Pelo Mundo

Venezuela: a hora da decisão chegou

16/01/2013 00:00

Eric Nepomuceno

De onde quer que se olhe, parece cada vez mais claro: dificilmente, muito dificilmente, Hugo Chávez tornará a assumir a presidência da Venezuela. Ainda que se recupere, é sabido que não terá condições de assumir a exaustiva tarefa de conduzir o dia a dia do processo instaurado por ele há mais de uma década.

Esse é o nó da questão: a enorme dificuldade, por todas as razões evidentes e também as não visíveis, de assumir publicamente esse vazio.

Formalmente, e é possível que também juridicamente, a solução encontrada – considerar oficialmente Chávez em licença de saúde, substituído interinamente pelo vice por ele nomeado, Nicolás Maduro – pode ser discutível. Politicamente, foi a saída natural, e aliás bem arquitetada. Resta saber por quanto tempo irá funcionar. Há limitações de ordem constitucional – Maduro, como presidente interino, não pode, por exemplo, nomear ministros ou mexer no orçamento nacional, nem firmar decretos – e prevalece, é claro, a concreta convicção de que, mais cedo ou mais tarde, será necessário convocar novas eleições.

O mistério é o que estará acontecendo até lá. Dá-se por certo, e não há razão para colocar essa certeza em dúvida, que, a menos que aconteça algo excepcional, nessas inevitáveis eleições presidenciais o candidato oficialista será eleito. Além de toda a comoção popular provocada pelo que acontece com Hugo Chávez, a oposição, que deveria estar unida, está dividida. A menos que, do lado oficialista, aconteça alguma ruptura interna grave e imprevista, o candidato será o próprio Nicolás Maduro.

Então, o que a Venezuela vive, flutuando em marés de incertezas e inquietações, é o processo de sucessão de Chávez de acordo, ao menos até agora, com a linha estabelecida por ele: levar adiante um processo contraditório, oscilante, com falhas graves mas, acima de tudo, que foi capaz de mudar, e para melhor, a face e a realidade de um país. Que deu cidadania a milhões de pessoas antes condenadas a serem nada.

Para isso, Chávez nomeou como seu sucessor um dirigente sindical, civil, de extração popular, que numa primeira etapa será o encarregado de levar adiante a difícil tarefa de conduzir uma revolução que até dezembro passado estava diretamente vinculada à figura de seu líder indiscutido.
Uma jogada arriscada, talvez. Mas de todos os movimentos de Hugo Chávez, algum não foi arriscado?

O laconismo, para usar uma expressão delicada, sobre o verdadeiro estado de saúde de Chávez é indicio palpável de que as coisas não andam exatamente bem. De longe, é meio complicado acreditar na carta escrita por ele pedindo que a cerimônia de posse de seu novo período presidencial fosse adiado, ou no decreto nomeando Elias Jaua, seu ex vice-presidente, para o posto de ministro de Relações Exteriores do governo interino de Nicolás Maduro, que até agora acumulava a vice presidência com o cargo de chanceler. Por quê ninguém viu esses decretos assinados?

É um balé diminuto, delicado, arriscado: Jaua foi vice-presidente, antecedendo Maduro. Era, com Diosdado Cabello, um postulante incisivo a sucessor natural de Chávez. Esse era o cenário: um militar que agora preside o Congresso, e um civil que foi vice-presidente, disputando o posto de delfim de uma revolução complexa. Cada um representando um setor da imensa variedade de tendências aglutinadas ao redor do líder indiscutível.

Cabello, o militar desenvolvimentista; Jaua, chamado pelos opositores mais furibundos de ‘talibã do chavismo’. Pois nessa disputa entre os dois, ganhou um terceiro, aliás também civil.

A grande dúvida agora, enfim, não é uma, são várias. Sem ter, nem de longe, o carisma de Chávez (aliás, ninguém tem), como Nicolás Maduro conseguirá manter mobilizada a população? Sem ter incidência direta sobre as Forças Armadas, que em última instância são o centro verdadeiro do poder real, como manter coesas as tendências diferentes?

Maduro conta, é verdade, com pleno apoio de Raúl Castro, e com o apoio também pleno, embora essencialmente simbólico, de Fidel.

Chávez, ao saber da gravidade de sua situação, conversou detalhadamente com os cubanos. Porque a estratégia para a Venezuela tem e terá, inevitavelmente, reflexos em toda a América Latina, para o bem e para o mal dos governos da região.

Tanto é assim, que vários mandatários estão mobilizados. Alguns, como o uruguaio José Mujica, o boliviano Evo Morales e o nicaraguense Daniel Ortega participaram da manifestação popular que mobilizou centenas de milhares de pessoas em Caracas, no dia em que Chávez deveria ter assumido seu novo mandato. Outros, como a argentina Cristina Kirchner e o peruano Ollanta Humala, foram a Havana, na vã tentativa – o que só confirma a impressão de que seu estado de saúde é efetivamente muito delicado – de uma visita formal, ainda que fugaz. A brasileira Dilma Rousseff enviou seu assessor especial para assuntos internacionais, Marco Aurélio Garcia, de trânsito plenamente livre entre os governos do continente, a Cuba, para se informar.

Nicolas Maduro não está sozinho, no que diz respeito aos vizinhos e até mesmo aos Estados Unidos. Há um diálogo constante, direto ou através de emissários, entre Caracas e o resto do continente.

Mas a verdade é que a hora da decisão chegou. Chávez continua num hospital cubano. Conta-se que, lá no hospital, ele manteve reuniões com ministros, baixou decretos, tomou decisões.

Pode ser que sim, pode ser que não. O que importa, porém, é outra coisa: como estão se entendendo, agora que a hora chegou, seus herdeiros? Como se dará a condução do chavismo sem Chávez? Quem poderá assegurar a continuidade da revolução bolivariana implantada por ele? Quem irá garantir as conquistas?

Isso é o que permanece na neblina. E a figura do comandante, ainda muito poderosa, parece um beija-flor escondido entre brumas.

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