Pelo Mundo

Vitória popular e duelo autoritário

 

27/10/2020 12:16

Seguidores do MAS comemoram a vitória de Luis Arce na cidade de El Alto, em 19 de outubro (Ronaldo Schemidt/AFP)

Créditos da foto: Seguidores do MAS comemoram a vitória de Luis Arce na cidade de El Alto, em 19 de outubro (Ronaldo Schemidt/AFP)

 
Muitas teorias foram feitas sobre o fascismo. O autoritarismo sustentado em apoio a setores de classe, que lhe permite expandir-se e se justificar como sistema, cria um inimigo, o persegue, busca fazê-lo desaparecer e isso o torna uma condição política de “bem-estar cidadão”. O filósofo alemão Erich Fromm disse ainda que não há fascismo possível se não for compreendido a partir dos setores que o sustentam, e que, de alguma forma, a psicologia social entendia isso como o psiquismo coletivo das carências e frustrações pessoais, familiares e sociais que buscam compensações autoritárias contra à falta de certeza no futuro. Desse modo, é possível compreender como os conscientes setores dominantes bolivianos encontraram na violência e na repressão e, em última instância, nas Forças Armadas, uma referência política necessária, não só para garantir a condição de poder político, mas também suas próprias inseguranças como classe perante o mundo. Indígenas camponeses, que eles desconheciam e ao mesmo tempo temiam, optando sempre pela submissão dos mesmos, e não pela sua inclusão.

É por isso que a constante autoritária tem estado mais presente do que a democracia na história boliviana, uma vez que essas oligarquias historicamente preferiram a imposição e a conformação da figura de um Estado repressor, do que a ideia de um Estado inclusivo e integrador, que deveria tecer consensos entre a diversidade, acordos que permitam afirmar a identidade plurinacional, o que só pode ser possível na construção de uma democracia intercultural. Por isso, podemos entender que a construção democrática na Bolívia teve tantos reveses, pois pelos poros dos setores dominantes transpareceu o racismo, a exclusão e a tentação permanente do autoritarismo. Desta forma, a institucionalidade sempre teve aquelas conotações hierárquicas, autoritárias e excludentes, que de forma alguma eram liberais democráticos.

Os partidos se vestiam com essas características tendo os patrões como seus donos e, mesmo sem proclamar, tornaram a branquitude uma condição de poder dentro das organizações políticas, mesmo de uma certa esquerda que falava em nome dos pobres. Assim, em essência, devido à formação social boliviana, os matizes autoritários estiveram permanentemente em vigor entre os setores dominantes e as classes médias, que viviam e sustentavam essa estrutura de exclusão social por meio de sua mediação.

Esta estrutura social autoritária que apelou permanentemente às características fascistas como sistema político e na vida cotidiana, é a que inicialmente colidiu com as eleições de 2005, que mostraram ao país que eles não queriam ver. Que os forçados ou excluídos da cidadania política passassem a se olhar como referência, e não aos patrões que se consideravam colonizadores bons e paternalistas ou autoritários e repressores.

Assim é que assumiram que deviam retomar o sentido de dominação e tramar, confrontar, denegrir para tentar fazer com que a representação do poder voltasse para eles, e o fizeram a partir do que são, do racismo, do insulto, da cooptação do mais débeis e da sombra da colonização que, embora não fosse escancarada, estava presente nos dominados que eram forçados a colocar sua dignidade à disposição, e acabavam tendo no próprio patrão a sua referência de poder. Isso explica, em grande parte, o que fomos capazes de construir na perspectiva dos excluídos, como inclusão e recuperação da dignidade para construir uma democracia intercultural; mas também explica porque os patrões nunca abandonaram seu plano de conspirar e “remover o índio do palácio”. Também nos faz pensar porque, conhecendo nossa história, o governo das maiorias quis acreditar na “conversão sincera e democrática” dos patrões e de suas instituições tutelares (Forças Armadas e Polícia).

Esse estado colonial que nunca morreu é aquele que agiu por dentro e com cumplicidade internacional, para generalizar o discurso da fraude, que finalmente deu lugar ao golpe. Colonialismo dos grupos de poder de sempre, junto com as classes médias que se sentem oprimidas e invadidas pela irrupção popular na esfera pública; da maioria das organizações sociais que assumiram o novo status de poder no governo, não como protagonistas da mudança, mas como beneficiárias. Em suma, o colonialismo vence quando a representação popular não luta para revolucionar a sociedade autoritária, mas para se acomodar nela, no papel de nova autoridade, reproduzindo mais uma vez a visão do empregador perante a comunidade. O Estado e suas hierarquias têm funcionado como peneira para naturalizar uma forma de ser poder, inclusive a questão de, paralelamente, buscar o seu próprio branqueamento, pois ao invés da luta pela diversidade intercultural, foram novamente internalizadas as diferenças, complexos e exclusões.

Com toda essa bagagem, porém, a raiz comunitária e a identidade marcadas nesses anos é que se tornou resistência ao golpe, e mostrou que o povo boliviano não recua e não para de crescer. Esta é a primeira prova de vitória, que fez um tecido entre as esperanças e as lutas, mas também entre medos acumulados e medos daqueles que, atolados em seus preconceitos, acreditaram que o retorno ao passado lhes daria o poder que perderam, e viram que só tinham com o desfecho do golpe; roubo, mais fome e abandono total das necessidades e direitos fundamentais.

E ainda, a esquizofrenia em que vivem os setores oligárquicos deste país, e aqueles que apenas fingem ser como eles, também foi colocada em evidência histórica. Querem ser o que não são, e que a realidade se adapte aos seus desejos – só assim se entendem as afirmações do Comitê Cívico Pró Santa Cruz, região sudeste do país – com dogmas como “não é possível que o MAS tenha 55% de apoio, quando mais de 70 % da população o rejeita”. Então, são criados relatos como o da “fraude científica”, que eles dizem ter acontecido, e que “nem mesmo os técnicos e observadores internacionais puderam ver”, mas viram, e então todos foram cúmplices da conspiração, mesmo Trump ou Bolsonaro que reconheceram a derrota de seus aliados locais. Há uma espécie de luto coletivo de classe por esses setores, cujo primeiro sintoma é justamente a negação da realidade e a crença de que seu sentimento é universal. Outros vivem outras fases do luto, como a tristeza e o medo diante de suas inseguranças, enquanto outros passam por uma aceitação resignada para repensar a realidade em que se não mudarem para entender o que é este país, voltarão ao racismo como discurso e o golpe como estratégia de poder.

Enquanto o povo festeja, mas com cautela, diante do vivido nestes meses, pois sabe que o golpe está à espreita, que o racismo excludente continua a ser a justificativa política dos grupos de poder, que têm demonstrado isso além do discurso cotidiano em todas as mídias que possuem. Eles estão prontos para matar e caçar os rebeldes. Por isso, as pessoas, que não são vingativas, que são capazes de incluir os excludentes, poderão mais uma vez recomeçar a tarefa de construir um Estado Plurinacional para todos, e de expressar às maiorias quem somos e onde as minorias também são convidadas a participar, desde que respeitem a diversidade que somos e queiram tecer a vida com todos. A vida segue e a luta continue!!

*Tradução de Victor Farinelli



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