Pelo Mundo

Uma derrota impactante do avassalado neoliberalismo macrista

 

13/08/2019 10:23

 

 
Os candidatos presidenciais da chamada “Frente de Todos”, Alberto Fernández e Cristina Fernández, que representam a união de diferentes setores do peronismo, venceram por goleada as eleições primárias, com uma diferença de 16% sobre a dupla Mauricio Macri e Miguel Ángel Pichetto, da aliança governista Juntos pela Mudança. Esta foi a última etapa eleitoral no país antes do primeiro turno das eleições, que será no dia 27 de outubro.

Em um cenário hiper polarizado, onde as duas forças majoritárias concentram quase 80% das adesões (e sem contar com uma disputa interna em suas coalizões), os resultados tiveram o impacto de uma enorme pesquisa eleitoral nacional, na qual três quartos da população participou, e dois terços, aproximadamente, mostrou um claro repudio às políticas neoliberais do governo do presidente Macri.

Alberto Fernández, ex-chefe de gabinete de Néstor Kirchner, afirmou que Macri deve tomar nota do resultado e “ordenar a desordem que criou antes de terminar seu mandato”, após deixar claro que o que ocorra daqui até dezembro “é responsabilidade exclusiva do seu governo”. No dia seguinte ao da votação, o dólar disparou, saltando de 46 a 57 pesos (chegou a estar acima dos 60 em algum momento do dia).

Nas eleições gerais de outubro, para se vencer já no primeiro turno, o candidato terá que obter mais 45% dos votos, ou entre 40% e 45%, desde que tenha uma diferença de dez pontos sobre o segundo colocado. Caso contrário, haverá segundo turno, no dia 24 de novembro.

Os números finais da apuração derrubaram totalmente as previsões recebidas pela Casa Rosada e realizada pelos institutos contratados pelo macrismo, com a estratégia de construir um clima virtual de paridade que não puderam sustentar, apesar do apoio da imprensa hegemônica e da manipulação nas redes sociais. A única verdade é a realidade, e esta foi a que se viu nas urnas: o macrismo só venceu na capital Buenos Aires e na província de Córdoba.

Estas primárias, que o macrismo chegou a dizer que parecia um exagero republicanista – já que a definição das eleições será mesmo no dia 27 de outubro, ou 24 de novembro –, se tornou uma grande pesquisa nacional, como o poder fático temia, e terminou sendo tão grande que nem as suspeitas sobre a empresa que fazia a transmissão dos dados (a polêmica Smartmatic, com um histórico de manipulações mundo afora), nem o rumor de atuação da Emerdata (empresa surgida dos herdeiros da Cambridge Analytica), nem os trolls governistas, nem as fake news dos autoproclamados “grandes jornalistas argentinos” dos meios hegemônicos foram capazes de alterar o panorama.

A mira do governo apontou aos cerca de dois milhões de eleitores que não votaram nas primárias de 2015, mas sim o fizeram nas eleições gerais. Também priorizou a terceira idade (que não tem obrigação de votar), setor que também acumulou a frustração pelo ajuste, a falta de resultados econômicos, o desemprego e os altos niveles de pobreza no outrora chamado celeiro do mundo.

A terceira via, representada pelas ofertas dos direitistas Roberto Lavagna e José Luis Espert, não conseguiu decolar, presa de um cenário de hiper polarização, enquanto a esquerda, fragmentada, não conservou o apoio de quatro anos atrás.

Em 2015, o macrismo ficou 9% atrás do kirchnerismo nas primárias, logo 4% atrás no primeiro turno e finalmente 3% na frente na votação decisiva. Contudo, a situação hoje não é a mesma. Os estrategistas do governo basearam sua campanha em um deliberado ocultamento do debate econômico, destacando a demonização da coalizão kirchnerista-peronista (especialmente na figura da ex-presidenta Cristina Fernández de Kirchner e do “marxista” Axel Kicillof), acusada de ser um “caminho do futuro ao passado”. Chegaram ao cúmulo de pedir que as pessoas entregassem seu voto “sem que precisemos dar argumentos”. Mas os argumentos estavam à vista de todos: crise econômica e social, pauperização, miséria.

Refugiada em sua residência, no extremo sul do país, quase sem aparições públicas, Cristina deixou o protagonismo e delegou a candidatura presidencial a Alberto Fernández e possibilitou a criação de uma frente opositora de unidade, que conseguiu incluir figuras como Sergio Massa – um apoio importante na província de Buenos Aires – e os governadores e prefeitos peronistas de todo o país.

Cristina o acompanhou com a apresentação do seu livro nos distritos onde a Frente de Todos colhe mais adesões. Também fez duas aparições ao lado do seu companheiro de fórmula, no começo e no final da campanha.

Nas últimas semanas, Alberto Fernández, um candidato inesperado, interpretou a realidade e colocou a economia em primeiro plano, com algumas propostas concretas sob a consigna “vamos recuperar a economia”, em sua busca de conglomerar os milhões de desencantados e vítimas da experiência neoliberal e predadora do macrismo.

O governo apelou ao manual provado com sucesso: mensagens hiper segmentados para capturar a atenção de cada tribo cidadã, estudadas aparições públicas nos distritos adversos e aliados, e o manual de uso das redes sociais que, sobre o final, deixou uma bizarra falha nos bots que multiplicaram a hashtag #YoVotoMM, com frases desconexas de respaldo ao presidente. A efetividade do aparato comunicacional do macrismo e seus assessores estrangeiros não apareceu desta vez.

Uma diferença abismal

A diferença da Frente de Todos (peronista) sobre a aliança Juntos Pela Mudança (macrista) superou até mesmo a margem de tolerância que o governo havia construído (esperava-se uma derrota de não mais de cinco pontos), e que seria reversível – segundo seus assessores de imagem – nas eleições do último domingo de outubro.

Além da disputa nacional, a atenção também estava voltada para o que será o futuro da governadora macrista da província de Buenos Aires, María Eugenia Vidal, que também lutava por sua reeleição, no território que concentra 37% do eleitorado nacional e cujo processo não tem segundo turno. Porém, seu fracasso foi ainda maior que o de Macri: o kirchnerista e ex-ministro da Economia Axel Kicillof chegou ficou a poucos décimos dos 50% dos votos e superou Vidal com mais de 16% de vantagem.

Para equilibrar um possível revés na Província de Buenos Aires, o governo confiava na acumulação das outras duas províncias mais importantes da zona centro a favor de Macri: Santa Fe e Córdoba. Porém, em Santa Fe, Fernández obteve 43,62%, com quase dez pontos de vantagem sobre o macrismo, que chegou a 33,88%. O único lugar onde se confirmaram as previsões da Casa Rosada foi em Córdoba, onde Macri conseguiu um 48,18% e ficou quase 20 pontos à frente do peronismo, que reuniu 31%.

Os analistas acreditam que a coalizão de centro-direita Consenso Federal – liderada pelo economista Roberto Lavagna, que ficou com 8,37% dos votos e se tornou a terceira força nacional – poderá ter um valor determinante para uma vitória da Frente de Todos no primeiro turno em outubro, a não ser que decida apoiar o macrismo, o que seria o suicídio de uma experiência recém nascida.

Como chegar em outubro?

Está claro que a fórmula dos dois Fernández (Alberto e Cristina), como a de Kicillof na província de Buenos Aires, terá que enfrentar um caminho cheio de dificuldades até o dia 27 de outubro, em meio a uma agudização da crise, que coloca em risco até mesmo a possibilidade de que Macri termine o seu mandato.

Macri perde governabilidade e começa a recordar o ex-presidente Fernando de la Rúa, que teve que fugir em helicóptero antes de terminar seu mandato. Porém, o projeto macrista, que foi mostrado como modelo contra o progressismo na região, com seu líder apresentado como herói na primeira vez que participou da cúpula em Davos, jamais investiu em produção, e apostou somente na especulação e no endividamento.

Em parceria com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o país se endividou até o pescoço, na tentativa de controlar qualquer ato futuro de rebeldia contra as políticas neoliberais de evasão de capitais e dependência financeira. Por sua parte, o FMI transgrediu todas as suas normas, para dar à Argentina 62% de toda a sua capacidade de empréstimo – é algo inédito na história do organismo ter mais da metade dos seus recursos outorgados nas mãos de um só país, e ainda mais sem a aprovação parlamentar do mesmo. Portanto, uma dívida ilegal, cujo objetivo é sustentar a campanha para a reeleição de Macri ou, caso contrário, condicionar o governo que o sucederá.

O que virá?

 “A Argentina hoje está parindo outro país, e nesse país do qual falava Cristina (Fernández de Kirchner), o único trabalho que teremos é o de recuperar a felicidade dos argentinos”, disse o candidato a presidente do Frente de Todos, Alberto Fernández, que fez um apelo à unidade e para acabar com as ideias de vingança e polarização.

Mais cedo, quatro horas e meia depois de fechadas as urnas, sem que houvesse nenhum resultado oficial, o presidente Mauricio Macri chegou ao seu comando de campanha e suas primeiras palavras foram: “tivemos uma eleição ruim”, quando ainda não havia cifras oficiais no centro de cômputos, o que criou incertezas e suspeitas.

De Santa Cruz, no extremo sul, Cristina Fernández de Kirchner enviou uma mensagem, que foi recebida com gritos e cânticos pela multidão, os quais foram crescendo com o passar das horas. Ela falou serenamente sobre a importância da unidade conquistada, e a esperança de que todos se mantenham juntos depois das eleições de 27 de outubro.

Mas também lembrou que “somos absolutamente conscientes da crise que a Argentina vem atravessando”, e ao se referir aos desocupados e à pobreza, ela afirmou que “longe de ficar feliz pelo triunfo, estamos pensando na responsabilidade sobre o que vamos enfrentar a partir de agora”.

Pouco antes, devido à demora no centro de cômputos em divulgar os resultados das primárias, os partidos opositores começaram a mostrar os dados que tinham reunido em suas contagens paralelas, e não sem antes denunciar à justiça eleitoral as irregularidades do governo, que manteve a empresa Smartmatic no trabalho de apuração, apesar de todas as advertências – que se mostraram certas, já que ela terminou cometendo erros graves e não deu os resultados concretos antes no prazo prometido.

O governo tentou atrasar os resultados para ver se podia influir em alguns deles, mas tiveram que se render diante da realidade, especialmente pelo que aconteceu na província de Buenos Aires.

Triste e solitário, parece que este será o final de Mauricio Macri e seu modelo neoliberal, que talvez tenha entendido, só agora que não se pode governar contra o povo, como se ele não existisse, e apesar do respaldo das grandes corporações, dos meios de comunicação e do capital concentrado. Seu governo levou pessoas a viverem nas ruas, afetou os mais vulneráveis e colaborou com a fuga de capitais para os paraísos fiscais, favorecendo os especuladores argentinos e estrangeiros. O povo não o perdoou.

Claudio della Croce é economista e docente argentino, investigador associado ao Centro Latino-Americano de Análise Estratégica (CLAE)

*Publicado originalmente em estrategia.la | Tradução de Victor Farinelli




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