Pelo Mundo

Uma direita perigosa

É evidente, notório e além de qualquer dúvida o fato de que a espanhola é uma das piores direitas da Europa. Algo deverá ser feito quanto a isso.

03/04/2019 11:03

(Reprodução/ElViejoTopo)

Créditos da foto: (Reprodução/ElViejoTopo)

 

No reino da Espanha há uma direita tricéfala sem comparação na União Europeia. Uma direita sucessora e herdeira do franquismo, formada pelo ultraconservador Partido Popular, o equivocado Cidadãos (que quando nasceu simulou ser partido uma espécie de “centro progressista”) e o franquista Vox. Uma direita néscia (do verbo em latim “nescire”: ignorar, não saber) que defende os interesses da minoria rica, e que demonstra isso em uma das primeiras decisões do recentemente conformado governo direitista andaluz: acabar com o imposto sobre heranças. Ou seja, entregar 400 milhões de euros aos ricos herdeiros da Andaluzia; milhões que as arcas públicas regionais deixarão de arrecadar. Mas, como a regulação fiscal das heranças é estatal e não regional, a armadilha do governo conservador andaluz, para servir aos seus senhorios ricos, é a de conceder uma bonificação que permite descontar 99% do imposto a pagar por herança. Na prática, o extingue. A medida beneficia somente uns 20 mil cidadãos andaluzes que têm o que herdar, a minoria possuidora de grandes patrimônios, em uma população de 8,5 milhões.

Faltar com a verdade

Além de defender os interesses dos ricos, o Partido Popular (PP) usa de novo a falácia de insinuar que sofreu uma conspiração no pior atentado terrorista da Espanha: o de 11 de março de 2004. Pablo Casado ousou dizer que as vítimas merecem saber a “verdade”. Que verdade? A verdade é que, três anos depois de a Audiência Nacional condenar os responsáveis daquele atroz atentado, sem deixar o menor resquício de dúvida a respeito, seguir com essa miserável falsidade é injuriar a memória das 192 pessoas que morreram no atentado mais sangrento realizado na Espanha.

Mas não é de se surpreender que o líder do PP falte com a verdade com tamanha frequência. Agora, pretende impulsar uma antecipação eleitoral, só porque o PP se opôs aos orçamentos do governo de Sánchez, e assim forçou a dissolver este Congresso. Casado esquece (ou não entende) que os orçamentos seriam aprovados, inclusive com o voto contrário do PP e do Cidadão, mas quem os derrubou foram os partidos independentistas catalães, que votaram contra. Casado insiste, sem mencionar dato ou fato algum, que o governo de Sánchez assinou supostos pactos secretos com os partidos catalães. E também falta com a verdade ao atribuir à não tão nutrida concentração das três direitas na Praça Colón de Madrid, o fim da negociação do governo espanhol com o governo da Catalunha. Falso. Dois dias antes dessa concentração, Carmen Calvo, vice-presidenta do governo, anunciou que diálogo com os independentistas havia terminado.

Propiciando o aumento do independentismo

Casado sustenta também que o governo “aproximou os presos catalães da penitenciária de Lledoners” como uma estranha concessão aos independentistas. Mas não foi o governo, e sim o juiz instrutor do caso do referendo independentista de 2017, Pablo Llarena, que ditou uma providência na que argumentava que “não há razão processual que leve à custódia dos processados a um centro penitenciário concreto”. Após a decisão judicial, as instituições penitenciárias levaram os presos aplicando a norma que indica que eles devem estar o mais perto possível de seu ambiente pessoal e familiar habitual.

O paradoxal neste conflito é que o independentismo catalão cresceu com o governo de Rajoy, tendo o PP maioria absoluta no Congresso. E, com o governando, os independentistas conseguiram ter maioria absoluta no parlamento da Catalunha. O que leva a concluir que o maior promotor de fato do aumento de independentistas na Catalunha deve ser o próprio PP. Verificando as datas e porcentagens de independentistas, os partidários da independência da Catalunha cresceram enormemente após o recurso do PP apresentado no Tribunal Constitucional, contra a reforma do Estatuto da Catalunha (que o Congresso aprovou sem problemas) e a conseguinte sentença do Tribunal, a cortando as atribuições de autogoverno – entre as que, curiosamente, algumas já estão vigentes nos estatutos de autonomia de Valencia e da Andaluzia, sem que ninguém tenha protestado, e menos ainda reclamado na Justiça. Antes desta sentença, os partidários da independência catalã nunca conseguiram superar os 10%, mas hoje estão entre 45 e 48%. Parece claro, quem foi que provocou o aumento do independentismo.

Diálogo ou repressão, não tem outro jeito

Sobre o conflito catalão, a revista britânica The Economist publicou um editorial criticando a decisão de PP e Cidadãos de ir além do que propõem o centralista e ultradireitista Vox. O semanário britânico assegura que a política de repressão e de cortes do autogoverno (a partir da aplicação do artigo 155 da Constituição Espanhola, reclamada com insistência por esses partidos) “levará a um aumento dos partidários da independência”. Os dados e cifras mostram que só uns 45% são independentistas, um problema que deverá ser encarado, para que se busque uma solução política. Ou, por acaso, os partidos de direita pretendem resolver a situação com controle e repressão constantes aos 45% partidário da independência?

Na Irlanda del Norte, após anos se matando uns aos outros, católicos e protestantes se sentaram para dialogar, para negociar. O resultado foi que entraram em um acordo para governar conjuntamente esse país, e para que a violência sistemática acabasse. Assim, a Irlanda do Norte se pacificou. O conflito catalão parte de uma melhor posição, mais positiva, pois, por mais que a Promotoria diga que houve rebelião e violência por parte dos independentistas, a própria Europa desmentiu essa versão com argumentos jurídicos, ao negar a extradição do líder catalão Carles Puigdemont, ex-presidente da Generalitat da Catalunha, que fugiu para Bruxelas e foi detido na Alemanha.

E, continuando com a radiografia da direita hispânica, nos encontramos com um fato inquietante que se refere à atuação política pela igualdade de mulheres e homens. O Vox pediu, através do governo da Andaluzia, dados de empresas, empregados e organizações que trabalham contra a violência machista nessa comunidade autônoma. A solicitação pelos dados de empregados que avaliam os casos de violência de gênero, e embora não exija nomes – porque o Parlamento andaluz não pode fornecê-los, devido à vigência da lei de proteção de dados –, o partido quer sim acesso a informações sobre o perfil professional, categoria de trabalho e número de associação sindical desses empregados. Para que o partido de extrema direita quer ter esses dados?

Listas negras?

Francisco Serrano, presidente do Vox no parlamento andaluz, afirma que os empregados que trabalham para os Conselhos de Justiça e Igualdade contra a violência machista não estão qualificados e os acusa de elaborar ideológicos, sem acrescentar dado algum para sustentar essa declaração. Como ocorre com o bom burguês da comédia de Molière “O Burguês Fidalgo”, que não entendia que as pessoas falam em prosa, o Vox tampouco sabe que acusar um informe de ser “ideológico” é absurdo. Pois, salvo que seja de um morto, a atividade humana é ideológica. Isso é o que a Real Academia da Língua Espanhola, que define “ideologia” como o conjunto de ideias fundamentais que caracterizam o pensamento de uma pessoa, coletividade ou época. Por acaso, é possível atuar sem ideias? Talvez a direita sim, mas não o resto. O que o Vox busca com esta petição de dados das pessoas que trabalham contra a violência machista? Macartismo espanhol com listas negras? Seria muito grave, e mais ainda quando o PP e o Cidadãos de calam diante da petição do Vox.

É evidente, notório e além de qualquer dúvida o fato de que a espanhola é uma das piores direitas da Europa. Algo deverá ser feito quanto a isso.

*Publicado originalmente em elviejotopo.com | Tradução de Victor Farinelli

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