Poder e Contrapoder

«Ménage à trois»

Estados Unidos, China e Rússia, em uma disputa pela supremacia mundial

07/07/2019 16:42

 

 
A rivalidade entre as grandes potências se aprecia melhor si examinada desde a base do poder e em relação a como se avaliam as ações políticas (ou morais) no plano internacional. O que se considera bom, ético ou moralmente aceitável, ou que pode ser assim para uns, mas não necessariamente é para outros e nisso incidem fatores diversos, incluindo o cultural, na forma de conceber as sociedades, assim como a ordem internacional. A prática e o exercício do poder das potências nos demonstram que o interesse nacional continua sendo o princípio sobre os Estados Unidos de movem. As ações consideradas “morais” podem fortalecer ou debilitar a presença de um país no cenário mundial, como vemos no caso da Venezuela, onde diversos países envolvidos estão motivados por supostos princípios morais para alguns ou de direito internacional para outros, e buscam atacar ou defender o que ali sucede.

Ao revisar a história, podemos examinar diversos períodos e ver as mudanças de paradigma nos conceitos aceitáveis no plano ético ou moral. Um exemplo pode ser a escravidão. Por milhares de anos, foi considerado aceito e normal ter escravos e/ou escravizar os derrotados depois de uma guerra. Até há pouco tempo, para as potências europeias, caçar, comercializar e exportar seres humanos da África, porque eram negros, era absolutamente legítimo, regulado por leis e preço de mercado, e inclusive permitiu o nascimento de fortunas que perduram até hoje, em países como o Reino Unido.

O antissemitismo foi política de Estado em quase toda a Europa, e comunidades de judeus foram, muitas vezes, obrigados a viver em guetos, com proibição de exercer determinados trabalhos, e muitas vezes eram assassinados ou expulsos de países cristãos civilizados, até chegar ao extermínio que foi provocado pela Alemanha nazista. O fato de que os palestinos sejam despojados de seus territórios, ou vivam em acampamentos de refugiados em outros países, ou que Israel continue estendendo seus assentamentos em clara contravenção à legalidade internacional, é assumido como parte da realidade e considerado quase normal.

Ninguém castiga Israel com boicote econômico, financeiro ou comercial. O mesmo aconteceu quando os judeus não tinham um país próprio e poucos reclamavam por isso, tal como ocorre hoje com os curdos. A segregação racial na África do Sul se manteve vigente por séculos, e se formalizou legalmente em 1948, até a sua abolição em 1992. O apartheid incluía a proibição de relações sexuais entre raças. Somente uns poucos países romperam relações diplomáticas com Pretória, e até mesmo Israel estabeleceu uma estreita amizade com o regime racista, a partir da guerra de Yom Kippur, em 1973.

Em Guantánamo, mais de 40 presos – alguns sem ter sido julgados nem acusados de nada – esperam há 15 anos por sua condição de culpados ou inocentes. A Rússia, por sua vez, anexou formalmente a Crimeia em 2014, sem perguntar nada a ninguém, assim como os Estados Unidos invadiram o Iraque em 2003 a partir de provas falsas e sem consultar o Conselho de Segurança. Fez o mesmo na Síria, bombardeando Damasco em 2018. Nunca se soube quantos estudantes chineses foram mortos na Praça da Paz Celestial, em 1989, nem o que passou com o estudante que enfrentou os tanques.

A OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) bombardeou a população civil em Belgrado, em 1999, deixando ao redor de 5 mil mortos, incluindo 88 crianças e três diplomatas chineses. Ninguém a sancionou. Quando se trata de falar de direitos humanos e de democracia, muitos países imediatamente atacam Cuba, mas se calam e protegem a Arábia Saudita, onde não se respeita nem uma coisa nem outra. As potências aceitaram o sequestro e assassinato de um jornalista saudita que entrou em seu consulado em Istambul, foi torturado, decapitado e desaparecido. Ninguém critica o regime egípcio, liderado por um general que derrubou, em 2013, um mandatário eleito democraticamente. Este tipo de ação que, para a opinião pública pode ser moralmente reprovável, é julgada pelos governos dependendo do cristal com o qual se veja, ou seja, são julgadas com base ao interesse nacional.

A hostilidade dos Estados Unidos em sua relação com a Rússia, ou a guerra comercial com a China, que recém se inicia e que ninguém sabe onde terminará, responde essencialmente a uma disputa de poder. Debilitar a Rússia se transformou em uma obsessão para Washington, descuidando o crescimento e expansão global da China, que cada vez está mais perto de disputar a supremacia. Em 1972, o mundo se surpreendeu quando o presidente Richard Nixon apertou a mão do presidente Mao Tsé-Tung em Pequim. Era o interesse nacional que atuava para os dois lados: para os estadunidenses, o interesse era o de debilitar a União Soviética, e para os chineses, o de buscar um aliado poderoso, no caso de conflito com Moscou. Hoje, as coisas mudaram, e nos últimos seis anos, o presidente Vladimir Putin se reuniu 30 vezes com o presidente chinês Xi Jinping, mostrando que ambos concordam em todos os temas globais. É a resposta às medidas coercitivas dos Estados Unidos e da União Europeia contra a Rússia, iniciadas em 2014, e contra a própria China, desde o ano passado, e que terminam gerando um efeito contrário. Além disso, todo esse cenário estimula o patriotismo nesses países familiarizados com as carências materiais que viveram por séculos.

As cidades chinesas hoje são irreconhecíveis para a geração anterior. O mesmo ocorre em Moscou, onde se ressalta a limpeza das ruas, o crescimento do parque automotriz, a renovação das fachadas dos edifícios e os monumentais museus que recordam a derrota do nazismo. A capital russa é hoje a cara oposta a uma das cidades mais belas do mundo, Roma, que está inundada de lixo. Enquanto existiu um mundo bipolar, e durante os anos da Guerra Fria, era compreensível o temor sobre a União Soviética. Se pensou que a situação seria amenizada com o tempo, a partir da desaparição daquela potência, em 1991, e também a unificação da Alemanha, a democratização dos países da Europa oriental, e especialmente com a dissolução da aliança militar conhecida como Pacto de Varsóvia. Nada disso ocorreu. Pelo contrário, a OTAN, dirigida pelos Estados Unidos, continua ampliando suas forças e construindo bases militares para cercar a Rússia. A OTAN tinha 16 países membros no momento da queda do Muro de Berlim, e hoje são 29 membros plenos.

Enquanto Washington se dedicava a levantar bases militares, a China investiu em infraestrutura, participação em empresas europeias e em outorgar generosos créditos na Europa e outros países, especialmente na África. Mais difícil ainda de compreender é a insistência nesta política contra a Rússia por parte dos países grandes da União Europeia que, pressionada por Washington e muitas vezes contra os seus próprios interesses, terminam fortalecendo a mesma, apesar de serem conscientes da inutilidade de sua postura. Há muitos exemplos, mas basta lembrar o caso de Kosovo: os Estados Unidos pressionaram seus aliados pelo reconhecimento como Estado independente, o que muitos países hoje lamentam, ao constatar que se trata de um Estado falido. A política desenhada pelos órgãos de poder estadunidenses e aplicada pela União Europeia tem sido a de indicar que para ser membro do bloco é praticamente obrigatório ser parte também do pacto militar – a exceção é a Suécia, país com mais de 200 anos de neutralidade, e que consegue ser membro do bloco e não faz parte da OTAN formalmente, embora tenha efetuado manobras conjuntas. Além disso, no Tratado de Lisboa de 2007 se estabelece a obrigação dos membros da União Europeia de ajudar e assistir com todos os seus meios a outro membro se é atacado. Embora o organismo político da aliança, os secretários gerais da OTAN, tenha tido sempre representantes dos sócios fundadores do bloco europeu e do Reino Unido, até hoje todos os comandantes supremos foram generais dos Estados Unidos.

As diferenças entre Estados Unidos e Rússia são gigantescas em quase todos os planos quantificáveis, exceto na extensão do território e no poder nuclear. A população do primeiro chega a 320 milhões aproximadamente, enquanto os segundos são cerca de 150 milhões de habitantes. A economia estadunidense é 12 vezes maior que a russa, o gasto em educação é 14 vezes mais, enquanto o gasto em defesa é quase 10 vezes maior. O inventario nuclear de ambos os países, de acordo às cifras entregues pelo organismo sueco SIPRI, indica que a Rússia possui um total de 6.850 ogivas nucleares, contra 6.450 dos Estados Unidos. Se recordamos que só duas “pequenas” bombas, comparadas com as atuais, arrasaram Hiroshima e Nagasaki e fizeram o Japão se render em 1945, não é preciso muita imaginação para pensar que, com o arsenal nuclear atual pode-se fazer desaparecer grande parte dos seres humanos e as espécies que habitam o planeta Terra.

Para entender a proporção de armamentos nucleares armazenados pelas duas potências, de um total de nove países que possuem estas armas, basta mostrar que a França, que os segue em número, conta com somente 300 ogivas nucleares, enquanto a China possui 280. Estas cifras podem ajudar a entender o temor europeu a respeito da Rússia, devido a que, em um eventual conflito entre as duas potências, as primeiras bombas cairão em Paris, Berlim ou Londres, antes de Washington, Nova York ou San Francisco.

A apreensão dos Estados Unidos e da Europa são justificadas pela história russa. Desde a época dos czares, a Rússia sempre se valeu de desculpas para explicar seu afã expansionista, mas esses temores passaram a ser muito maiores no Século XX por causa da União Soviética e da divisão da Europa após a II Guerra Mundial e graças à Guerra Fria, iniciada imediatamente após a separação da Alemanha em diferentes territórios, em 1945, o que fortaleceu os medos da Europa ocidental, e levou os países a investir nas suas necessidades de defesa, além de tentar promover ações para conter a expansão do socialismo no Leste europeu. Tudo isso sem contar o triunfo da Revolução Chinesa em 1949, a Guerra da Coreia (1950-1953) dividindo a península, o desmoronamento do colonialismo com as lutas de libertação na África e na Ásia e o triunfo da Revolução Cubana enm1959, na ilha que fica a apenas 90 milhas dos Estados Unidos. Paralelamente a isso, foi amadurecendo no mundo a hegemonia surgida do extraordinário crescimento econômico dos Estados Unidos, que tratou de impor um modo de vida que o consolidou como a primeira potência indiscutível a nível global, e garantidor da segurança dos europeus ocidentais.

A pergunta hoje é se está justificada a continuação do cerco à Rússia com bases da OTAN em um cenário no qual o verdadeiro rival que ameaça a hegemonia dos Estados Unidos é a China. A invasão russa à Crimeia, em 2014, assim como seu conflito com a Ucrânia, certamente contribuiu a manter os temores, mas assim como no caso da expansão da OTAN, as medidas punitivas e o isolamento alimentam os medos russos e contribuem a estimular o nacionalismo num país onde também a história mostra, em duas oportunidades, o que significa ser invadido e os custos que pagaram, primeiro com Napoleão, em 1812, e depois com os exércitos de Hitler, na II Guerra Mundial. Sem dúvida, o período soviético deixou uma imagem negativa e contribui para que as ações de hoje sejam julgadas de forma muito diferente das que os Estados Unidos efetuam. Deveríamos perguntar como reagiria o mundo se a Rússia tivesse iniciado guerras sem autorização do Conselho de Segurança das Nações Unidas ou com base em provas falsas, como a do Iraque, em 2003; ou se mantivessem prisioneiros sem condenação em Guantánamo por anos, ou se fizesse bombardeios como os da OTAN em Belgrado (1999) ou em Damasco (2018), junto com a França e o Reino Unido. É claro que não há uma moral única para atuar nem para julgar.

O peso dos fatores culturais também deve ser observado com critério. Espera-se que a China atue a partir do padrão cultural do sistema político democrático ocidental, apesar de que nunca em sua história o país conheceu a democracia. Sua política internacional sempre foi guiada pelos princípios da coexistência pacífica de diferenças étnicas e regionais, a partir do qual o primordial para eles é a não interferência nos assuntos internos de outros estados. Para os chineses, os direitos econômicos e sociais se antepõem aos direitos políticos dos seus cidadãos. Se observamos suas atuações no plano internacional, vemos que é um país que ganhou presença internacional praticamente sem fazer uso da força militar, além de potenciar um desenvolvimento que o aproxima cada vez mais dos Estados Unidos. Em 2005, a economia estadunidense era 5,7 vezes maior que a da China, mas em 2016 essa diferença foi reduzida a somente 1,6 vezes (dados do Banco Mundial). Alguns estudos estimam que em 2030 a China já será a primeira economia do mundo, superando os Estados Unidos em tamanho. E além disso, também se espera que a Índia supere os norte-americanos no segundo lugar, também em breve. As projeções apontam que Washington cairá para o terceiro lugar, enquanto seu rival militar e aparente inimigo preferido, a Rússia, não passará de um modesto oitavo posto entre as economias do mundo.

O interesse nacional continua sendo o motor que move o mundo internacional. Infelizmente, o multilateralismo não tem podido se consolidar em toda a sua dimensão, e os avanços alcançados hoje se mostram diminuídos quando as potências decidem ignorar a frágil legalidade internacional. Um mundo sem ordem e sem legalidade favorece a lei do mais forte, que beneficia somente os países mais poderosos. O futuro sempre foi incerto, e continuará sendo, mas agora, neste cenário, podemos ver o papel que o líder de um país exerce e como pode mudar sua política exterior.

O caso do presidente Trump poderia chegar a ser um bom objeto de estudo. Em somente três anos, ele conseguir algumas proezas: criar inimizades com seus dois vizinhos (Canadá e México), por temas comerciais e migratórios; deu um golpe contra a comunidade científica, o multilateralismo e as Nações Unidas ao negar a crise climática e retirar seu país do Acordo de Paris, da UNESCO, do Conselho de Direitos Humanos e da Agência das Nações Unidas de Ajuda aos Palestinos; abandonou o pacto nuclear com o Irã, diante da incredulidade de seus aliados da União Europeia e contribuindo com a tensão no Oriente Médio; entre outras façanhas.

Em contradição com as resoluções das Nações Unidas, ele reconheceu Jerusalém como capital de Israel; ameaça com retirar seu país da OMC (Organização Mundial do Comércio); fortalece as controvérsias com seus aliados europeus ao exigir aumento dos orçamentos militares – ou seja, que comprem mais armas dos Estados Unidos –; cancela o acordo nuclear com a Rússia sobre mísseis de médio alcance, que dava segurança à Europa; inicia uma guerra comercial com a China; ameaça o México com um imposto progressivo às suas exportações se não atua para frear a migração proveniente da América Central. Tudo isso mostra como a principal potência do mundo faz o possível para debilitar o multilateralismo, suas instituições e a ordem internacional, que foi, em grande parte, construída pelos mesmos Estados Unidos.

A pergunta que vale fazer é se as decisões do presidente Trump contam com o apoio do Departamento de Estado, o Pentágono, a CIA, os grandes grupos financeiros e outras instituições que representa o poder estadunidense. O vazio que os Estados Unidos deixam nos organismos internacionais parece ser contrário aos seus interesses, e sem dúvida será preenchido pela China, que já e o segundo contribuinte financeiro das Nações Unidas, e ajudará o país asiático a consolidar seu poder global. Enquanto os líderes russos e chineses tentam usar discretamente o chamado smart power (combinação dos poderes duros e brandos nas categorias já clássicas), o presidente Trump abandona definitivamente o soft power e está apelando a uma espécie de arrogant power que debilita a imagem do seu país ante seus aliados e o mundo, além de enfraquecer o sistema internacional. O mandatário estadunidense atua como o fanfarrão da classe que, cada vez que pode, proclama a todos que é o mais forte no plano militar.

Recentemente, a chefa de governo da Alemanha, Angela Merkel, declarou ao Parlamento Europeu que “os dias em que podíamos confiar incondicionalmente em outros se acabaram. Isso significa que nós, os europeus, devemos por nosso destino em nossas próprias mãos se queremos sobreviver como comunidade europeia”.

Parece que seguimos observando a realidade com os olhos da Guerra Fria. Faz tempo que o socialismo deixou de ser uma ameaça para o sistema capitalista que domina o mundo. A luta por hegemonia global se dá hoje pelo controle do ciberespaço, da robótica, da inteligência artificial e da conquista espacial, que é onde os Estados Unidos estão enfrentando a China. Rússia está um pouco mais longe, mas já definiu quem é seu aliado. As consequências que podem surgir desses avanços na economia e na ciência encontrarão um lugar também na indústria militar, que floresce hoje como nos melhores tempos da Guerra Fria, com centenas de bilhões de dólares destinados a isso. Não importa a fome a pobreza no mundo.

Em Moscou, segundo o relato de um embaixador, um colega seu, europeu, expressou que não importava se existiam ou não provas para culpar a Rússia pelo suposto envenenamento de um ex-agente russo em Londres. O certo era culpar Moscou, porque “é preciso tomar partido”. Em Roma, uma embaixadora europeia me contou que se o sistema de comunicações global fosse alvo de intervenção permanente, ela preferia que fosse dos Estados Unidos e não da China. Para dizer com palavras do realismo político, enquanto o sistema internacional continue funcionando em base aos Estados nacionais, o interesse nacional continuará sendo a última palavra no cenário mundial. O que se esquece é que nenhuma potência sozinha poderá enfrentar os desafios atuais como são a defesa da vida humana e do planeta. Por isso é que se devem redobrar os esforços por fortalecer o sistema multilateral, suas instituições, a cooperação e o respeito à legalidade internacional, como única forma de garantir a paz.

*Publicado originalmente em wsimag.com | Tradução de Victor Farinelli

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