Pelo Mundo

Um protesto aos pouquinhos

A Argentina protesta contra a situação econômica, mas é uma indignação que se expressa aos pouquinhos. Um desses pouquinhos é a mobilização sindical

28/12/2018 15:20

(Télam)

Créditos da foto: (Télam)

 

Frase típica de dirigente opositor: “a gente se preocupa com o dia a dia, sofre, se angustia e acaba ficando sem tempo de pensar em eleições”. Tão certa quanto um ditado popular. E é verdade, tanto a parte de que a população faz o que pode para tentar sobreviver a esta recessão econômica e sentimental argentina, quanto a de que 2019 terá eleições durante todo o ano, pois o processo eleitoral começa agora mesmo.

Como informa o diário Página/12, a província de La Pampa terá primárias das eleições regional em 17 de fevereiro, ou seja, daqui há menos de dois meses. Nos distritos, haverá um festival de votações. A nível nacional, as alianças partidárias devem estar oficialmente registradas até o dia 12 de junho. Faltam menos de sete meses, portanto. No dia 11 de agosto serão realizadas as primárias nacionais, e no dia 27 de outubro, dentro de exatamente 10 meses, se disputará o primeiro turno.

Na aliança governista, a prioridade ainda é apostar na reeleição de Mauricio Macri. A governadora da província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, cuja popularidade é bem maior que a do presidente, por enquanto é um mero plano alternativo, mas quem sabe...

Na oposição mais opositora circulam nomes como os de Felipe Solá, Agustín Rossi e Alberto Rodríguez Saá. A ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner ainda não decidiu o que fará – ou não revelou essa informação. Se nada mudar nesse tabuleiro de hoje, Cristina será candidata, ou a grande eleitora: possui um grande eleitorado cativo na Grande Buenos Aires e também em outros cinturões metropolitanos das grandes cidades. Sozinha, essa enorme quantidade de votos não é suficiente para ganhar uma eleição, mas nenhum opositor pode ignorar essa vantagem.

Entre a oposição menos opositora, o único que já antecipou seu desejo de ser candidato é o senador Miguel Ángel Pichetto. O governador da província de Salta, Juan Manuel Urtubey, disse que está “disposto, mas não decidido”. Sergio Massa insinua, mas não afirma. Outro governador, Juan Carlos Schiaretti (província de Córdoba) deu sinais de prefere tentar sua reeleição. É legítimo suspeitar que se ele conseguir outra vitória regional, e considerando que o pleito cordobês acontece cinco meses antes da votação nacional (em 12 de maio), poderia considerar-se forte o suficiente para tentar uma candidatura nacional logo em seguida? E se o macrismo continuar se desinflando, com os seguidos aumentos das tarifas básicas (água, luz, gás, transportes), da inflação, do dólar e do desemprego, quem poderia descartar que Schiaretti resolva se reaproximar dos seus amigos da oposição menos opositora? Ou até da oposição mais opositora, se for mais conveniente.

O risco para a aliança macrista é o de confiar na inércia. “Se já votaram por Macri uma vez, o farão de novo”, parece ser o princípio com o qual os governistas trabalham. A esperança está na ideia de que foi possível enrolar o povo com desculpas midiáticas durante três anos, então porque não engoliriam um ano más do mesmo discurso? Por que não acreditariam que o milagre virá num possível segundo mandato?

Já entre as frentes de oposição, o risco maior é o da fragmentação. E não somente uma fragmentação política, que em algum momento de 2019 poderia ser saldada através de uma alquimia difícil de imaginar, mas não impossível. O ponto crucial é que a Argentina protesta contra a situação econômica, mas é uma indignação que se expressa aos pouquinhos. Um desses pouquinhos é a mobilização sindical. Também segundo o Página/12, o Observatório de Direito Social da CTA Autônoma (uma das duas divisões da central sindical CTA, Central de Trabalhadores da Argentina) registrou um aumento de 14% nas causas judiciais trabalhistas em comparação a 2018, uma tendência provocada principalmente por casos como dívidas salariais, suspensões e demissões injustificadas. Por exemplo, no distrito de Llavallol, os trabalhadores da empresa Canale montaram uma barricada na porta da fábrica para que o dono, que parou a produção, não possa retirar as máquinas. Outro pedacinho de protesto é a resistência contra os aumentos de tarifas dos serviços básicos (água, luz, gás, transportes). Há um movimento com base na cidade de La Plata contra os aumentos de luz nos bairros da classe média que carecem de água corrente e gás encanado. Os docentes são outro pedacinho de indignação permanente. Neste momento, eles estão mobilizados contra a medida da Prefeitura de Buenos Aires (administração macrista) de acabar com o turno noturno no ensino médio, nas escolas municipais. Na cidade de Moreno, desde a morte de Sandra Calamano e Rubén Rodríguez (servidores escolares mortos numa explosão de gás dentro de uma escola municipal), a população tem feito seguidas manifestações para exigir que a governadora María Eugenia Vidal invista na reforma das escolas. Outro pouquinho, cada dia mais ativo, está formado pelas associações de pequenas e médias empresas. Também há protestos dos movimentos feministas, que foram muito fortes em 2018 e pretendem continuar sendo – foram responsáveis pelas maiores manifestações deste ano, lutando contra velhas e novas injustiças.

A maioria desses fragmentos de resistência desgasta o governo, mas estão isolados. Por isso, os dirigentes da oposição mais opositora poderiam se equivocar se pensam que Macri se desgastará sozinho, ou que a maioria não votará por ele somente porque está mal economicamente. Na política, os automatismos não existem. Tampouco a resistência em si significa conquistar voto. Não é assim. Raúl Alfonsín ganhou a primeira eleição pós ditadura porque soube sintetizar a vontade democrática. Carlos Menem se apresentou como a esperança para superar a hiperinflação. Até mesmo Fernando de la Rúa teve seu discurso, com a promessa de acabar com a corrupção e manter a paridade do peso com o dólar – que pode ter sido um desastre, mas na época era uma ideia popular. Néstor Kirchner ofereceu a recuperação da estabilidade após o corralito. Cristina Kirchner, em 2007, defendeu a continuidade do projeto bem sucedido de Néstor, que deixou a Casa Rosada com 70% de aprovação. Em 2011, ela se reelegeu graças ao feito de ter enfrentado a crise mundial de 2008 com bons resultados. De todos esses, Mauricio Macri foi o único que precisou de um segundo turno para vencer – teoricamente, Néstor Kirchner também teve que ir a um desempate eleitoral em 2003, mas isso acabou não acontecendo, devido à desistência de Carlos Menem, e portanto foi a votação no primeiro turno que o elegeu. O macrismo encarnou uma proposta difusa de mudança, mentiu continuamente, mas soube transformar cada erro do kirchnerismo em mais apoio popular, até alcançar a diferença 2,68% que lhe deu uma das vitórias eleitorais mais apertadas da história das presidenciais argentinas. Todos esses presidentes eleitos ofereceram uma síntese política. Todos articularam, com uma ou outra hegemonia, as esperanças da classe média e os sonhos dos trabalhadores.

Por sua parte, a oposição menos opositora, trabalha com a ideia de que Macri tem 30% do eleitorado, e que a oposição mais opositora tem outros 30%, e portanto há um 40% que está em busca de um representante próprio. Essa ideia foi expressada recentemente por Pichetto, e talvez seja mera ilusão. Talvez, essa “larga avenida do centro”, como se costuma dizer, não seja como a uma 9 de Julio (uma das principais avenidas de Buenos Aires, onde está o Obelisco), e sim um beco sem saída. Já se sabe o que acontece nesses becos, como conta o célebre tango de Roberto Grela e Héctor Marcó: “além disso, sua ferida sangra, e a cidade se esquece de você” (“también te sangra una herida / a vos la urbe te olvida”).

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli

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