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Xi declara ''irreversível'' a ascensão da China em uma demonstração de força pelo centenário do Partido Comunista

''O tempo em que o povo chinês podia ser pisoteado, em que sofria e era oprimido terminou para sempre'', anunciou o presidente da China em ato celebrado na Praça da Paz Celestial

04/07/2021 14:05

Alunos na Praça da Paz Celestial, em Pequim, participam da cerimônia que marca o centenário do Partido Comunista da China (Kevin Frayer/Getty Images)

Créditos da foto: Alunos na Praça da Paz Celestial, em Pequim, participam da cerimônia que marca o centenário do Partido Comunista da China (Kevin Frayer/Getty Images)

 
A ascensão da China é “irreversível”. E isto é graças à direção de seu Partido Comunista, o único que demonstrou ser capaz de transformar essa nação antes paupérrima na segunda economia do mundo, e que nas próximas décadas continuará tornando possível seu progresso para transformá-la em uma grande potência. Esta foi a mensagem enviada pelo presidente chinês, Xi Jinping, na quinta-feira (01) na cerimônia oficial do centenário de fundação do PCCh na Praça da Paz Celestial, o centro físico e espiritual do sistema de governo chinês.

A cerimônia na praça repleta de bandeiras vermelhas, flores e motivos alusivos ao centenário, e contando com um público de 70 mil pessoas – funcionários, estudantes, empregados de empresas estatais, militantes selecionados – buscou reafirmar os temas centrais de uma semana inteira de festejos e de um ano de campanha educativa entre seus 91 milhões de filiados: o papel indispensável do partido nos gigantescos avanços que conquistou a China desde que um punhado de intelectuais promoveu seu primeiro congresso em Xangai, e a ênfase de que o PCCh serve somente ao povo.

O cenário estava repleto de simbolismo e história. A entrada da praça, de onde Xi se dirigiu ao público e à nação, foi de onde, em 1º de outubro de 1949, Mao Tsé-Tung proclamou a criação da República Popular da China e anunciou ao mundo que “o povo chinês se levantou”. O chefe de Estado e secretário-geral do partido, o homem que mais acumulou poder na China desde os tempos do Grande Timoneiro, compareceu – como o fez no 70º aniversário da fundação da República Popular há dois anos – com um simples terno cinza no estilo Mao. Em contraste, seus acompanhantes, o topo da hierarquia comunista chinesa passada e presente – vestiam ternos de estilo ocidental. Um recurso que sublinhava a conexão direta entre o fundador da China contemporânea e o líder atual, que no próximo ano o 20º Congresso do partido pretende renovar em pelo menos mais cinco anos um mandato que então já terá alcançado uma década.

Sob o mesmo portão da praça, diante de um púlpito com a foice e o martelo, e com uma grande fotografia de Mao a seus pés, o presidente chinês pronunciou a frase que recebeu uma das maiores ovações do evento: “O tempo em que o povo chinês podia ser pisoteado, em que sofria e era oprimido terminou para sempre”.

O discurso, de mais de uma hora, teve um forte tom nacionalista. O centenário coincide com o aumento de tensões com os Estados Unidos, já convertidos em um rival sistêmico, e a crescente desconfiança mútua entre os países ocidentais e a China, uma tendência que vem de longe, mas aumentou com a pandemia do coronavírus. .“O povo chinês nunca permitirá que qualquer força estrangeira nos intimide, oprima ou nos subjugue. Quem quer que seja que o tente encontrará um banho de sangue frente à Grande Muralha de Aço forjada por 1.4 bilhão de chineses!” garantiu Xi.

O chefe de Estado também advertiu contra qualquer ameaça à soberania do país nas consideradas zonas sensíveis de seu território: Hong Kong, Xinjiang e Taiwan. Ele reafirmou a determinação de Pequim em conseguir no futuro a unificação com Taiwan e rechaçou “resolutamente” qualquer plano de independência da ilha. E sublinhou a necessidade de “acelerar” a modernização das Forças Armadas nacionais.

Mas a maior parte do discurso se concentrou na legitimidade do PCCh, “a espinha dorsal do país”. “Devemos manter a liderança do partido,” insistiu, “o sucesso da China depende do partido”.

A cerimônia foi o auge e o ponto final das celebrações do centenário. Ela teve início às 8 horas em ponto, hora escolhida a fim de se evitar a possível chuva prevista pela metereologia. O público convidado, com a exigência de estar vacinado, começou a chegar três horas antes. As fortes medidas de segurança e a proteção contra o coronavírus obrigaram os jornalistas a passarem por uma quarentena em um hotel e a se submeterem a testes antes de serem levados para a praça às 3 horas da madrugada.

Oitenta aviões militares de seis tipos, entre eles o caça mais moderno da aviação chinesa - o J-20—, abriram o evento com vôos em formação desenhando o número 100, pelo centenário, e 1-7, pela data de quinta-feira. Uma salva de 100 tiros de canhão, o içamento da bandeira e uma apresentação histórica feita por crianças da Liga de Jovens Comunistas e Jovens Pioneiros precederam as palavras do presidente chinês. Seguiram-se os acordes da Internacional Comunista e o lançamento de centenas de pombas brancas e balões coloridos.

Mas o 1º de julho marcava não apenas o centenário do partido. Também, o 24º aniversário do retorno de Hong Kong à soberania chinesa, uma data que em anos anteriores dezenas de milhares de pessoas saíam às ruas da ilha para protestar contra as autoridades locais e Pequim. Como no ano passado, a luta contra o coronavírus foi o argumento usado pela polícia de Hong Kong para proibir a manifestação.

Na quinta-feira também se completava um ano da entrada em vigor na cidade da lei de segurança nacional, que segundo críticos tem tido um efeito devastador no regime de liberdades. A polícia autônoma mobilizou cerca de 7 mil soldados no território para evitar possíveis protestos. Também foi fechado o Parque Vitória, o maior do centro da cidade e onde tradicionalmente começava a marcha de protesto.

*Publicado originalmente em 'El País' | Tradução de Carlos Alberto Pavam



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