Pelo Mundo

Vivo ou morto?

Quantas vezes é preciso matar um homem antes que ele morra? Não é a primeira vez que o mulá Mohamed Omar é declarado morto.

30/07/2015 00:00

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Quantas vezes é preciso matar um homem antes que ele morra? Não é a primeira vez que o mulá Mohamed Omar, emir dos muçulmanos mais crentes, amigo e protetor de Osama Bin Laden, criador do Talibã, destruidor de imagens e estátuas de pedra, é declarado morto.
 
Aliás, foi morto três vezes antes, a mais espetacular foi por obra da notoriamente cruel – e notoriamente torpe – agência de Interserviços de Inteligência (ISI) do Paquistão, em 2011. Na ocasião, a informação tardou, mas logo se demonstrou que era falsa. O próprio Bin Laden pereceu ao menos três vezes, antes de os estadunidenses o assassinarem, em 2011. Até George W Bush o declarou morto, em 2002. Depois, foi noticiado que ele agonizava, por um caso de câncer, e logo de insuficiência renal. Também aconteceu com o aiatolá Khomeini, quando a publicação Top People’s Paper o matou, por um caso de câncer, muito antes de que ele verdadeiramente falecera.
 
Se todas as histórias fossem certas, essas figuras teriam superado várias vezes a ressurreição mais importante de todos os tempos. É o sonho do oficial de inteligência e o pesadelo do jornalista.
 
Há tempos, quando surgiram as primeiras versões de que Bin Laden havia morrido no Afeganistão, um rufião paquistanês que o conhecia bastante bem me disse que sabia porque essas notícias insistem em aparecer, apesar da imprecisão. A CIA, o MI6 britânico, o FSB russo e o ISI paquistanês, disse ele, usam esse subterfúgio: anunciar as mortes dos inimigos para provocar que eles apareçam para desmentir e revelem sua localização.
 
“E, de repente, `pimba, é verdade´”, agregou ele. Na busca de fontes, os pobres jornalistas têm que escrever obituários cruelmente confusos, para o caso de que o velho figurão, na verdade, tenha apenas mudado para outro bairro.
 
Seguindo essa tradição tão conhecida, e também grotesca, aqui vai um dado: o mulá Omar, talvez genro de Osama Bin Laden, claramente caolho, se declarou emir dos crentes – incluso vestido com a túnica do profeta (se é que era assim a túnica do profeta) – em Kandahar, em 1996, e logo depois conduziu os seus puristas do Talibã à vitória contra os mujahidins que haviam expulsado os russos do território que, em pouco tempo, se transformou no emirado islâmico do Afeganistão. Foi chefe do Estado durante cinco anos, até dar asilo político a Bin Laden, depois do 11 de setembro de 2001, e terminou como fugitivo, com uma recompensa de 10 milhões de dólares por sua cabeça.
 
Aprovou a eliminação de homicidas, adúlteros e estátuas de Buda, era temido e respeitado por jovens, que não vacilavam em pendurar televisores em árvores, para mostrar seu desprezo pelas imagens esculpidas, e também pelos jornalistas.
 
Sua morte mais recente, segundo as fontes usuais, pode ter ocorrido há dois ou três anos – antes de o ISI começar a explorar o seu terreno –, e portanto, se algum dia descobrimos que ele ainda vive, deve ser, sem dúvidas, o emir dos não mortos. Talvez, os estadunidenses deveriam corrigir sua recompensa de 10 milhões por um “vivo OU morto”, por um ligeiramente mais inspirador “vivo E morto”.
 
* Jornalista e escritor britânico que vive em Beirute, premiado várias vezes com reportagens sobre o Oriente Médio. É um dos raros repórteres ocidentais que fala fluentemente o idioma árabe.
 
Tradução: Victor Farinelli





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