Pelo Mundo

Uma bota está esmagando o pescoço da democracia estadunidense

A questão fundamental no momento é: os EUA podem ser reformados?

04/06/2020 11:54

(Jose F Moreno/AP)

Créditos da foto: (Jose F Moreno/AP)

 
Aqui vamos nós de novo. Outra pessoa negra morta pela polícia estadunidense. Outra onda de resistência multirracial. Outro ciclo de debates raciais na mídia corporativa. Outra demonstração de diversidade com líderes neoliberais, e outro contragolpe branco esperando na esquina. Ainda assim, dessa vez pode ser um momento decisivo.

A morte inegavelmente bárbara de George Floyd, as realidades violentas da miséria desigual do coronavírus, o desemprego em massa em níveis de Depressão e o colapso total da legitimidade da liderança política (em ambos os partidos) estão derrubando a cortina do império estadunidense.

A crescente militarização da sociedade dos EUA é inseparável das suas políticas imperiais (211 envios de forças armadas em 67 países desde 1945). A resposta militarizada à morte de Floyd conta uma história de uma presença policial excessiva, agressões gratuitas e força excessiva. Ironicamente, o debate mal interpretado sobre agitadores vs manifestantes e agitadores de fora vs cidadãos locais legítimos desfoca a atenção sobre o quanto a presença de agentes da lei em peso alimenta o desrespeito pela polícia. O contraste evidente da resposta policial aos provocadores de direita que aparecem dentro e fora das capitais dos estados com armas paira consideravelmente.

Eu lembro da minha experiência protestando em Charlottesville, Virginia, contra centenas de nazistas mascarados e armados com munição verdadeira, onde os policiais recuaram e permaneceram parados e calados enquanto éramos atacados sem piedade. Sem a intervenção e proteção da antifa, alguns de nós teriam morrido. A irmã Heather Heyer morreu. Eu acredito que atacar qualquer pessoa inocente é errado, mas o foco nas agressões dos manifestantes contra outras pessoas ou propriedades tira a nossa atenção da polícia matando centenas de pessoas negras, pobres e trabalhadoras.

Também ofusca o papel do aparto repressivo de preservar uma ordem tão injusta e cruel. O papel do dinheiro, das hierarquias de gênero e classe e militarismo global devem ser salientados na nossa profunda preocupação com a brutalidade policial racista.

As quatro catástrofes que Martin Luther King Jr nos avisou – militarismo (na Ásia, África e no Oriente Médio), pobreza (em níveis históricos), materialismo (com vícios narcisistas em dinheiro, fama e espetáculo) e racismo (contra negros e povos indígenas, muçulmanos, judeus e imigrantes não-brancos) – desmascararam a corrupção, o ódio e a ganância organizados no país. A máquina mortífera do exército dos EUA aqui e no exterior perdeu sua autoridade. A economia capitalista conduzida pelo lucro perdeu sua luminosidade. E o brilho da cultura conduzida pelo mercado (incluindo mídia e educação) está cada vez mais apagado.

A questão fundamental no momento é: esse experimento social fracassado pode ser reformado? O duopólio político de um Partido Republicano cada vez mais neofascista liderado por Trump e de um Partido Democrata neoliberal liderado por um cansado Joe Biden – de maneira nenhuma equivalentes, mesmo ambos pertencendo à Wall Street e ao Pentágono – são sintomas de uma classe dirigente decadente. A fraqueza do movimento trabalhista e a presente dificuldade da esquerda radical de se unir em torno de um projeto revolucionário não-violento de partilha democrática e redistribuição de poder, riqueza e respeito são sinais de uma sociedade incapaz de regenerar o melhor do seu passado e do seu presente. Qualquer sociedade que se recusa a eliminar sistemas escolares decrépitos, encarceramento em massa, desemprego em massa ou subemprego, sistema de saúde inadequado e violações aos seus direitos e liberdades, é insustentável e indesejável.

Ainda assim, a incrível coragem moral e sensibilidade espiritual da resposta multirracial ao assassinato de George Floyd pela polícia – que agora se transformou em resistência política contra o saqueio ilegal feito pela ganância de Wall Street, a depredação do planeta e a degradação das mulheres e pessoas LGBTQ - significam que ainda estamos lutando, mesmo com todos os obstáculos.

Se a democracia racial morrer nos EUA, que seja dito que fizemos de tudo enquanto as botas do fascismo estadunidense tentavam esmagar nossos pescoços.

*Publicado originalmente em 'The Guardian' | Tradução de Isabela Palhares



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