Pelo Mundo

Um sobrevôo pela mídia alemã (I): O jornalismo impresso

04/12/2012 00:00

Flávio Aguiar

Berlim - A paisagem da imprensa escrita e da mídia alemãs é bastante diferente da brasileira. No caso da imprensa escrita, isso começa já com o produto que se tem em mãos. De um modo geral, os jornais alemães – tanto à esquerda como ao centro e à direita – seriam descritos como “conservadores” no Brasil. No mais das vezes suas páginas, desde a primeira, são ocupadas por muito texto, longos artigos assinados, longas reportagens. Há exceções, claro: a mais evidente delas é o jornal diário “Bild”, cujo nome quer dizer “imagem”, ou mesmo “fotografia”. “Bild” é um jornal conservador (do ponto de vista político) e sensacionalista ao mesmo tempo, em formato de tablóide, que trombeteia manchetes e fotos espetaculares.

Ao contrário dos jornalões brasileiros, é raro os jornais alemães se empenharem em campanhas políticas diretas, embora tenham, é claro, suas posições editoriais e seus articulistas possam defender este ou aquele ponto de vista. Uma exceção recente foi o caso da campanha que levou o então presidente da RFA, Christian Wulff, à renúncia.

Em sua ascenção, Wulff, um político da província da Baixa Saxônia (Niedersachsen), filiado à CDU de Angela Merkel, teve, além do apoio desta, o apoio do jornal Bild. Já outras publicações, como a revista Der Spiegel, preferiam claramente o atual presidente, Joachim Gauck, que concorreu contra ele na eleição indireta que escolhe o presidente.

Posteriormente, por razões ainda mal esclarecidas, caiu em desgraça com Bild. Aqui na Alemanha há um ditado, propalado por um dos diretores do Bild: “quem sobe de elevador com Bild, desce com ele”. Foi o que aconteceu. Bild anunciou ter informações comprometedoras sobre o comportamento de Wulff, que aceitara ficar num hotel de um amigo seu sem pagar, levantando suspeitas de um possível favorecimento (que não se comprovou). Daí Wulff fez dois movimentos errados: primeiro, mentiu que pagara; segundo, ligou, irritado, para o diretor do Bild pedindo – em termos não muito educados – que ele “postergasse” (segundo uns) ou “suspendesse” a publicação da matéria. Aí o caldo entornou, e a questão virou uma matéria de atentado à liberdade de imprensa. Depois de uma penosa batalha de afirmações e desmentidos, Wulff renunciou, acossado por quase toda a imprensa e a mídia alemãs.

No caso de Wulff, a imprensa enveredou (v., p. ex., o caso de Der Spiegel) por um caminho de denúncias pessoais contra o então presidente, esquadrinhando sua vida pessoal, definida como “luxenta” e algo “perdulária”, um problema nesta Alemanha de recorte protestante, mesmo em suas regiòes católicas, como a Baviera. Mas isso é coisa muito rara por aqui. Assim mesmo, nada há de semelhante, por exemplo, ao tratamento completamente desrespeitoso, buscando o avacalhamento grosseiro, que se viu e ainda se vê na nossa imprensa com respeito ao ex-presidente Lula, sem falar em outros políticos. Isso aqui é impensável, tanto para os jornais conservadores, como o Frankfurter Allgemeine e o Die Welt, ou os considerados mais à esquerda, como o Tageszeitung, tam bém chamado de TAZ.

Apesar do público leitor ser muito amplo na Alemanha, a imprensa vem padecendo de problemas financeiros. Dois grandes jornais alemães pediram concordata recentemente, e anunciaram seu fechamento em breve: o Frankfurter Rundschau, tido como mais à esquerda, e o Financial Times Deutschland, do campo mais conservador. No caso mais recente, o do FT Deutschland, versão alemã do FT britânico, mas com muito material próprio, o fechamento representa uma perda de 360 postos de trabalho. Também a DADP, considerada a segunda agência de notícias da Alemanha, anunciara o pedido de uma concordata em Outubro. Essas quebras são vistas, em parte, como a chegada à Alemanha das novas vicissitudes impostas pelo avanço do jornalismo eletrônico.

Aliás, já em 2007, em artigo publicado no site do Goethe Institut, o jornalista Heribert Prantl, diretor do Departamento de Política Nacional do Süddeusche Zeitung, também visto como do campo da esquerda, apontara que a internet vinha criando uma cultura desfavorável à liberdade de informação (apesar da sua ampliação), por favorecer um tipo de reportagem ready made que poderia ser comparada à algo como a fast food. O jornalista, dizia ele, perde a oportunidade da reflexão, transformando-se num espelho automático para a reprodução rápida e barata da informação online.

Por essas e por outras razões, dizia ele no artigo, o que ameaçava a liberdade de imprensa e informação na Alemanha não era o estado, mas a pressa e a ganância das empresas de comunicação, querendo ganhar cada vez mais em menos tempo e com menos despesas. (“Presse Freihait in Deutschland”, )

É claro que a liberdade de imprensa e informação na Alemanha é objeto da Constituição Federal. Porém a legislação estabeleceu a criação de um Conselho Alemão da Imprensa no país, visto como um sistema de auto-controle por parte do jornalismo, livre da ingerência do estado, portanto. Criado em 1956, o Conselho adotou um “Código Ético da Imprensa” em 1973, que tem força de lei. Com sede primeiro em Bonn, durante a divisão alemã, o Conselho hoje tem sede em Berlim.

Tomam assento nele 28 membros, escolhidos paritariamente a partir das duas associações nacionais de empresas de jornalismo e da federação e do sindicato de jornalistas da Alemanha. Esse Conselho recebe queixas (1661 em 2010) de pessoas que se consideram atingidas ou que julgam ter sua privacidade violada, por exemplo, mas também define as regras para atuação das empresas e dos jornalistas, bem como para sua proteção.

Jamais vi, por aqui, alguma reclamação contra a existência desse Conselho, nem sobre a participação dos jornalistas nele em pé de igualdade com os donos das empresas e agências do setor.

Ainda de um modo geral, pode-se dizer que a situação da imprensa tradicional na Alemanha é bem mais plural do que a brasileira. Há maior diversidade ideológica entre os periódicos e seu interior, em geral, é bem mais diversificados do ponto de vista ideológico do que no Brasil.

A seguir: II - Um olhar sobre a televisão.


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