Poder e Contrapoder

'La Cina È Vicina': a China e a guerra comercial

 

04/06/2020 13:54

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Para quem não se lembra, no filme La Cina È Vicina, de Marco Bellocchio, o personagem mais jovem, um estudante maoísta, pichava as paredes na rua com a frase “La Cina É Vicina”, que pode ser traduzida por “A China está próxima”, ou “A China está chegando”. Hoje, a China não é mais maoísta, mas está cada vez mais próxima. Segue abaixo uma rápida radiografia político-econômica da China face a seus conflitos comerciais, principalmente com os EUA.

1) A OMC

A Organização Mundial do Comércio (OMC) não conseguiu conter a desaceleração do comércio global após a crise financeira de 2008. Em abril, a OMC alertou para uma redução de 13% a 32% no comércio global este ano como resultado da COVID-19, e a perspectiva de recuperação em 2021 está cada vez mais distante. A renúncia antecipada do diretor-geral da OMC, Roberto Azevêdo, revela o desconforto no topo de uma instituição sem liderança, à medida que as disputas comerciais entre os membros se multiplicam. A OMC foi vista como um cavalo de Troia, permitindo que a China, como país em desenvolvimento, desfrutasse de um acesso privilegiado aos mercados dos EUA/UE. A constatação de uma forte dependência da China de suprimentos médicos/sanitários desencadeou movimentos protecionistas em cerca de 80 países.

2) Os EUA

Enfrentando o maior número de mortos pela COVID-19 e grandes perdas de empregos enquanto concorre à reeleição, Donald Trump alertou que poderia interromper todo relacionamento com a China e deixar a OMS, o que realmente acabou fazendo. Essa nova deterioração do relacionamento é uma tentativa dos EUA de reequilibrarem o fosso em expansão entre o maior importador e exportador e a superpotência histórica e seu agressivo desafiador.

A guerra comercial travada desde 2018 tem como alvo específico a indústria eletrônica chinesa, responsável por US$ 187 bilhões do déficit de US$ 419 bilhões, como uma sanção por ações contra os interesses de segurança nacional dos EUA. A Huawei foi diretamente alvo de restrições nos principais suprimentos, usando equipamentos, ou design dos EUA, o que coloca sua sobrevivência em risco, devido à forte integração da cadeia de suprimentos.

3) A China e o Sul/Sudeste da Ásia

Desde 2017, a China passou de um destino para se tornar uma fonte de investimento estrangeiro direto (IED). O IED no sudeste e no sul da Ásia superou o da China desde 2007 e 2016, respectivamente, sendo que Singapura e Índia foram os locais favoritos para investimentos em alta tecnologia.

A Índia está-se posicionando para retomar uma parte da indústria farmacêutica e química da China. O Vietnã já está emergindo como uma importante base de produção, com a Samsung respondendo por 28% do PIB. É provável que haja uma regionalização do comércio, pois a China está importando mais de seus vizinhos e a maioria das economias asiáticas agora se ampara em serviços, com o crescimento mais baseado no consumo de grandes populações do que no comércio. Uma realocação em larga escala de indústrias nos países desenvolvidos também é improvável diante do investimento necessário e de uma estrutura de custos mais alta, mesmo com a robotização.

4) A China: Economia e Política

Sob pressão, a China está revelando uma diplomacia agressiva e capitalizando para garantir novas rotas comerciais. A reação da China ao crescente questionamento sobre seu papel na disseminação da COVID está revelando uma postura agressiva. O pedido da Austrália para uma investigação da OMS desencadeou uma série de medidas de retaliação por parte de Pequim, como a proibição de exportação de carne de quatro fábricas de processamento de carne, e 80,5%, nas exportações de cevada, um forte golpe para a agricultura de exportação do país.

Essa medida contrasta com os pedidos de preservação da cadeia de suprimentos global. Cerca de US$ 461 bilhões em empréstimos foram concedidos desde 2013, principalmente para países de alto risco, agora reivindicando alívio da dívida. A China está contando com essa nova dependência para estabelecer novas rotas comerciais. As províncias ocidentais da China têm sido, até agora, o “pai pobre” do sucesso econômico chinês e devem se beneficiar dessa nova perspectiva ocidental para desenvolver e consolidar ainda mais o mercado doméstico.

Do ponto de vista das decisões de Estado, ressalte-se a reunião anual do Congresso Nacional do Povo, realizada em 22 de maio último, com a pauta dedicada a medidas econômicas pós-COVID. Este evento é a oportunidade para Pequim apresentar sua agenda econômica para os próximos anos na frente dos delegados. Aqui estão as principais informações:

Xi Jinping disse que a economia da China se mostrará resiliente a longo prazo. As autoridades chinesas estão trabalhando no próximo plano econômico de cinco anos, que estabelecerá as principais metas econômicas, sociais e políticas para o período 2021-2025. Se a versão final do plano não for publicada até março de 2021, as primeiras linhas de pensamento colocam, no centro do plano, a independência em relação aos EUA e o reforço do lugar central da China na cadeia de suprimentos global.

Xi Jinping defendeu a ideia de que o país poderia impulsionar o crescimento econômico baseado no consumo interno, já que a China agora tem uma classe média de entre 500 milhões e 700 milhões de pessoas. Ele disse ainda que a China deveria usar um “novo padrão de desenvolvimento”, que consiste em um círculo econômico doméstico e um círculo econômico internacional, em vez de depender apenas de mercados estrangeiros. A China também investirá em tecnologia inovadora nos próximos cinco anos, já que as restrições às exportações de alta tecnologia têm um enorme impacto na economia do país. Com a proibição da Huawei, Pequim promete implementar medidas para reduzir sua dependência de tecnologias importadas.

5) Pacote Econômico

O governo anunciou um pacote de estímulo fiscal de US$ 500 bilhões (3,6 trilhões de iuanes) para reiniciar a economia após a crise do coronavírus. Em consequência, o déficit orçamentário aumentará para 3,6% do PIB. O pacote será enviado entre um orçamento extra para relançar a economia (1 trilhão de iuanes), títulos do Tesouro especiais (1 trilhão de iuanes) e um impulso financeiro ao fundo de títulos especiais do governo local (1,6 trilhão de iuanes). O governo central cortará gastos não essenciais em 50% este ano, enquanto aumentará o pagamento às autoridades locais em 13%. Reduções adicionais de impostos e reduções de taxas no valor de 500 bilhões de iuanes serão implementadas este ano, e 600 bilhões de iuanes serão financiados em projetos de investimento.

O governo também informou que o país renunciou à sua meta de crescimento econômico para 2020. Essa decisão era esperada, pois a economia encolheu 6,8% no primeiro trimestre de 2020. Por uma questão de segurança nacional, a China deve fortalecer seu setor de saúde. O sistema de saúde da China mostrou que estava mal preparado para enfrentar a pandemia de coronavírus. Serão necessários esforços sistêmicos para melhorar o tratamento e a prevenção de epidemias e crises de saúde pública. A falta de financiamento, a falta de pessoal e o sistema ineficiente de relatórios de saúde pública contribuíram para a pandemia em Wuhan.

6) Tendências

As tensões internacionais aumentaram quando 110 países pediram inquérito sobre coronavírus na China, que retaliou aplicando tarifas de 80% nas importações da Austrália. Outros países ficaram preocupados com esse tipo de tarifa. No que se refere às tensas relações com os EUA, o ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, disse que o vírus está levando os EUA a uma “Guerra Fria”.

Como a evolução do 5G deve estar no centro da competitividade econômica futura, a indústria microeletrônica estratégica e a primazia sobre o 5G estão no cerne das atuais guerras comerciais. Os conflitos estão-se formando em torno de uma particular cadeia de suprimentos interligada, com três empresas capazes de produzir os chips mais rápidos e avançados: a Samsung, da Coreia do Sul (SK); a TSMC, de Taiwan; e a chinesa HiSilicon, da Huawei. As atuais restrições americanas têm como objetivo interromper o fornecimento de chips da TSMC para a HiSilicon. Já a China controla 90% da produção global da substância denominada terra rara, um elemento essencial para a fabricação de smartphones, baterias EV, máquinas de imagens médicas e armas avançadas de defesa.

A recuperação da produção industrial da China está ameaçada pelo baixo consumo doméstico e internacional. O primeiro-ministro Li Keqiang confirmou no Congresso Nacional do Povo que a meta de crescimento econômico para 2020 foi abandonada, devido a grandes incertezas na economia e no comércio. As metas econômicas serão limitadas à estabilização do desemprego urbano em 6%, com a criação de nove milhões de empregos, e a uma inflação crescente de 3,5% para preservar o poder de compra. A produção industrial voltou a crescer ( 3,9%) em abril, mas o consumo no mercado interno ainda é baixo (-7,5% nas vendas no varejo), e as exportações são sustentadas apenas por suprimentos médicos temporários.

Isso confirma que a China está preparando uma mudança estratégica de um crescimento liderado pelas exportações para um desenvolvimento baseado em seu mercado interno, a fim de se preparar para a provável fragmentação da economia global após a pandemia. Pequim está-se preparando para abandonar a estratégia de “grande circulação internacional” adotada na década de 1990 que a levou a se tornar a segunda maior economia do mundo, depois de ingressar na OMC em 2001. A China quer mudar sua posição de exportador de produtos acabados feitos com componentes importados. Pequim buscará autossuficiência, preparando-se para um pior cenário, alimentado por uma guerra comercial e rivalidade tecnológica com os EUA, além de uma fragmentação esperada da economia global após a pandemia. O presidente Xi Jinping ressaltou a importância de a China se tornar mais autossuficiente em tecnologia e em mercado, nomeando particularmente a economia digital, fabricação inteligente, saúde, ciências da vida e novos materiais.

No pano de fundo da guerra comercial China x EUA, além dos conflitos tarifários, sobressai o fortalecimento de uma potência em ascensão que se choca com os interesses da potência dominante. Esse quadro se agravou no governo Trump com sua política America First, a qual enfatiza o nacionalismo econômico, o unilateralismo e a rejeição da cooperação internacional multilateral e das políticas globais. Os EUA, sob Trump, já desencadearam sua guerra fria. O inimigo é a China. Com as próximas eleições, esse quadro poderá, ou não, mudar. Saberemos em breve.

Liszt Vieira é pesquisador do INCT-INEU e professor aposentado da PUC-RJ.

*Publicado originalmente em 'OPEU - Observatório Político dos EUA'

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