Poder e Contrapoder

Assassinato de general iraniano leva Estados Unidos a isolamento do mundo árabe

Entrevista especial com Lejeune Mirhan

17/01/2020 10:46

Lejeune Mirhan (Arquivo pessoal)

Créditos da foto: Lejeune Mirhan (Arquivo pessoal)

 

O assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, que também culminou na morte do chefe das Forças de Mobilização Popular Iraquiana Abu Mahdi al Muhandis, numa ação orquestrada pelos Estados Unidos, abre um novo capítulo nas disputas entre essa que é uma das maiores potências do Ocidente e o Irã. No entanto, para o especialista em mundo árabe, o sociólogo Lejeune Mirhan, mesmo com a morte de Soleimani e a reação desastrada do Irã, que acabou derrubando um avião ucraniano, matando 176 pessoas, isso não significa que o Irã sai derrotado. “Continuo com a avaliação de que os Estados Unidos são os grandes derrotados neste episódio”, aponta. Segundo Mirhan, os “Estados Unidos se encontram acuados, derrotados tal qual Israel está”. “Eles nunca, na história, tiveram esses quatro países simultaneamente contra eles. Em alguns momentos o Irã estava contra os Estados Unidos, naqueles anos 1951 e 1953, mas era o mesmo período em que o Iraque ainda era monarquia e que o Líbano era fraco e onde a Síria não tinha feito a sua revolução nacionalista que começa na década de 1960”, explica.

Na entrevista, concedida via áudios do WhatsApp enviados para IHU On-Line, o sociólogo ainda pontua que, no mundo, parece estar surgindo uma resistência aos Estados Unidos, um movimento antiamericano que nem mais se supunha que poderia ocorrer. “Nunca houve essa coincidência de quatro países, três árabes e um persa, e com a Turquia, que é membro da OTAN, inclusive, se afastando da órbita dos Estados Unidos. Hoje, os Estados Unidos se encontram isolados do mundo árabe”, completa.

O maior indicativo dessa derrota e isolamento dos Estados Unidos, para o sociólogo, é o pronunciamento do presidente Donald Trump após os desdobramentos do atentado contra o líder iraniano. “Nós vimos não só no semblante do presidente dos Estados Unidos como também daqueles generais que estavam atrás, e pelo vice-presidente Mike Pence e pelo secretário de Estado Mike Pompeo – dois fundamentalistas evangélicos sionistas cristãos, tal qual Trump também é – que os Estados Unidos haviam sofrido uma derrota e sabiam que não poderiam reagir pela quantidade de mísseis que o Irã detém”, indica. “Trump acabou cobrando aquilo que ele não tem mais autoridade para cobrar, que é de seus aliados europeus, como Alemanha, França e Inglaterra, se retirarem do acordo nuclear do Irã. Eles não farão isso. E ele ainda cobrou de quem ele tem menos autoridade ainda, que é da Rússia e da China, para que eles não apoiem o acordo nuclear iraniano”, acrescenta.

*Lejeune Mirhan concedeu a entrevista ainda antes do abate do avião ucraniano. No vídeo, ao final da entrevista, ele atualiza a análise levando em conta a repercussão desse fato.

Lejeune Mirhan é escritor, especialista em mundo árabe, analista internacional, pesquisador e professor universitário. Possui graduação em Sociologia pela Pontifícia Universidade Católica de Capinas – PUCamp, instituição em que também fez mestrado em Filosofia da Educação. Ainda fez especialização em Política Internacional pela Escola de Sociologia e Política. Em seu projeto de doutorado em Sociologia Árabe, estuda a obra de Ibn Khaldun. Lecionou Sociologia, Ciência Política, Métodos e Técnicas de Pesquisa e Sociologia da Comunicação na Universidade Metodista de Piracicaba. Entre os livros publicados, destacamos “Justiça, Paz e Liberdade para o Povo Palestino” (São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2012), “E se Gaza cair... (São Paulo: Editora Anita Garibaldi, 2012), “Luta Imperialista e a Hegemonia Americana” (São Paulo: Editora Alfa Ômega, 2004) e “Conflitos Internacionais num Mundo Globalizado” (São Paulo: Editora Alfa Ômega, 2003).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Como compreender a estratégia estadunidense ao atacar o general iraniano Qassem Soleimani e o chefe das Forças de Mobilização Popular Iraquiana Abu Mahdi al Muhandis?

Lejeune Mirhan – O ataque decidido pelo presidente dos Estados Unidos à figura mais importante na hierarquia militar dos guardas revolucionários do Irã foi uma decisão de guerra. O general Soleimani provavelmente seria o próximo presidente do Irã nas eleições que virão. A sua popularidade só não superava a do líder espiritual do Estado Iraniano, que é o aiatolá Ali Khamenei. Então, isso foi uma decisão estratégica tomada pelos Estados Unidos que terá consequências não só imediatas, mas também em médio e longo prazo.

Os Estados Unidos não mataram apenas um general extremamente popular do Irã. Mataram o equivalente ao general no Iraque que, diferente do Irã, não é um estado islâmico. E esse general era comandante das forças de mobilização popular iraquiana. Também esse Abu Mahdi al Muhandis era uma figura extremamente importante na luta da resistência. Isso faz parte da estratégia dos EUA de enfraquecer o Irã, enfraquecer o Arco da Resistência e ampliar a presença dos Estados Unidos naquela região.

IHU On-Line – Que aspectos da Revolução Iraniana são cruciais para compreendermos a relação entre Irã e Estados Unidos?

Lejeune Mirhan – A trajetória histórica das relações dos Estados Unidos com o Irã vinha se consolidando com maior intensidade depois da Segunda Guerra Mundial, quando os Estados Unidos emergem como maior potência imperialista do mundo e a Inglaterra entra num segundo plano, em declínio – o que não quer dizer que ela “não jogue papel” ainda hoje ao lado da França, que haviam sido os vencedores da Primeira Guerra Mundial. Essas aproximações que os EUA fazem, não só com Irã, mas com outros países árabes – o Irã não é um país árabe, é um país persa – e que também fazem com a Turquia – que também não é árabe, é um país turco, outra etnia –, são aproximações no sentido de consolidar sua presença na região que detém 70% das reservas mundiais de petróleo no planeta, que é o Oriente Médio expandido.

Essas relações eram boas até 1951, quando houve um levante popular que levou ao poder um político muito carismático e querido do povo, Mohammed Mossadeq. Ele passou a ser o primeiro ministro, e seu primeiro ato de governo foi a nacionalização do petróleo iraniano, o qual estava na mão de uma empresa anglo-iraniana, que tinha no comando a Inglaterra. A CIA entra no circuito, promove um movimento popular que, em uma semana, transforma aquele primeiro ministro que era extremamente popular em alvo de um levante do povo contra ele. Ele sofre um golpe de estado em 19 de agosto de 1953. As manifestações que nos acostumamos a ver no leste asiático, chamadas de Revoluções Coloridas, a chamada Revolução Árabe, ou Primavera Árabe, e no Brasil em 2013, essas manifestações, na verdade, começam a acontecer em 1953 no Irã para desestabilizar o governo popular nacionalista do Irã.

Com a queda de Mossadeq, assume o poder o general Fazlollah Zahedi, que governará sob o poder do Xá Mohammad Reza Pahlavi, o qual é totalmente serviçal aos Estados Unidos. Ele governa a partir de 1941, e será derrubado com a Revolução Islâmica de fevereiro de 1979. Então, esse é o período de ouro das relações Estados Unidos e Irã, porque o Irã era serviçal e entregava seu petróleo a preço de banana para os Estados Unidos. Com a Revolução Iraniana, tudo se modifica e os Estados Unidos perdem um aliado, um parceiro estratégico naquela região e o seu petróleo volta para as mãos do governo e do povo iraniano, que reverte essa riqueza para melhorar as condições de vida do povo, como foi feito na Venezuela depois de 1998, com Hugo Chávez.

Assim, vamos ter uma situação em que os Estados Unidos farão de tudo para desestabilizar esse governo. No ano seguinte, em 1980, eles convencem Saddam Hussein, então presidente do Iraque, a agredir o Irã e promover uma guerra sem nenhum sentido, que matou mais de um milhão de iranianos, fora os iraquianos, e que durou oito anos, de 1980 a 1988, para enfraquecer o Irã. Isso não deu certo e, a partir de 1989, ano inclusive que o aiatolá Ruhollah Khomeini faleceu e que assume o atual líder espiritual Ali Khamenei, vamos ter outras formas e tentativas de desestabilização. Assim, essa situação atual não é a primeira e não será a última interferência dos Estados Unidos para desestabilizar o governo local. Os Estados Unidos, e seu braço internacional golpista chamado CIA, tudo continuará a fazer para derrubar o governo do Irã.

IHU On-Line – Quais são os grupos que compõem a política interna iraniana? Como esses grupos incidem nas relações com o Ocidente, especialmente Estados Unidos?

Lejeune Mirhan – O Irã é um país com liberdades partidárias das mais amplas possíveis, não diria que são iguais às que temos no Brasil. Além disso, a democracia iraniana é uma democracia islâmica, por isso nós não podemos olhar e analisar com os nossos olhos ocidentais, usar nossa métrica, nossos parâmetros e referências de democracia para analisar essa outra democracia.

No entanto, considero a República Islâmica do Irã uma república democrática. Até o líder espiritual é eleito por um conselho de sábios e notáveis, composto por cerca de 90 clérigos. Estes, por sua vez, são eleitos por voto direto do povo com base em candidaturas que, para serem registradas, as pessoas têm de ter reputação ilibada, sem nenhuma passagem em nenhuma denúncia de corrupção, absolutamente nada. Além disso, as pessoas precisam de um alto conhecimento teológico islâmico.

O poder do líder supremo é um poder paralelo ao Estado, ele não governa as coisas do dia a dia do país. Quem faz isso é o presidente da República que também é eleito pelo voto direto, em eleições livres e limpas, democráticas, com observadores internacionais, onde não concorre um número imenso de candidaturas, como ocorre no Brasil. É mais próximo do que ocorre na Síria, em que houve eleições também onde o presidente Bashar al-Assad foi reeleito com 80% dos votos, no contexto em que havia quatro candidaturas.

Grupos políticos

Os grupos políticos, como você se referiu na pergunta, não podem ser compreendidos dessa forma porque aí também estamos olhando sob a ótica do Ocidente. Eu diria que existem dois grandes campos no Irã: um campo mais liberal, mais receptivo à abertura para o Ocidente – não quer dizer que se quer aplicar o que é a vida ocidental lá, pois é outro mundo, outra cultura, é um país com cinco mil anos de história e não tem comparação com o Ocidente; e um grupo mais ortodoxo no sentido de preservar os fundamentos da Revolução Islâmica de 1979 e os princípios da religião islâmica e da linha teológica xiita.

O atual presidente, Hassan Rohani, é, inclusive, considerado um liberal, não é um fundamentalista. O anterior, Mahmoud Ahmadinejad, que tem uma origem operária, proletária, era, digamos, mais vinculado a princípios revolucionários. Nunca se comprovou, mas existe uma foto em que tudo indica que, na ocupação da embaixada dos Estados Unidos em Teerã, logo após a revolução de fevereiro de 1979, ele esteve presente. Então, era um jovem que, como o general falecido, participou desse momento ativamente. Eles fazem parte de um grupo mais principista – para não usar o termo fundamentalista – e que defende os princípios básicos da Revolução Iraniana.

IHU On-Line – Como compreender o papel político, econômico, cultural e social do Irã no contexto do Oriente Médio?

Lejeune Mirhan – O Irã assume cada vez mais um papel extremamente importante em toda geopolítica do Oriente Médio. O Oriente Médio é composto por 22 países árabes (Palestina e Saara Ocidental não constam no mapa) e o Oriente Médio Expandido integra o Irã e a Turquia, que não são povos árabes. E no meio de tudo estão 560 milhões de pessoas, se forem os árabes são pouco mais de 400 milhões. Nesse contexto ainda há um Estado, chamado Estado de Israel, criado pela ONU à revelia da sua própria carta das nações. Ou seja, a Carta das Nações não diz que compete à ONU criar Estados, mas, ainda assim, criou um Estado de caráter sionista e judeu, que discrimina palestinos. Então, no meio desses 560 milhões de pessoas, em que 95% são muçulmanos, criam um Estado que tem aversão aos muçulmanos, que tem aversão aos árabes. Esse é o cenário.

Veja o contexto do Egito. Após a morte de Gamal Abdel Nasser, em 1970, assume Anwar Al Sadat, que é assassinado em 1979, e depois assume Hosni Mubarak, que só vai ser derrubado em 2011. Entre Nasser, em 1954, e 2011, passaram-se 54 anos e o Egito teve apenas três presidentes, e eleitos de formas não democráticas. Essa é a forma como as coisas funcionam lá, essas são as tradições deles.

Depois da morte de Nasser, há um vácuo político, porque Sadat e Mubarak não têm nenhuma estatura para se comparar com Gamal Abdel Nasser. Saddam Hussein tentou fazer frente a essa realidade, mas os Estados Unidos fizeram de tudo para destruir essas duas nações. O Iraque eles conseguiram destruir e só agora ele está se recompondo e tem, inclusive, um primeiro ministro xiita, porque o Saddam nunca foi xiita, era sunita, que são minoria nesse país. Ainda que eu insista que ali o problema não é religioso, e sim político, existe um componente religioso que não pode ser desconsiderado na geopolítica regional.

E o Bashar, na Síria, que venceu a agressão à Síria com o seu exército árabe sírio, com apoio das Forças Quds e do Hezbollah, com apoio de militantes internacionalistas que foram para lá independentemente de serem muçulmanos e que queriam lutar contra o imperialismo estadunidense, do meu ponto de vista é um dos maiores estadistas vivos hoje. Ainda assim, ele não tem a dimensão para liderar o mundo árabe hoje porque é cercado de países governados por monarquias feudais sunitas reacionárias de extrema direita ou que se dizem repúblicas democráticas, como a Argélia e a Tunísia no Norte da África, mas que não têm estatura para sequer fazer aliança para estar ao lado da Síria e a defender ao lado dessa agressão que vem desde março de 2011, a chamada Primavera Árabe. Observe que Mubarak é derrubado em fevereiro e em março começa a agitação na Síria.

O papel estratégico do Irã

É por isso que considero que existe um vácuo de lideranças no Oriente Médio, no mundo árabe. Isso, evidentemente, causado pelos Estados Unidos, pois não interessa aos Estados Unidos que tenhamos hoje a volta de um Gamal Abdel Nasser. Por isso mataram o Muammar al-Gaddafi, mataram o Saddam Hussein e enfraqueceram a Síria de Bashar Al Assad. Nesse cenário, a República Islâmica do Irã, que é um país de 90 milhões de habitantes – só equivalente ao Egito, os demais são países pequenos –, passa a assumir um papel estratégico na região.

Aos poucos, o Irã foi expandindo a sua influência, seja pelos xiitas internamente, que existem na Síria, no Iraque e no Líbano, ou seja mesmo pela influência política da solidariedade internacional. Hoje, existe ali, liderado pelo Irã, aquilo que chamamos de Arco da Resistência, composto pelo Irã, Iraque, Síria, Líbano e o Hezbollah, que é um partido político que tem ministérios no Líbano, muito respeitado inclusive mundialmente.

Xiismo não é sinônimo de radicalismo

Do ponto de vista cultural, a expansão do Irã e seu fortalecimento expande, na verdade, a religião islâmica e dentro da religião islâmica o xiismo, que não é, ao contrário do que a mídia nos fez acreditar durante muitos anos, uma linha religiosa fundamentalista, nem radical. Ao contrário, os xiitas são os mais tolerantes. Os radicais, cortadores de cabeça, os que defendem a volta do califado, são os salafitas do Qatar e os wahhabistas da Arábia Saudita. São esses que financiam o terrorismo.

O islã xiita, na verdade, defende a cultura da tolerância, do quietismo, de estar quieto consigo, e da luta antiterrorista. Eles defendem um mundo onde a luta contra o terrorismo seja a luta principal de todos os países do mundo. Nesse sentido, o Irã se fortalece a cada dia.

IHU On-Line – As Forças Quds, lideradas por Soleimani, agiam com protagonismo nos conflitos do Oriente Médio. Qual o seu prognóstico da atuação das Forças Quds a partir dos últimos acontecimentos?

Lejeune Mirhan – As Forças Quds foram criadas quase junto da Revolução Iraniana, pois criaram os guardas revolucionários. Esses guardas agem, até hoje, para zelar pelos princípios da Revolução. Qualquer revolução no mundo tem isso. Então, o Irã não fez nada diferente de outras revoluções. Num certo momento, eles sentiram necessidade de criar uma divisão interna dessa guarda revolucionária que fosse uma espécie de milícia internacional, de força expedicionária internacional revolucionária e deram o nome de Forças Quds, que em árabe significa Jerusalém.

O general Soleimani foi o primeiro comandante desse grupo, e assume em 1998. Essas Forças, ao contrário do que essa mídia propaga e que, infelizmente, faz a cabeça de milhões de pessoas, não fazem operações de atentados, explosão de bombas, destruição de ônibus etc. Recentemente, a imprensa disse que o general foi o responsável pelo atentado de 18 de julho de 1994 contra a AMIA (Associação Mutual Israelita Argentina em Buenos Aires), que matou 85 pessoas. Ora, em 1994, o general cuidava de um setor da Guarda Revolucionária que fiscalizava as fronteiras do Norte do Irã, especialmente sobre drogas. O Hezbollah em 1994 não tinha a dimensão que tem hoje e não tem uma política de praticar atividades fora do Líbano. Estive com essa organização em dezembro de 2013 em Beirute e indaguei sobre abertura de escritórios no Brasil e eles disseram que não fazem isso em país algum, pois são um partido político libanês e nada mais.

Essas Forças seriam como se fosse um órgão que recrutasse militantes islâmicos, ou não, para lutar em países que precisem desta solidariedade. A resistência libanesa contra Israel no sul do Líbano não é só feita pelo Hezbollah. Tem militantes de outros partidos, como os de esquerda que nem são muçulmanos e que lutam pela segurança das fronteiras libanesas. A luta na Síria contra o terrorismo não foi privativa dos guerrilheiros e militantes das forças Quds e do Hezbollah. Tem até brasileiros que foram para lá e lutaram.

União de forças e correntes

É uma coisa parecida com o que os comunistas fizeram no mundo inteiro, por exemplo, na Revolução Espanhola de 1936, na resistência ao nazismo e ao fascismo na Alemanha e na Itália entre 1939 e 1945. Ali havia comunistas, cristãos, democratas, ateus, havia de tudo, gente que vinha de todos os países do mundo. As Forças Quds cumprem esses papéis, de lutar onde for preciso, contra o terrorismo, contra a opressão, em defesa da igualdade, da justiça, das liberdades, da democracia. Esse era o papel que o general desempenhava em todo Oriente Médio.

A partir de agora, mais do que nunca, as forças Quds se fortalecerão, terão mais adesões, seja de iranianos, de militantes revolucionários internacionais de qualquer país do mundo que queiram se alistar e lutar. E a maior ironia da história é que um militar que mais lutava contra o terrorismo internacional foi assassinado por um ato de terrorismo praticado por um chefe de estado de um país considerado terrorista, estado bandido, estado pária, como dizem alguns estudiosos do direito internacional, que é o caso dos Estados Unidos.

HU On-Line – De que forma a figura de Donald Trump reconfigura ou reatualiza as relações entre Estados Unidos e Irã?

Lejeune Mirhan – Donald Trump reconfigurou completamente a relação da política externa dos Estados Unidos com relação ao Irã. Obama governou de 2009 a 2016, em janeiro de 2017 tomou posse o Trump e impõe mudanças. Obama foi eleito no primeiro mandato prometendo que retiraria as tropas do Iraque imediatamente, assim que tomasse posse. Também prometeu que fecharia a base de Guantánamo, que é um centro de tortura internacional dos Estados Unidos. Ele não conseguiu implantar isso, Guantánamo não foi desmantelada nos oito anos e só retirou as tropas do Iraque três anos depois, em 2012, e assim mesmo deixou lá oito bases e seis mil soldados.

Observe que muitas vezes eles prometem coisas na campanha e quando tomam posse não conseguem cumprir, pois não são só presidente dos Estados Unidos, são chefes de um império. E são tarefas distintas, pois tem que atender internamente, governar para 300 milhões de pessoas, mas também tem que cumprir seu papel de chefe imperial.

Trump foi eleito também dizendo que retiraria as tropas da Síria, que não apoiaria mais o Estado Islâmico, que ele diz que combate. Mas, na realidade não combate, porque se estivesse disposto a combater o terrorismo jamais seria aliado da Arábia Saudita, o maior financiador de terrorismo no mundo. Atentados feitos na Itália, na Espanha, na França por militantes fundamentalistas, que alguns chamam de taqfiristas, ou jihadistas, são financiados pelos wahhabistas sauditas. Eles gastam bilhões de dólares nessas operações. Os Estados Unidos sabem bem disso, mas não rompem a aliança com eles.

Acordo nuclear

Além disso, Trump não retira as tropas da Síria. Até mesmo esses seis mil soldados que agora vão ter que deixar o Iraque por decisão soberana de seu parlamento, estão dizendo que não vão retirar porque criaria uma situação conflitiva. E, ainda pior do que isso: em 2017, quando toma posse, ele denuncia o acordo nuclear entre Estados Unidos e Irã, mas chancelado pelas Nações Unidas, Alemanha, França, Inglaterra, Rússia, China. No entanto, o mundo inteiro apoiou esse acordo feito na gestão Obama em 2015. Aliás, era o mesmo feito por Lula com Ahmadinejad e o presidente da Turquia Recep Tayyip Erdogan, mas que não valeu. Onde já se viu um presidente de Brasil, Turquia, levantar o braço e abraçar Ahmadinejad em um acordo de que os Estados Unidos não participam? Por isso não valeu nada esse acordo e os Estados Unidos não o reconheceu, isso em 2010.

Só em 2015 foi assinado com os Estados Unidos um acordo nuclear, aí sem o Brasil e sem a Turquia, já com novo presidente do Irã. Era o mesmo tratado, o mesmo conteúdo, igualzinho, só que agora sob o patrocínio do império. Trump, quando toma posse em 2017, denuncia o acordo, diz que foi realmente um grande erro Obama ter feito isso. Em 2018, Trump retira Estados Unidos do acordo, mas nenhum outro signatário retirou. Portanto, o acordo está valendo.

Com esse assassinato do general, um atentado terrorista, feito por um estado terrorista, um estado pária, um estado bandido, feito em território iraquiano, com a violação do espaço aéreo iraquiano, matando um cidadão de um terceiro país com o qual os Estados Unidos não estão em guerra, reconfigura de tal maneira a conjuntura que vai afastar as relações já ruins entre os dois países.

IHU On-Line – Qual a sua leitura do discurso do presidente estadunidense depois do assassinato de Qassem Soleimani?

Lejeune Mirhan – Vamos recapitular alguns dados: o atentado que matou o general foi realizado no dia 2 de janeiro, em uma quinta-feira, por volta das 20h, horário do Brasil. A resposta do Irã se deu na segunda-feira, dia 6 de janeiro, mais ou menos também por volta de 20h, quando já estava praticamente concluído o funeral do general. O fato de os Estados Unidos não responderem no prazo de uma ou duas horas em seguida ao ataque que o Irã desfechou sobre duas das suas oito bases no Iraque já era o primeiro sinal de que eles aceitariam essa retaliação iraniana e tudo ficaria como está.

Trump marcou para terça-feira, dia 7, às 11h, a sua coletiva de imprensa, o que é um tempo imenso para quem poderia eventualmente revidar. Ainda atrasou duas horas, começou a coletiva às 13h. Fez um discurso de apenas 11 minutos. Nós vimos não só no semblante do presidente dos Estados Unidos como também daqueles generais que estavam atrás, e pelo vice-presidente Mike Pence e pelo secretário de Estado Mike Pompeo – dois fundamentalistas evangélicos sionistas cristãos, tal qual Trump também é – que os Estados Unidos haviam sofrido uma derrota e sabiam que não poderiam reagir pela quantidade de mísseis que o Irã detém e pela possibilidade iminente de suas outras seis bases serem inteiramente destruídas no Iraque. Trump não esboçou nenhuma reação, negou a morte dos soldados, mas elas existiram, não se sabe ainda a quantidade, e se fala em mais de 200 feridos.

Trump acabou cobrando aquilo que ele não tem mais autoridade para cobrar, que é de seus aliados europeus, como Alemanha, França e Inglaterra, se retirarem do acordo nuclear do Irã. Eles não farão isso. E ele ainda cobrou de quem ele tem menos autoridade ainda, que é da Rússia e da China, para que eles não apoiem o acordo nuclear iraniano. Anunciou, ainda, um aumento da presença militar da OTAN e quando ele anuncia a ampliação da OTAN, tende-se a pensar que eles vão diminuir a sua própria presença estadunidense. Isso é um mau sinal para os Estados Unidos porque vão ficando cada vez mais isolados. Pessoalmente acho que nenhum de seus parceiros europeus vá “obedecer” às suas ordens e acho muito difícil que a OTAN desloque tropas para o Oriente Médio. Isso causaria ainda maiores tensões com os árabes.

Terrorismo

Trump ainda diz que luta muito contra o terrorismo. Boa parte de seus 11 minutos foi gasta para dizer que equipou as forças armadas dos Estados Unidos investindo, no seu mandato, 2,5 trilhões de dólares – e isso é um discurso para o público interno, direitista, que é o que o apoia. Teve uma parte do discurso em que ele reconheceu, pela primeira vez, que o Irã luta contra o terrorismo, da mesma forma que os EUA. Ora, se por um lado é positivo ele dizer isso, por outro, na verdade, nós sabemos que apenas o Irã luta contra o terrorismo. Os Estados Unidos apoiam o terrorismo. De um modo geral, podemos resumir que vimos um Trump acuado, com cara de derrotado, mas tentando posar de valentão, o que, na verdade, ele não é.

IHU On-Line – Mesmo logo após a morte de Qassem Soleimani, o senhor considerava que os Estados Unidos se revelavam derrotados diante da repercussão do fato. Hoje, passado algum tempo e depois de algumas respostas do lado do Irã, o senhor mantém essa análise?

Lejeune Mirhan – Continuo com a avaliação de que os Estados Unidos são os grandes derrotados neste episódio. Talvez mal avaliado pelos seus estrategistas, pelos seus conselheiros de segurança nacional, eles erraram ao assassinar um homem da magnitude do general Qassem Soleimani. Continuo achando que os Estados Unidos se encontram acuados, derrotados tal qual Israel está. Eles nunca, na história, tiveram esses quatro países simultaneamente contra eles. Em alguns momentos o Irã estava contra os Estados Unidos, naqueles anos 1951 e 1953, mas era o mesmo período em que o Iraque ainda era monarquia e que o Líbano era fraco e onde a Síria não tinha feito a sua revolução nacionalista que começa na década de 1960. Nunca houve essa coincidência de quatro países, três árabes e um persa, e com a Turquia, que é membro da OTAN, inclusive se afastando da órbita dos Estados Unidos. Hoje, os Estados Unidos se encontram isolados entre os principais países do mundo árabe. Correm o risco de até o Egito se afastar de sua órbita.

Fizeram uma consulta com a Arábia Saudita, perguntando se ela toparia a paz com o Irã. A pedido dos EUA. O Iraque foi o intermediário. O general voltava do Irã em voo de carreira como diplomata trazendo a resposta de Teerã. E foi assassinado pelos EUA. Mataram o mensageiro que trazia a resposta provavelmente favorável à paz. Ele não estava em missão militar na hora de sua morte, mas em missão diplomática. Portanto, eles continuam em dificuldade e estão acuados. O antiamericanismo no mundo cresce e aquele sentimento de “yankees go home”, que a gente ouvia muito na década de 1960, volta a ser ouvido. Estamos sentindo o crescimento de algo que parecia muito distante, derrotado, afastado, que é a volta do nacionalismo árabe. Isso é ruim para os Estados Unidos.

Presença russa

Nós percebemos hoje uma presença, embora ainda não forte, da Rússia no Oriente Médio. Coisa que nunca tinha acontecido, especialmente depois da morte de Nasser, quando as coisas passaram a tomar outro rumo, depois da Guerra de Seis Dias de 1967, a morte de Nasser em 1970 e assunção de Mubarak em 1979, após a morte de Sadat. Os Estados Unidos tiveram uma presença mais forte ali, mas hoje temos um crescente isolamento dos Estados Unidos na região.

IHU On-Line – Dado o atual contexto, podemos afirmar que o assassinato de Qassem Soleimani é mais impactante do que o de Osama bin Laden? Por quê?

Lejeune Mirhan – Não há a menor comparação da dimensão do assassinato do major general Qassem Soleimani com o do terrorista, chefe de uma organização terrorista chamada Al Qaeda, Osama bin Laden. A Al Qaeda foi uma organização fundada em 1979, quando a União Soviética, a pedido do governo do Afeganistão, que era de esquerda, ofereceu ajuda para combater internamente essas forças mais fundamentalistas de extrema direita dentro do Afeganistão.

Essas tropas soviéticas ficaram lá de 1979 a 1989 e é aquilo que alguns autores chamam de “o Vietnã da União Soviética”. Eles tiveram de sair em 1989, de certa forma derrotados. Posteriormente, os talibãs vão vencer as eleições e a história nós já conhecemos, o obscurantismo, o atraso, a explosão de sítios arqueológicos culturais muito importantes, mulheres tiveram de se vestir inteiramente com a burca.

Assim, houve esses dez anos para lutar contra a ocupação soviética. Foi o tempo em que a CIA aparelhou, treinou, montou, equipou, deu inteligência, comunicação, deu informações de satélite para Osama bin Laden. Ele era um muçulmano sunita ligado à Arábia Saudita. Lembremos que dos 19 terroristas que explodiram as torres gêmeas nos Estados Unidos em 11 de setembro de 2001, 16 eram sauditas. Observe o braço internacional apoiado pela Arábia Saudita no terrorismo.

Da aliança ao assassinato de bin Laden

Osama bin Laden é um homem da CIA. Os terroristas afegãos – e muitos eram sauditas – da Al Qaeda eram chamados nos jornais estadunidenses de guerreiros da liberdade (freedom warriors). Depois que o Afeganistão foi ocupado em 2001 pelos Estados Unidos por ordem de Bush Filho, vai-se ver a Al Qaeda mudando de posição, como Saddam também mudou de posição a partir de 1990 quando ocupou o Kuwait e passou a ser inimigo dos Estados Unidos. Em política internacional você não tem amizade, você tem jogo de interesse. Saddam, quando era amigo dos Estados Unidos era chamado de presidente Saddam e depois, quando mudou de posição, virou ditador Saddam.

Enquanto os terroristas da Al Qaeda apoiados e financiados pelos Estados Unidos fizeram o trabalho sujo de interesse dos Estados Unidos, tudo bem. Quando esses mesmos afegãos e sauditas membros dessa organização passam a lutar contra a ocupação do Afeganistão pelas tropas estadunidenses em 2001, passam a ser chamados de terroristas. Osama foi uma cria dos Estados Unidos e não há a menor possibilidade de comparar a estatura moral, militar, política e revolucionária do general Soleimani com esse terrorista.

IHU On-Line – Num curto e médio prazo, podemos afirmar que o Irã já chegou ao ápice de suas respostas à morte de Qassem Soleimani? Por quê?

Lejeune Mirhan – O Irã ainda responderá aos ataques feitos pelos Estados Unidos contra os dois generais que foram assassinados na noite do dia 2 de janeiro. As coisas não ficarão por aí. Agora, a pergunta que se tem que responder, e desta resposta decorre o que virá depois, é: o Irã sentirá vingada a morte de seu militar mais querido simplesmente tendo destruído duas bases militares dos EUA no Iraque? Isso é suficiente, equivalente ao assassinato de seu general mais importante? Acho que não.

A partir daí, entramos numa seara de análise especulativa. Mas, de algumas coisas eu tenho certeza: o Irã não confrontará com os EUA de forma direta; jamais. Se nem Rússia e China fariam isso – porque se fizessem, perderiam –, por que um país como o Irã faria isso? Não fará. Também tenho certeza de que a Rússia e a China serão solidárias ao Irã apenas do ponto de vista da política internacional, da diplomacia e do direito internacional; militarmente, não.

O Irã poderá continuar atacando alvos estadunidenses em solo iraquiano e poderá atacar alvos sauditas, de aliados dos EUA e, em especial, refinarias, que trará graves consequências para o preço do petróleo e, no limite, poderá dar alguma resposta em alguma cidade fronteiriça do Líbano com Israel. Aqui eu acho menos provável, mas não é impossível que isso aconteça. Não haverá atentados de forma indiscriminada e civis não serão afetados. Essa é a orientação do Estado Islâmico; apenas alvos e instalações militares dos EUA e dos seus aliados.

Reações cibernéticas

No entanto, as reações não são só do ponto de vista militar. Temos que esperar reações do ponto de vista cibernético, que não levamos em conta muitas vezes, mas que pode causar muitos danos. Se tirar a Bolsa de tecnologia Nasdaq do ar, haverá grande dano. Se colocar algum site de um grande banco dos EUA em instabilidade, fora do ar, isso causará danos ao sistema.

Reações políticas

Por fim, quero mencionar as reações políticas que nunca computamos como reações do Irã contra os EUA, porque só raciocinamos com as reações militares. O parlamento iraquiano aprovou por 170 votos a zero, no último dia 5 de janeiro, uma resolução exigindo a saída de todas as tropas dos EUA, que são seis mil soldados, e o desmantelamento das suas oito bases militares – que agora são só seis. Isso é uma vitória política equivalente à destruição de oito bases militares de uma só vez. Apesar de a votação ter sido 170 a zero, sabemos que 158 deputados optaram por não votar. Desses 158, há deputados curdos, turcomenos e sunitas em sua grande maioria. Aí se vê o que leva um deputado sunita a não apoiar uma moção pela desocupação militar do seu país. Não por menos tenho reafirmado nos últimos anos que os muçulmanos xiitas têm um elevado grau de consciência política e compreendem melhor a questão da luta anti-imperialista.

A segunda resposta política não foi dada diretamente pelo Irã, mas entra no cômputo das reações: nos EUA, desde o final de semana de 5 de janeiro, ocorreram manifestações em 70 cidades contra o ataque e contra a presença militar dos EUA no Oriente Médio – tem tropas americanas em mais de 15 outras bases fora do Iraque. A quinta das seis frotas navais que os EUA têm no mundo está ancorada no país árabe Bahrein, que fica no Golfo Pérsico, onde tem mais de 40 mil soldados. Ter estadunidenses fazendo manifestações dentro do seu próprio país, pedindo o retorno das tropas, é uma derrota política dos EUA e uma vitória política do Irã.

Há uma terceira resposta que é a decisão que o Irã tomou de não ter mais limites no enriquecimento de seu urânio, mesmo o acordo nuclear estando em andamento – portanto, ele não foi denunciado pelas partes, apenas os EUA é que saíram. O acordo diz que o Irã só pode enriquecer urânio em até 3,6%, até 5 e 20% ele serve para uma série de coisas, como energia, uso medicinal e científico, e se enriquecer até 90%, ele pode produzir um artefato nuclear. Então, isso foi uma decisão política. Quem vai obrigar o Irã a não fazer esse enriquecimento?

A quarta decisão foi tomada no dia 9 de janeiro pelo parlamento dos EUA: votou-se na Câmara dos Representantes uma resolução que limita o poder e a capacidade do presidente dos EUA de tomar decisões militares sem ouvir o Congresso. Essa é uma derrota muito grande do Trump.

A quinta resposta iraniana que creditamos no campo da política é a votação, por unanimidade, no parlamento do Irã, da resolução que considera todas as forças armadas dos EUA, em qualquer lugar do mundo, como uma organização terrorista. Vemos aí que as respostas são multifacetadas, de várias naturezas, e não descarto a possibilidade de a resposta militar seguir acontecendo.

IHU On-Line - Como o senhor analisa a cobertura internacional ao fato?

Lejeune Mirhan – A cobertura é totalmente pró-EUA, antimuçulmana e anti-iraniana. Nós – aqueles que lutam por um mundo melhor, justo e igualitário – só conseguimos contrapor a essa cobertura com blogs alternativos, canais no YouTube, tentando mostrar outra visão dos acontecimentos. Quando, por volta das 20h do dia 2 de janeiro, os EUA praticaram o ato terrorista de assassinar o general Soleimani, todos os jornalistas e colunistas de todas as redes foram acionados para fazer comentários e análises justificando o atentado, dizendo que ele não feriria nenhum acordo internacional, que os EUA tinham todo o direito de matar alguém pelo simples fato de ter achado que esse alguém poderia fazer algum mal contra o país no futuro. “Analistas” defenderam a operação. Então, não se espera nenhuma cobertura equilibrada. Posteriormente já se admitiu que não houve prova alguma de plano algum de atentados contra os EUA por parte do general e das suas forças Quds.

Nas redes do Oriente Médio, a Al-Jazeera é a mais famosa e teve uma cobertura muito equilibrada. Al-Jazeera, que é do Qatar, inclusive, é pró-EUA, mas fez vários pequenos vídeos contando a vida do general, falando do seu papel no Líbano para expulsar os israelenses em 25 de maio de 2000, e na guerra dos 33 dias, quando Israel agrediu Beirute e perdeu em julho de 2006, assim como seu papel no conflito da Síria entre 2011 e 2019. Já as TVs dos países como as do Líbano, com as TVs Al Manar e Al Mayadin, têm coberturas espetaculares, militantes e engajadas contra os EUA.

IHU On-Line - Que avaliação o senhor faz das últimas posições da diplomacia brasileira sobre a situação no Oriente Médio?

Lejeune Mirhan – Desde 1º de janeiro de 2019, quando tomou posse o ex-tenente expulso do Exército, Jair Bolsonaro, temos um chanceler, Ernesto Araújo, que nunca chegou ao posto de embaixador em 29 anos no Itamaraty. Sem falar que é um homem de extrema direita, fundamentalista, terraplanista e serviçal dos EUA. Quando houve o ataque no dia 2, a primeira reação do Bolsonaro foi de cautela, não se alinhou automaticamente, chegou a dizer que o Brasil apoia a luta contra o terrorismo, mas deu declarações cautelosas.

No dia seguinte, dia 3, o chanceler Ernesto Araújo soltou uma nota dizendo que apoiava os EUA e apoiou o assassinato do general Soleimani, que era um terrorista. Em seguida, o Bolsonaro disse que ele nem sequer era um general, como se o Brasil pudesse interferir até na carreira e na hierarquia militar de outros povos. Passados alguns dias, percebemos que havia uma luta interna no Exército: alguns militares de pijama chegaram a declarar que o Brasil deveria ficar de fora dessa questão, porque isso era um tema muito polêmico. No entanto, a partir do dia 9, isso foi devidamente resolvido: o porta-voz do governo anunciou que o governo brasileiro oficialmente estava alinhado com os EUA, apoiando a ação militar tomada de assassinar o general Soleimani.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Lejeune Mirhan – Em relação às perspectivas e consequências para o Oriente Médio e para o mundo dessa atitude dos EUA de assassinar o general iraniano, tenho arrolado sete grandes consequências políticas, diplomáticas, geopolíticas, militares, econômicas. A primeira grande consequência que é favorável a nós, ou seja, ao Arco da Resistência, é que esta atitude promoveu na política interna iraniana e iraquiana uma grande unidade entre povo, governo e forças armadas. Não que já não houvesse isso, mas recentemente esses países tiveram que proceder a reajustes nos seus preços de gasolina para adaptar os custos, em função dos preços artificialmente mantidos baixos do petróleo internacional por exigência dos EUA para quebrar a Venezuela e o Irã e penalizando a própria Arábia Saudita, aliado maior dos EUA.

Isso está gerando um prejuízo diário, praticando valores do barril de petróleo menores do que o custo de extração. Mas ainda assim, a Arábia Saudita, que é serviçal dos EUA e cumpriu direitinho as ordens, tinha o objetivo, como disse, de quebrar o Irã e a Venezuela. Isso não aconteceu, mas houve danos econômicos. Tanto o Iraque quanto o Irã têm as receitas majoritárias dos seus orçamentos advindas da conta da exportação do petróleo. Isso gerou descontentamento e revolta interna, que a CIA se encarregou de insuflar.

Fortalecimento da resistência e isolamento dos EUA

A segunda grande consequência é o fortalecimento do Arco da Resistência: Irã, Iraque, Síria, Líbano e Hezbollah passam a ter maior autoridade no Oriente Médio a partir desses acontecimentos.

A terceira consequência é uma ampliação do isolamento político e diplomático dos EUA. Mesmo seus aliados europeus tradicionais já não assinam embaixo de tudo que os EUA fazem.

Diminuição da presença militar

A quarta consequência é uma diminuição da presença militar de tropas estadunidenses na região. Não digo que eles deixarão o Oriente Médio – isso não acontecerá ainda –, mas haverá uma diminuição na proporção inversa que haverá um aumento da presença russa na região. A Rússia já tem uma base militar na cidade síria de Tartus, onde tem um porto muito importante que dá para o Mediterrâneo. As forças e tropas militares que ainda lá perdurarem, serão apoiadas unicamente pela Arábia Saudita, Qatar e petromonarquias do Golfo.

Antiamericanismo e crescimento do Islã

O quinto aspecto é o crescimento do sentimento antiamericano no mundo. Isso coloca em risco os cidadãos estadunidenses no mundo. Qualquer muçulmano pode considerar um estadunidense que estiver visitando seu país um alvo militar e fazer um atentado individual contra ele. Isso é muito ruim e coloca em grande insegurança cidadãos dos EUA.

A sexta questão é um crescimento do islamismo como religião, principalmente do ramo xiita, e uma diminuição da rejeição ao Irã. Toda propaganda midiática internacional feita diariamente mostra que aquele regime dos aiatolás – não dizem governo – é obscurantista e persegue mulheres. Mas o Irã passa a ter um aumento da simpatia internacional à medida que cresce um sentimento antiamericano.

Insegurança para Israel

A sétima questão: os EUA colocaram Israel em um clima de absoluta insegurança. Se eles já estavam inseguros com a incidência de quatro governos compondo o Arco da Resistência, agora eles estão ainda mais inseguros. E não só isso: também colocam em risco todos os israelenses; não somente os que moram em Israel, mas os que vivem pelo mundo inteiro.



*Publicado originalmente em IHU On-Line

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