janeiro – Trump tira do seu repertório a frase de que “os Estados Unidos não são a polícia do mundo”, e envia tropas ao Gabão.

Estaria o presidente tentando acalmar os militares (que já o atacam publicamente)?

A junta de Trump

Como um menino assustado, consciente de que o traje de presidente é muito grande para ele, Trump se rodeou de militares aos que entregou cargos civis, seguindo a doutrina da supremacia militar, de Samuel Huntington (o mesmo da teoria bélica do Choque de Civilizações): Michael Flynn foi nomeado para o Conselho de Segurança Nacional; John Kelly, partidário de severas medidas de repressão contra os migrantes, substituiu o “fraco” Reince Priebus como Chefe de Gabinete da Casa Branca; Herbert McMaster assumiu como assessor de segurança nacional, Mark S. Inch é diretor do Departamento Federal de Prisões; Michael Bell é o principal assessor sobre o Oriente Médio; James Mattis foi Secretário de Defesa até o mês passado; e, finalmente, um chefe da CIA, Mike Pompeo, foi escalado para chefiar a política exterior, com a finalidade de acabar com a diplomacia, em favor do uso de bombas e mísseis. Trump ainda não tem embaixadores em cerca de 40 países. O Exército foi um dos seus grandes apoios durante a campanha presidencial, e por isso recebeu sua recompensa: um orçamento de 716 bilhões de dólares para o Pentágono em 2018, o que também significou cortes nos serviços sociais.

O “clube dos generais” se dissolve

“Trump é imoral e desonesto”, foram as palavras de Stanley McChrystal, ex-comandante no Afeganistão, para descrever o presidente, mostrando como as mudanças quantitativas se tornaram qualitativas, no que diz respeito ao apoio inicial dos militares ao seu governo.

Os motivos de sua declaração foram vários:

– Cortes no orçamento do Pentágono.

– Mentiras, ao afirmar que os militares tiveram seu primeiro aumento de salário em 10 anos graças a ele, quando a verdade é que o setor recebe incrementos todos os anos.

– Negação à versão oficial sobre “a invasão soviética no Afeganistão”. Trump reconhece que a União Soviética enviou tropas ao país para se proteger dos terroristas. É a primeira vez que um presidente dos Estados Unidos admite que a Operação Ciclone (o envio de 30 mil jihadista da Al Qaeda ao Afeganistão, com o apoio da CIA), começou no dia 3 de julho de 1979, seis meses antes da entrada do Exército Vermelho, que foi solicitada oficialmente pelo governo local, naquele então. O atual regime reacionário de Cabul, títere do imperialismo norte-americano e preocupado por sua questionada legitimidade, pediu a Trump que se retifique.

– Falta de respeito aos soldados falecidos: chegou a dizer à viúva de um combatente assassinado no Níger que “ele sabia no que se estava se metendo”.

– Ficar em casa e não participar da oferenda floral do Dia dos Veteranos de Guerra, no Cemitério de Arlington.

– O envio de tropas à fronteira do México, considerado desnecessário, por provocar não só o sentimento anti migrante no Exército como também uma fragmentação, devido à presença de milhares de imigrantes latinos nacionalizados entre as tropas.

– A humilhação do almirante William McRaven, comandante que participou da operação que levou à morte de Osama Bin Laden”, ao comentar que o oficial “demorou em localizar o terrorista”. McRaven respondeu dizendo que Trump “não é o líder que esta grande nação necessita“.

– A declaração de que o criminoso de guerra John McCain “não é um herói” só por ter sido capturado pelos vietnamitas – dito por alguém que burlou sua convocação para ir àquela guerra!

– Não fingir respeito aos direitos humanos, ao considerar efetiva a técnica da tortura de “afogamento simulado”.

– Assegurar que possivelmente usaria o Iraque “como base, se quisermos fazer algo na Síria”.  O que seria este “algo”, depois da retirada das tropas?

– Não avisar as autoridades iraquianas sobre sua visita. Trump rompeu o protocolo e não se reuniu com seu homólogo, o primeiro-ministro Adil Abdul-Mahdi (que sofre de síndrome de “ilusão de soberania”), durante sua visita a Bagdá, e advertiu que o solo iraquiano não será utilizado para atacar os vizinhos. Agora, quase toda a oposição iraquiana pede a saída das tropas estadunidenses do país. O grupo islamista Asa’ib Ahl al-Haq (“Liga dos Povos de Deus”) anunciou que “vamos expulsá-los com um pé no traseiro”. Alguns ministros pediram explicações ao embaixador dos Estados Unidos, e asseguram que apresentarão uma queixa à ONU pela entrada ilegal de Trump ao país. Horas depois, houve uma poderosa explosão na Zona Verde, justamente próximo ao edifício da embaixada norte-americana.

–  Conduzir o país a guerras mais perigosas, por exemplo, contra o Irã.

Trump, que parece não entender a estratégia do império, tenta entender a política exterior com a ótica de um comerciante, que busca benefícios imediatos.

Um golpe militar em um país ocidental?

Há precedentes, como o realizado pelo general Charles de Gaulle, na França, em 1958, e inclusive o assassinato de John F. Kennedy, em 1963. Knut Royce, jornalista ganhador do Prêmio Pulitzer, conta que o governo de Jimmy Carter aprovou, em 1979, uma lei “para permitir que os militares tomem o controle do governo durante 90 dias, em casos de emergência“. Em 1987, o coronel Oliver North (uma das figuras centrais da trama Irã-Contras) formou um governo paralelo à administração Reagan. Hoje, segundo a revista Counterpunch (que cita o consultor político Roger Stone para tal afirmação), os três generais de Trump (Mattis, McMaster e Kelly) fizeram um acordo em 2017 para uma possível ação militar contra o presidente, mas somente se os três aprovassem a investida.

Ao contrário do discreto Obama, que também enfrentou um motim dos generais, Trump usa o Twitter para tentar desacreditá-los. Os militares odeiam ser desprezados por civis, ainda mais em público.

O aumento da influência dos altos oficiais sobre os assuntos civis do país, assim como o seu mal-estar para com Donald Trump, levou a imprensa estadunidense a organizar debates acalorados sobre como seria um golpe militar nos Estados Unidos, e a transição dos oficiais da postura de “desobediência respeitosa” à uma oposição ativa contra o presidente, o que permitiu até mesmo fantasiar sobre o destino do chefe de Estado: será assassinado, preso ou exilado?

Para expulsar Trump do poder, é preciso que aconteça o seguinte:

– Que seu processo político seja declarado fracassado, permitindo à oposição recorrer à Emenda XXV da Constituição, que o inabilita do cargo, ao considerá-lo “louco”, ou por “ser agente de um país estrangeiro” (no caso, a Rússia), por delitos sexuais, ou pelo “perigo” que representa para a paz mundial. John Hyten, general da Força Aérea, disse que rechaçaria uma ordem do presidente para lançar armas nucleares.

– Um acordo entre os militares, os serviços secretos e a elite política, judicial, financeira e religiosa, para expulsar do poder o velho playboy através de um golpe suave, sem tanques nas ruas: nas eleições de novembro, os eleitores pediram o fim do trumpismo, mostrando que há clima para algo assim.

Não é preciso um golpe de estado

Apesar da farsa da “guerra contra o terror”, e do discurso de que há “inimigos em todas as partes”, a sociedade estadunidense se militarizou, e o Exército tornou uma instituição intocável.

Contudo, nem a desgraça de ter um governante como Trump justifica um militar no poder. “É muito divertido disparar contra algumas pessoas”, não é uma frase dita por um psicopata qualquer, e sim pelo general Mattis, que foi um assassino em massa durante sua atuação no Iraque, pela qual ganhou o apelido de “cachorro louco”, apesar da “lavada na imagem” que recebeu de parte da imprensa, com alguns meios chamando-o de “bússola moral” ou “um dos adultos” da Casa Branca, que estaria encarregado de vigiar o milionário infantil.

O fato é que a atual apatia política pode fabricar personagens mais perigosos que o magnata dos hotéis.

Os altos oficiais dão prioridade aos interesses militares e propõem soluções bélicas aos problemas civis. Como diz o ditado, “para um martelo, tudo é prego”, e os cidadãos, soldados. A mente militar está treinada para ganhar guerras, matar, morrer, destruir, e não para desenhar estratégias diplomáticas e negociar.

O perigo não é só o de ter um presidente militar, e sim um Estado que se guie pelos interesses militares. Deve haver um controle civil e democrático sobre os homens armados.

Nazanín Armanian é uma acadêmica iraniana, professora de Ciências Políticas da Universidade de Barcelona e colunista do meio digital espanhol Público.es

*Publicado originalmente em publico.es | Tradução de Victor Farinelli


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