Pelo Mundo

Um rei sem asas

O presidente colombiano, Iván Duque, prefere ser chamado de tímido e fantoche, ao invés de enfrentar a raiva de Uribe. Esse é o tamanho do seu medo

13/07/2020 10:42

Iván Duque, presidente da Colômbia (EFE)

Créditos da foto: Iván Duque, presidente da Colômbia (EFE)

 
O presidente da Colômbia, Iván Duque, está tirando o país de suas mãos, se é que já o teve alguma vez. Desde que chegou ao poder, ele governa como um garoto assustado que nunca terminou de desmamar.

Ele poderia ter usado o poder para unir colombianos nesses tempos difíceis, criar pontes com a oposição, para que pudéssemos sair dessa pandemia sem tanta bagunça, mas por medo de desencadear a ira do eterno presidente, ele não o fez.

Para evitar antagonizar com Álvaro Uribe, Duque preferiu usar o medo do contágio, reforçar a tese de que todos os colombianos precisam inventar seus próprios medos, e construir uma pequena fortaleza adaptada à sua covardia, a fim de se proteger de qualquer escrutínio público. Dessa maneira, ele se esconde do seu próprio país, para que não vejamos o quanto sua falta de liderança e sua imaturidade o dominam.

A partir daí, daquela fortaleza abstrata que foi construída, somos governados por um prisioneiro. Duque é prisioneiro de suas próprias deficiências e cercado pelas exigências de Uribe, seu eterno presidente, seu verdadeiro mestre.

Ele decidiu estabelecer um programa de televisão diário, supostamente para manter os colombianos informados sobre a questão dos coronavírus. Mas, na realidade, o que fez foi seu próprio programa no estilo de Jaime Bayly, no qual ele se pergunta e responde a si mesmo. É assim que sua responsabilidade funciona. Sem rendição, sem contas e sem ninguém retaliar do outro lado.

Enquanto o promotor Barbosa viaja pela Colômbia, pedindo que os parques naturais sejam abertos à visitação em plena pandemia, Duque, que é o presidente e deve estar em turnê por todo o país, não é capaz de deixar seu forte.

Algo me diz que Duque permanece em seu esconderijo, não por medo do coronavírus, mas porque ele não quer se expor a ser solicitado a obter explicações na rua sobre suas ações, ou sobre os escândalos que o perseguem diariamente. Do suposto financiamento ilegal de sua campanha presidencial, ele não disse uma palavra. Também não aborda a questão do “fantasma” que assombra Marta Lucía Ramírez, sua vice-presidente, a não ser para recompensá-la. Tampouco foi possível explicar por que o Exército acabou expulsando o soldado que denunciou o estupro de uma menina indígena menor de idade, que foi atacada por sete oficiais, e por que as Forças Militares não tomar as mesmas medidas contra os estupradores. Este é um governo em que os questionados são recompensados %u20B%u20Be os que denunciam são expulsos. Um governo em que o presidente não responde a ninguém, apenas a Uribe. É para isso que serve aquela sua fortaleza, para se abrigar do lado de fora e se sentir seguro de perguntas desconfortáveis. Querem saber do governo? Perguntem a Uribe! Deixem o “presidente” sozinho, assistindo Netflix.

Numa época em que o país está enfrentando uma pandemia e exige que suas instituições respondam, e que o sistema de pesos e contrapesos funcione, Duque decidiu se comportar como um pequeno rei: ele nos governa por decreto, como se nosso Estado de direito tivesse se tornado um fábrica de produção de subseções e sem precisar prestar contas a ninguém. A chuva de decretos com os quais ele nos bombardeou por quatro meses não tem controle político, porque o Congresso virtual que eles criaram durante a pandemia é uma farsa que permitiu ao Centro Democrático e ao próprio presidente manter a manipulação nos bastidores das questões de poder.

Duque só tem força para fazer o que o dogma uribista lhe impõe, nada mais. E é claro que o uribismo não está interessado em fortalecer toda a nova institucionalidade criada a partir do Acordo de Paz, porque o que ele quer é miná-lo, começando com a JEP (sigla em espanhol da Jurisdição Especial Para a Paz, que julgaria os presos políticos da guerra civil dentro dos termos estabelecidos pelo Acordo de Paz).

Além disso, Duque nem sequer tem a intenção de fazer a coisa certa: nessa pandemia, ele decidiu beneficiar os mais ricos, ou seja, aos bancos e os grandes empresários, aos quais concedeu quase 9 bilhões de pesos colombianos em isenções fiscais.

Também mostrou que teme mais a ira de Uribe que a do julgamento da história. Ele sabe que o “eterno presidente” o colocou onde está porque o vê como incapaz de tomar seu próprio voo, como Juan Manuel Santos (útil em algum momento), e resignado a obedecer aos seus planos. E por isso não vai desafiá-lo. Repito, ele não é capaz de fazer isso. Duque prefere ser chamado de tímido e fantoche ao invés de enfrentar a raiva de Uribe. Esse é o tamanho do seu medo.

Ele cortou suas próprias asas para demonstrar ao “presidente eterno” que não iria decolar quando chegasse ao poder, como fez seu antecessor nos últimos anos do seu mandato. Mas não percebeu que, ao se desligar das suas responsabilidades, tornou-se prisioneiro eterno de Uribe.

Duque provavelmente entrará na história pelo que tem feito até agora: um covarde que nunca conseguiu superar seus traumas e seu medo de voar sozinho.

*Publicado originalmente em semana.com | Tradução de Victor Farinelli



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