Pelo Mundo

É uma desgraça celebrar George H.W. Bush no Dia Mundial de Luta Contra a AIDS

A 'civilidade' do 41º presidente escondia a natureza vasta da violência de estado dos EUA

04/12/2018 10:07

President George H.W. Bush died on November 30 at the age of 94. (A.J. Guel)

Créditos da foto: President George H.W. Bush died on November 30 at the age of 94. (A.J. Guel)

 

Logo após a meia noite em 1 de dezembro, no Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, soube que o presidente George Herbert Walker Bush havia morrido. E fiquei desanimado não somente porque a hagiografia concedida à presidentes mortos iria ofuscar o legado de Bush em relação à AIDS, mas também porque sua morte iria eclipsar as dezenas de milhões de vidas que deveríamos estar lembrando hoje.

Quando leciono a história da AIDS, sempre mostro um clipe do ACT UP de 11 de outubro de 1992, “ação das cinzas” na Casa Branca, no qual ativistas corajosos pegaram os corpos cremados de seus entes queridos que morreram de AIDS e os lançaram no gramado de Bush. (Se você nunca viu isso, te desafio a ver sem chorar)

A ação das cinzas é brilhante não somente por ser tão bruta mas também por ter responsabilizado um homem sem civilidade tão poderoso. ( O ACT UP também foi até a casa de férias de Bush em Maine, e eles o perseguiram até a noite em que perdeu sua reeleição, quando marcharam com o corpo morto de Mark Fisher até a sede de sua campanha.) Porque na vida – e, infelizmente, nas mortes – Bush perigosamente escondeu a natureza vasta da violência norte-americana debaixo da capa sedutora da civilidade, a mídia de massa que leva jornalistas e leitores a deixarem a violência passar desapercebida.

Mas em um debate presidencial com Bill Clinton e Ross Perot no dia depois da ação das cinzas, o jornalista John Mashek perguntou a Bush:

Senhor presidente, ontem dezenas de milhares de pessoas marcharam em frente à Casa Branca para manifestar sua preocupação sobre a doença AIDS. Um membro celebrado de sua comissão, Magic Johnson, se demitiu, dizendo que havia pouca ação. De onde vem esse sentimento disseminado de que sua administração não está fazendo o suficiente sobre a AIDS?

Parecendo estar incomodado, Bush listou o que sua administração estava fazendo antes de dizer, irritado, “não posso dizer de onde está vindo. Estou muito preocupado com a AIDS. E eu acredito que temos os melhores pesquisadores no mundo trabalhando nisso”. Mas então ele adicionou:

É uma das poucas doenças que o comportamento influencia. E uma vez eu já disse a alguém, “bom, mude seu comportamento! Se o seu comportamento te torna propenso a contrair AIDS, mude o comportamento!” Logo depois, um desses grupos ACT UP está dizendo, “Bush precisa mudar seu comportamento!” Não se pode falar sobre isso racionalmente!

As palavras de Bush não são somente cruéis; elas fundamentalmente mal interpretam o que causa a AIDS e como deve-se referir à ela efetivamente. Sexo – sim, até o sexo gay – é parte de ser humano, e as pessoas que morreram de AIDS morreram por causa da negligência da sociedade, não por causa de atos humanos. E por mais que tenha sido melhor que seu antecessor (um nível bem baixo de se alcançar) no tocante de como se referir às conseqüências da AIDS, ele foi imperdoavelmente silencioso como vice-presidente de Reagan.

Mas como diretor da CIA, vice-presidente e então presidente, Bush exacerbou as condições materiais que permitem que a AIDS continue a florescer em primeiro lugar. O que causa a AIDS? E porquê sempre afetou as pessoas negras em especial? Pesquisas médicas e intervenções farmacêuticas são importantes para lidar com as conseqüências da seroconversão e para limitar a transmissão do HIV. Mas a AIDS é causada por problemas sociais maiores: privação de habitação, acesso inadequado à assistência médica, instabilidade política, racismo, homofobia, e a violência do capitalismo. E nesses frontes, Bush é culpado; seu “comportamento importa”.

Como ex-chefe da CIA, Bush criou a instabilidade política em nações ao redor do mundo onde a AIDS triunfaria. Ele alimentou o racismo com sua propaganda Willie Horton, substituindo o titã dos direitos humanos, Thurgood Marshall, na Suprema Corte por Clarence Thomas, e ao vetar o Ato dos Direitos Civis em 1990.

E, é claro, ao começar a Guerra do Iraque de 1991, ele levou nosso país à um desastre de quase três décadas que deixou milhões doentes, deficientes e mortos – muitos soldados LGBTQ e civis.

Infelizmente, jornalistas homossexuais estavam entre os piores a imediatamente encobrir essa parte do legado de Bush. Frank Bruni publicou uma coluna no NYT no Dia Mundial de Luta Contra a AIDS (“A graça incomum de George H.W. Bush”) sem mencionar as palavras “gay”, “homossexual”, AIDS, ou HIV. Enquanto isso, na revista gay, a Advocate, Neal Broverman encabeçou seu revisionismo insípido com “George H.W. Bush, nenhum aliado mas nenhum inimigo do povo LGBTQ, morto aos 94”.

O desejo norte-americano por civilidade é tão forte que muitos liberais que estavam bravos que Trump havia nominado e se posicionado com Brett Kavanaugh ficaram em silêncio com o fato de Bush nominar e se posicionar com Clarence Thomas. Mesmo na era #MeToo, muitos pareciam estar omitindo que Bush foi recentemente acusado de assediar mulheres.

No Dia Mundial de Luta Contra a AIDS, seria uma ofensa imperdoável àqueles que morreram de AIDS por causa das ações e inações de Bush o deixarem escapar. Ao invés, veja o que levou amantes e amigos enlutados a lançarem cinzas no gramado de Bush – e realmente sente-se com a violência do império norte-americano incorporado por George Herbert Walker Bush.

*Publicado originalmente no The Nation | Tradução de Isabela Palhares

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