Pelo Mundo

Uma fábula sobre a cidade das barracas

01/08/2011 00:00

Haaretz

Créditos da foto: Haaretz
Michael Spiegel diz que a juventude acampada nas barracas que se espalharam repentinamente perto de Jerusalém são “a esperança”, pronunciada com ênfase na penúltima sílaba – “há-ti-vah” – como o título do hino nacional. Ele tem vivido como “morador de rua”, como diz, há “11 anos e, de repente todos esses jovens chegaram ao Parque do Cavalo” – o lugar em que dorme quando não está frio na capital.

Eu o vi nesta semana, esparramado no seu barraco de vime maltrapilho, que é sua morada permanente, na esquina do Parque do Cavalo – o nome popular do lugar por causa da grande escultura de um cavalo que tem no lugar – próximo a uma placa que diz “City Cellar” [algo como adega da cidade, provavelmente a propaganda de uma loja de vinhos e delicatessen].

O Knesset [Parlamento Israelense] foi um dia localizado no prédio exatamente do outro lado; nesse período, o edifício Frumin, lar das cortes rabínicas, próximas as quais tem um outra placa: “Fortaleza de Judá, guardião da Judeia, Samaria, Gaza, guardião da terra, guardião do Templo”.

Há umas 40 barracas iglu, cada uma exibindo a marca de seu fabricante e o slogan “planejada para aventura”. Essa aventura, o protesto das barracas, não se sabe ainda aonde isso vai dar, embora o começo seja muito promissor.

Na terça (26/07), enquanto o Primeiro Ministro Benjamin Netanyahu dava uma coletiva e prometia mundos e fundos, nós perambulávamos pelas barracas de camping em nossa terra. Há barracas no parque da Independência de Jerusalém, ao longo da rua, do Consulado dos EUA, de onde os seguranças já afastaram os novos residentes para longe de seu prédio administrativo fortificado. Estas são as moradias de uns poucos ativistas de vizinhanças menos privilegiadas, que estão se excluindo – ou sendo excluídos – da maioria das barracas mais chamativas do acampamento no Parque do Cavalo.

Há em torno de 10 famílias aqui, a maior parte deles estão no trabalho, neste momento. Amnon Tzur está suando; ele é pai de oito crianças, quatro das quais estão com ele na tenda, enquanto outras quatro estão com a sua mãe em Rishon Letzion. Seu senhorio está atrás dele há 6 meses para cobrar o aluguel. Agora ele tem de entregar as chaves e entregar o apartamento. Agora está limpo, sem se drogar, diz, e busca emprego como motorista de caminhão ou cozinheiro.

O que tirará você daqui?

Tzur: “Quatro guardas, talvez cinco. Não estamos de brincadeira, aqui, não temos para onde ir. Eu soube que Netanyahu só tinha falado de estudantes. Eles são mais sexy. A mídia está deixando nossa história de lado. Eles não nos vêem de verdade, embora nossa história seja mais autêntica”.

No dia anterior a nossa conversa, houve alguns desacordos em torno das “mães solteiras” no grupo, no começo dos quais foi decidido formular um pacto que, em hebraico pobre, é agora exibido num painel de madeira pregado numa árvore: “Com a ajuda de Deus. Alcançar um objetivo. Legítimo ter raiva. Alguns estão adormecidos, outros, não. Todo mundo faz o que pode. Todo mundo é diferente entre si”.

Algumas pessoas sugerem que eles deveriam ir protestar nas proximidades do gabinete do primeiro ministro, mas Tzur diz que não tem onde deixar as crianças, que já sofrem com a exaustão do calor. Do nada, o rabino Arik Ascherman – da Rabinos pelos Direitos Humanos – aparece. Ele diz que terá um encontro importante sobre moradias populares às 18h no Boulevard Rotchschild, em Tel Aviv. Ascherman diz que pegará Tzur no seu carro, que é importante para participar da ação do comitê. Então, tira de uma caixa uma piscina inflável tamanho família, presente da New Israel Fund [organização não lucrativa pelo pluralismo religioso e direitos humanos].

Beno, filho de Tzur, está suando como o pai e hesita em abrir o pacote. Ascherman, um veterano da luta contra a ocupação dos territórios palestinos, diz que assim como Moisés tinha raiva de Gade e Rubem, por só quererem saber de si mesmos – na porção sabática da semana passada -, também devemos ter raiva dos que só estão preocupados com os estudantes.

O boletim do Parque do Cavalo, em que a agenda diária é postada, conta uma história diferente. Plenária na segunda-feira, às 8h; encontro de equipes às 9h; workshop criativo para as crianças às 15h; conversa com alguém do Social College às 8 da noite; e performance ao vivo às 9 da noite. Precisa-se de gente na equipe de cozinha, na de guarda noturna e na de limpeza. Um faxineiro palestino dobra os joelhos em direção a Meca: é a prece do meio-dia. O camping aqui é pequeno e está cheio, empoleirado num pequeno parque público, próximo ao banheiro público e a uma piscina com água parada na qual as crianças das barracas brincam – oficialmente conhecida como as “cachoeiras de Sion”, restauradas pelos Irmãos Hasid, conhecidos como os “construtores de Jerusalém”.

Enquanto um estudante de Jerusalém fala a um repórter de tevê a respeito do problema de moradia – NIS 1, 6000 [Novo Shekel de Israel, na sigla em inglês, equivalente a 4 600 dólares americanos] por uma moradia para 2 pessoas –, Spiegel, o homem sem teto de 52 anos, remexe uma série de documentos sobre a grama murcha e conta a sua história em hebraico russo.

“Eu sou morador de rua há 11 anos. Em tratamento agora, sem álcool, sem nada. Imigrei para Israel de Tashkent. Sou divorciado, sozinho, minha mulher e filhos, na Austrália. Trabalhei como segurança e como cozinheiro. Há uma foto no jornal, de 15 de Junho de 2001: Spiegel com uma M16 em Jenin. Eu não sou um parasita, mas quando a guerra nos territórios terminou, não teve mais trabalho e eu fui beber. Quando eu bebo, eu trabalho um pouco aqui, ali, acolá, depois eu caio. Não trabalho, deprimido, você entende. Estou cheio de beber, beber, eu beber, eu beber, agora eu estou inválido. Aqui está a incapacidade. Eu não sei quantos por cento, mas você entende o que o salário é agora”.

Spiegel me mostra seu comprovante de recebimento do benefício do Instituto Nacional de Seguridade: 1,836 por mês. Ele olha para os seus vizinhos e diz: “Eu já estou perto do cemitério, mas eles são estudantes. São crianças. Isso deveria ser uma vergonha em Israel. Eu sou um parasita, tudo bem. Mas eles são crianças. Qual é a esperança no país para os estudantes? Eles são a esperança do país. Hoje são moradores de rua também. Quando eu tinha 25, como eles, era um militar na Rússia, eu estudar na universidade, arqueologia, sociologia. Isso era no comunismo. Hoje estou velho, esse é o meu problema, mas eles são crianças. Eu sou alcoólatra, inválido, mas eles são o futuro. Eu sei o que é o buraco no muro, mas eles? Onde o país está agora? Meu filhinho tem 25, na Austrália. Ele estuda num College em Sydney, outro filho estuda em Technion, na Austrália. Sem problema. E olhe isso aqui, em nosso país. O primeiro ministro não sabe, mas assim que termina os estudos” – já na vodka...

“Eu não conheço os políticos do Likud. Mas quando os trabalhistas e Ehud Barak, trabalhador era trabalhador. Dinheiro imediatamente. Eu não sou comunista, mas agora que a guerra acabou, a crise terminou, graças a Deus, é comida no mercado – e não trabalho. Três anos atrás eu vivia num quarto de NIS 300, na Rua Ben Yehuda, não tão ruim; hoje um apartamento de um cômodo custa NIS 2.500. Muito pesado. No passado, Spiegel Sionista na Rússia, agora Spiegel parasita em Israel."

Enquanto isso, em Beit Shemesh
Pouco tempo depois, em Beit Shemesh, um membro do conselho municipal, Natan Sheetrit – que também é presidente do comitê auditor da cidade – está dirigindo um grupo de trabalhadores que estão se mobilizando para levarem lâmpadas coloridas num guindaste para pendurarem bem no Passeio Ben Gurion. Nessa tarde, outro protesto com barracas de camping ocupará o lugar. E aqui a causa é muito específica: Sheetrit diz que 4 000 apartamentos estão sendo construídos na sua cidade – todos eles destinados exclusivamente para os ultra-ortodoxos. Um operador de guindaste pergunta se o ângulo das lâmpadas está ok e Sheetrit diz que sim.

Enquanto isso, as barracas do Boulevard Rothschild em Tel Aviv já chegaram a Rua Nahmani. O arco de algumas delas envergou, mas nada mais sugeria uma inflexão de espírito.

“A imaginação toma o poder”, diz MK Nitzan Horowitz (Novo Movimento – Meretz), lembrando a revolta dos estudantes em na França, em 1968. Ele também não faz ideia aonde esses protestos levarão. E também está impressionado com a proporção que tomaram.

Um sudanês empregado por um dirigente de uma companhia varre a calçada do boulevard. Aqui, também, o boletim nas placas conta a história e as diferenças entre as cidades das barracas: coletiva de imprensa às 3 da tarde, festa às 20h e, às 9 da noite, um show de uma banda de rock.

Equipes de tevê de todos os canais, um exército de vans e repórteres ainda estão aqui. Toda noite o cinema revolucionário do Boulevard exibe o filme “Capitalismo: uma história de amor”, numa tela gigante. E um noivo e uma noiva – ele, de terno preto e ela, de véu branco -, que não são os primeiros por aqui, têm de se aproximar para serem fotografados com a paisagem do amanhecer atrás –a paisagem do protesto em Israel.

Tradução: Katarina Peixoto

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