Pelo Mundo

Vatileaks: uma máquina do tempo que expôs práticas antigas do Vaticano

12/03/2013 00:00

Eduardo Febbro

Roma – O nome de Gianluigi Nuzzi desperta um desconforto visível nos arredores do Vaticano. Este jornalista investigativo é autor do livro que revelou os assuntos sujos do Vaticano, os “vatileaks”: Sua Santidade, as Cartas Secretas de Bento XVI. Ali estão compiladas todas as cartas, as notas, mensagens e telegramas que fornecem do Vaticano a imagem de um inferno governado por disputas de poder, conspirações, conjurações e, sobretudo, percorrido por uma densa trama onde personagens lutam nas sombras pelo controle do dinheiro, ou seja, do IOR, mais conhecido como o Banco do Vaticano.

Em Roma, Nuzzi tem um apelido: “correio dos monsenhores e cardeais descontentes”. É preciso reconhecer que suas informações são sólidas. Em seu livro precedente, Vaticano SPA, Nuzzi desnudou o lado mais obscuro das finanças vaticanas. Agora foi mais longe. Os Vatileaks que tornou públicos provocaram a crise moral mais profunda que a igreja já conheceu. Seu resultado está na eleição de um novo papa e na renúncia de Bento XVI ao pontificado.

Carta MaiorSe buscarmos uma síntese do que foi revelado pelo caso do vazamento dos documentos privados do papa que você publicou em seu livro “Sua Santità, le carte segrete di Benedetto XVI”, como você a definiria?
Gianluigi Nuzzi – Os vatileaks mostram pela primeira vez a filigrana e a história do Vaticano não já com o enfoque espiritual do trabalho ou da mensagem do pastor que é o papa, mas sim como Estado. O Vaticano é um pequeno Estado e dentro dele há muitos poderes e muito dinheiro, conspirações, denúncias de corrupção. Os vatileaks são como uma máquina do tempo. Estas histórias sempre existiram dentro do Vaticano, mas hoje temos uma fotografia nítida, uma reconstrução documentada. Até agora, a informação que emanava do Vaticano estava sempre muito controlada com um tipo de ideia que encontramos nos Evangelhos. Os Evangelhos observam que “o que se diz ao ouvido se predica em segredo”. Este livro sobre os vatileaks provocou uma ruptura com o passado.

CMQuando se mergulha em seu livro e no conjunto dos vatileaks fica a sensação de que houve e há uma guerra entre a fé, o poder e o dinheiro.
GN – Sim, pode-se dizer isso. Joseph Ratzinger falava da ambição do poder e do carreirismo, do individualismo. Ratzinger foi um grande pastor que assumiu o desafio de reformar a cúria romana e mudá-la.

CMMas, resumindo a questão, a grande ruptura que atravessa todo o escândalo que desembocou na renúncia do papa é o dinheiro e, particularmente, todos os assuntos ligados a OIR, o chamado Banco do Vaticano. O controle dessa instituição deu lugar a uma guerra de alta intensidade entre vários bandos da cúria romana. O Vaticano parece uma espécie de paraíso fiscal oculto.
GN – Esta é uma parte da história. Falta muito para que o IOR, o Banco do Vaticano, responda aos critérios de transparência da União Europeia. Mas, efetivamente, houve um confronto muito forte em torno do controle e dos mecanismos de transparência desse banco. Seus atores foram Gotti Tedeschi, o ex-presidente do Vaticano partidário da transparência, e o Secretário de Estado, Monsenhor Bertone, partidário da opacidade. Tedeschi assumiu como sua a missão que o papa encomendou par limpar as contas do banco, mas foi impedido de levá-la adiante.

CMMonsenhor Bertone emerge como o grande vilão dessa história. O Secretário de Estado é, segundo suas revelações, um operador que desfaz o que o papa faz. Que setor ele representa?
GN – Bertone é um salesiano e é o primeiro Secretário de Estado que não vem da escola diplomática do Vaticano. Bertone reuniu contra si uma enorme quantidade de críticas e controvérsias. De fato, ele defendeu seus próprios interesses e nada mais. É um homem que colocou seus aliados em todos os postos chave da economia do Vaticano. Muitos o acusam de ser o centro das conspirações e das operações de lavagem de dinheiro.

CMVocê revela questões delicadas como, por exemplo, a existência no Banco do vaticano de contas sem nome e outras sutilezas desse tipo.
GN – Bom, isso não é novo. Na década de 70 e de 80 houve fortes somas de dinheiro da Cosa Mostra que foram, digamos, branqueadas pelo IOR. Basta lembrar o assassinato de Roberto Calvi, em 1982. Calvi era o presidente do Banco Ambrosiano e sabia como circulava o dinheiro mafioso através do Banco do Vaticano.
Nos anos 90, o IOR criou uma espécie de rede de contas em nome de fundações flasas por trás das quais havia empresários, empreiteiros e mafiosos. A máfia se servia do Banco do Vaticano para gerir parte do dinheiro de seus assuntos políticos e industriais. O IOR esteve também implicado na história da maior comissão oculta da história da Itália, o caso do grupo Enimonte. Na verdade, funcionou uma espécie de Banco do Vaticano paralelo que serviu para limpar o dinheiro da corrupção. O problema de hoje está nestas contas que pertencem aos religiosos que emprestam seu nome para que sirvam para outras coisas.

CMNa sua avaliação, foi a guerra financeira que precipitou a renúncia do papa?
GN – Este foi um dos elementos fundamentais ao qual se somaram outros que precipitaram essa situação. O cansaço, os problemas internos, a situação da igreja no mundo, a não implementação de uma série de decisões. Os elementos são vários e, combinados, conduziram à situação que vivemos hoje. O dinheiro não explica tudo.

Tradução: Marco Aurélio Weissheimer



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