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Uso das Forças Armadas nos protestos: Secretário de Defesa se opõe a Trump

"Eu não apoio o uso da Lei da Insurreição", disse Mark Esper em seus primeiros comentários públicos desde que os protestos eclodiram

04/06/2020 12:17

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Créditos da foto: (Reprodução)

 

O secretário de Defesa Mark Esper declarou na quarta-feira (3/6) sua oposição ao envio de tropas ativas para as cidades dos EUA para lidar com manifestantes violentos, dois dias depois que o presidente Donald Trump ameaçou fazê-lo se os governadores não convocassem tropas da Guarda Nacional.

Autoridades da Casa Branca estão descontentes com os comentários de Esper a repórteres, um assessor da Casa Branca e duas pessoas próximas à Casa Branca disseram à revista Politico.

Esper não contradisse especificamente o presidente, que ameaçou na segunda-feira mobilizar as Forças Armadas ativas, no futuro, se autoridades estaduais e locais não reprimissem os protestos, mas sua mensagem e seu tom vigoroso irritaram alguns na Casa Branca, disseram.

"A opção de usar forças ativas em uma função de aplicação da lei deve ser usada apenas como uma questão de último instância e apenas nas situações mais urgentes e extremas. Não estamos em nenhuma dessas situações agora", disse Esper na quarta-feira, em seus primeiros comentários públicos desde que os protestos eclodiram.

"Não apoio o uso da Lei da Insurreição", disse Esper, referindo-se à autoridade do presidente de enviar tropas de serviço ativo para responder aos protestos.

O ato foi invocado pela última vez em 1992 para conter protestos violentos em Los Angeles após o julgamento de Rodney King.

Embora pessoas próximas à Casa Branca tenham dito que demitir Esper não faz parte da conversa, observou-se que, anteriormente, o secretário de Defesa já havia se desviado do discurso oficial.

Durante suas declarações, Esper também condenou a morte de George Floyd enquanto estava sob custódia da polícia, chamando de "um crime horrível" e dizendo que os policiais em cena devem ser "responsabilizados por seu assassinato".

"É uma tragédia que já vimos repetir muitas vezes", disse ele.

Esper reconheceu que disse aos chefes das Forças Armadas que ele queria enviar a mensagem inicial do departamento sobre a tragédia. Mas várias autoridades pareceram descumprir essa ordem: os principais líderes uniformizados da Força Aérea e da Força Espacial condenaram a morte de Floyd nos últimos dias. O sargento-chefe [posto mais alto] da Força Aérea, Kaleth O. Wright, descreveu sua própria experiência como homem negro e, em uma publicação na mídia social, cobrou mudanças.

Os jornalistas perguntaram a Esper por que ele levou uma semana para abordar os eventos. Ele disse que inicialmente queria permanecer apolítico, mas nos últimos três dias à medida que os eventos se desenrolavam "ficou muito claro que isso está se tornando uma questão nacional muito inflamável".

"Estivemos ocupados com muitas coisas entre aquele momento e agora, mas acho que é importante expressar nossa opinião", disse Esper. "Minha esperança é que, em vez da violência nas ruas, possamos ver manifestações pacíficas em homenagem a George Floyd, que pressionem pela responsabilização por seu assassinato, que nos levem a refletir sobre o racismo nos Estados Unidos e que sirvam como um apelo para que nos juntemos e resolvamos esse problema de uma vez por todas."

Esper foi duramente criticado por aparecer em uma foto, na segunda-feira à noite, ao lado de Trump e outros membros do governo em frente à Igreja Episcopal de São João, do outro lado da rua da Casa Branca, momentos depois que as autoridades expulsaram os manifestantes da área.

Durante seus comentários, Esper forneceu um relato detalhado dos eventos da noite de segunda-feira, dizendo que "não estava ciente" de que haveria uma foto com objetivos políticos, após as observações do presidente no Rose Garden. Ele sabia que ele e outras autoridades se juntariam a Trump na avaliação dos danos em Lafayette Park e na igreja.

Esper pareceu reconhecer que aparecer na fotografia foi um equívoco, dizendo que, em seus esforços para permanecer apolítico, "às vezes sou bem-sucedido e às vezes não sou tão bem-sucedido". No entanto, ele enfatizou que "meu objetivo é manter o departamento fora da política".

Esper também se referiu aos seus controversos comentários aos governadores no fim de semana, que afirmam "dominar" o "espaço de batalha" para que a agitação civil "se dissipe e possamos voltar ao normal". Ele disse que a redação é "parte do nosso léxico militar com o qual eu cresci" e que o "espaço de batalha" nesse contexto se refere à operação, não ao povo americano.

No entanto, ele reconheceu que, em retrospecto, usaria linguagem diferente "para não se tirar a atenção dos assuntos mais importantes em questão ou permitir que alguns sugerissem que estamos militarizando a questão".

Ele também disse que os relatórios de que soldados da Guarda Nacional dispararam balas de borracha e gás lacrimogêneo nas multidões eram imprecisos. Os guardas foram instruídos a usar capacetes e outros equipamentos para se protegerem, "não para servirem de alguma forma de intimidação".

*Publicado orgiinalmente em 'politico.com' | Tradução de César Locatelli

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