Poder e Contrapoder

China 1989: Os manifestantes, o Partido e o massacre de Beijing

Neste artigo, Simone Pieranni destaca que o verdadeiro massacre de 4 de junho de 1989 na capital chinesa ocorreu contra trabalhadores e moradores locais, não na Praça Tiananmen e salienta que a decisão de "limpar a praça" veio diretamente de Deng Xiaoping

07/06/2019 15:37

Houve muitas pessoas que protestaram nas ruas durante aqueles dias, tanto estudantes universitários como pessoas de outras categorias sociais, Tiananmen 1989 (domínio público/flickr)

Créditos da foto: Houve muitas pessoas que protestaram nas ruas durante aqueles dias, tanto estudantes universitários como pessoas de outras categorias sociais, Tiananmen 1989 (domínio público/flickr)

 
Todos achamos que sabemos algo sobre o que aconteceu na China, em Beijing, há 30 anos. Geralmente falamos sobre "os acontecimentos", do que ocorreu na Praça Tiananmen em termos de uma história simples. Protestos e reivindicações de reformas democráticas, por parte de estudantes universitários, que o Partido Comunista enfrentou com uma repressão grosseira, que levou ao "massacre de Tiananmen".

Sabemos também que Beijing efetivamente apagou estes dias da história oficial: ninguém fala sobre eles, ninguém tem autorização para se referir a eles, e não se pode encontrar informação sobre eles na Internet chinesa "revista". Além disso, hoje em dia não será fácil encontrar na China uma pessoa jovem que saiba algo sobre esse assunto. Não há dúvidas sobre qualquer um destes factos. No entanto, a história do que aconteceu naqueles dias de maio e junho de 1989 envolve, na realidade, uma mistura mais complexa de elementos do que geralmente se reconhece.

Houve muitas pessoas que protestaram nas ruas durante aqueles dias, tanto estudantes universitários como pessoas de outras categorias sociais. É claro que as histórias que provêm dos "líderes" dos protestos em Beijing receberam a mais ampla cobertura mediática, mesmo anos depois dos acontecimentos. Alguns deles escaparam à repressão graças à solidariedade de muitos outros; alguns conseguiram chegar a Hong Kong e de lá voaram para os Estados Unidos.

Uns quantos de entre eles contaram a sua experiência daqueles dias. Alguns mudaram completamente as suas vidas: uns tornaram-se milionários, outros converteram-se ao cristianismo. No entanto, sabe-se muito menos das histórias das pessoas que morreram (trezentas pessoas, segundo os dados do Partido Comunista, mas muitas mais, que se contam por milhares, segundo ativistas, famílias das vítimas e uma série de organizações humanitárias), ou sobre os milhares de pessoas detidas (o último a ser libertado, que era então operário de uma fábrica, saiu da prisão em 2016). Pode-se saber mais sobre muitos dos protagonistas dos acontecimentos no livro de Louisa Lim The People’s Republic of Amnesia: Tiananmen Revisited (A República Popular da Amnésia: Tiananmen Revisitada)

Nos relatos dos media, houve muito poucas menções aos problemas que "o movimento estudantil" também tinha (nesse sentido, Beijing Coma de Ma Jian é um excelente livro para compreender os vários erros e limitações com que tiveram que se confrontar os manifestantes estudantis).

Ainda menos pessoas sabem - ou, se sabem disso não consideram dignas de menção - as condições económicas particulares e o "clima" que reinava nas fábricas durante esses anos, fatores que continuam a ser cruciais para a China, como ela é hoje em dia. Além disso, a decisão do Partido Comunista de lançar o exército contra o povo, que protestava nas ruas e praças, teve lugar num momento dramático para o PCC, pois tinha que lidar com as sequelas da Revolução Cultural, que tinha terminado apenas uma década antes.

As reformas postas em prática por Deng Xiaoping estavam a mudar o país a um ritmo acelerado, o que levou, entre outras coisas, a novos critérios para avaliar a "eficiência" daqueles que se encontravam em lugares de poder, critérios diferentes dos do passado.

O Partido estava a mudar de um modelo de "gestão política" do país para um modelo de "gestão económica": este processo causou uma série de problemas e uma generalização da corrupção, que foi uma das muitas razões para os protestos durante esse período.

Devido a este contexto complexo, "os factos" em torno da Praça de Tiananmen ainda são estudados pelos investigadores e, por vezes, descobrem-se novas revelações.

Entre a multiplicidade de diferentes interpretações, vereditos e excessivas simplificações comuns, a sequência básica de acontecimentos continua a ser a mesma: o massacre cometido contra estudantes, trabalhadores e cidadãos comuns de Beijing; a dramática decisão do Partido Comunista de avançar com medidas repressivas, no final de uma luta interna que marcaria para sempre o rumo do PCC; e no fundo de tudo isso, a "Primavera chinesa", que tinha sido o resultado de um período de intensa e viva atividade cultural e política durante os anos 80.

O ano de 1989 constitui um ponto de viragem na história recente da China, pois este foi o ano em que o contrato social entre o povo chinês e o Partido Comunista foi efetivamente transformado, colocando o país no caminho do crescimento económico que o levou ao seu estatuto atual como potência global de envergadura.

Começar pelo fim: as repercussões do massacre de Beijing

Em junho de 1998, o presidente dos EUA Bill Clinton viajou para a China e assistiu a uma cerimónia de boas-vindas organizada na Praça Tiananmen, em Beijing. Os media norte-americanos criticaram o presidente, acusando Clinton de apoiar a tentativa do Partido Comunista de apagar da memória os acontecimentos de 1989. De facto, a administração Clinton estava a tentar justamente isso, em nome da política de aproximação com a China, após o embargo que tinha sido imposto por causa do massacre.

A este respeito, é interessante notar que, desde 1949, Washington sempre esteve muito preocupada com a China durante a sua fase "maoísta". É claro que se tratava de um receio ideológico, baseado no medo de que o comunismo se espalhasse cada vez mais. Então, após a abertura realizada por Deng Xiaoping, os EUA - amplamente satisfeitos por terem a oportunidade de quebrar a frente comunista e isolar a União Soviética - começaram um longo processo de aproximação com a China, que terminou com a entrada de Beijing na OMC, que teve lugar em 2001: o ano em que ocorreram os protestos massivos contra a globalização em Génova, e também o ano em que a história dos Estados Unidos estava prestes a mudar para sempre.

Para apoiar a integração da China nas instituições económicas globais, os EUA ocultaram episódios como os de 1989 (contribuindo assim para melhorar o perfil de um país que viria a ser visto, hoje em dia, como "inimigo"). Os norte-americanos mostraram muitas vezes estar errados na sua avaliação da probabilidade de as reformas económicas trazerem a democracia automaticamente.

Os acontecimentos de 1989 provaram exatamente o contrário. O que aconteceu em 4 de junho de 1989, acabou por ser um precedente sancionado do caminho autoritário empreendido pelo capitalismo global desde então. Segundo Naomi Klein, foi exatamente esse "choque" que empurrou finalmente a China para o caminho neoliberal da globalização.

Se voltarmos a 1998, à visita de Clinton à China e à controvérsia sobre o lugar que simbolicamente representavam os acontecimentos de 1989, Jay Mathews, repórter do Washington Post que estava presente em Beijing em 1989, sentiu a necessidade, dez anos depois dos factos que rodearam Tiananmen, de pôr em relevo uma série de factos cruciais, começando com um debate sobre um ponto que poderia parecer trivial em princípio, mas que é de facto bastante importante: a saber, que ligar a palavra "massacre" com "Tiananmen" é um erro, pois, como escreve Mathews, "pelo que pode determinar-se a partir da evidência disponível, não morreu ninguém naquela noite na Praça Tiananmen."

Mathews não questionava o facto de o exército, é claro, ter matado pessoas naquela noite: de acordo com muitas outras testemunhas, jornalistas e outras, ele reconstruiu a seguinte sequência de acontecimentos: "Centenas de pessoas morreram naquela noite, a maioria delas trabalhadores e transeuntes, mas em vários locais e em circunstâncias diferentes. O governo chinês calcula que houve 300 mortes. As estimativas ocidentais são mais elevadas. Muitas vítimas foram baleadas nas proximidades de Changan Jie, a Avenida da Paz Eterna, a cerca de um quilómetro e meio da praça, e em confrontos dispersos noutras partes da cidade, onde, deve-se acrescentar, alguns soldados foram espancados ou queimados por trabalhadores furiosos".

Devemos deixar bem claro este facto, ninguém - exceto alguns teóricos da conspiração, ou para usar um termo melhor, negacionistas - tem qualquer dúvida de que esses acontecimentos violentos tiveram lugar na China, em 1989, teve lugar, tanto em Beijing como noutras cidades.

No entanto, como Mathews apontou no seu artigo, se reconhecermos a "simplificação excessiva" dos factos pelos media, poderemos chegar a uma compreensão do complexo conjunto de circunstâncias que rodearam o que aconteceu em 1989.


“o que ocorreu foi um massacre, não de estudantes, mas de trabalhadores e moradores comuns, precisamente o objetivo pretendido pelo governo chinês"

"O problema", escreve Mathews, "não é tanto localizar os assassinatos no lugar errado, mas sim sugerir que a maioria das vítimas eram estudantes". Tal como escrevem George Black and Robin Munro no seu livro Black Hands of Beijing: Lives of Defiance in China’s Democracy Movement, “o que ocorreu foi um massacre, não de estudantes, mas de trabalhadores e moradores comuns, precisamente o objetivo pretendido pelo governo chinês".

Black e Munro também apontam que a repressão mais violenta ocorreu nos bairros ocidentais da periferia de Beijing, não na Praça Tiananmen. Jonathan Fenby, historiador e especialista em Ásia e China, também concorda que foi aí que o verdadeiro "massacre" ocorreu, contra os trabalhadores e moradores locais. Centenas de trabalhadores foram massacrados nas ruas. Esta é a razão pela qual um conjunto de especialistas académicos e dissidentes chineses prefere usar a expressão "massacre de Beijing" em vez de "massacre da Praça Tiananmen".

O partido

Como reagiu o Partido Comunista aos crescentes protestos, que ocorreram ao mesmo tempo que a visita de Mikhail Gorbachov à China no final de maio? Este é um dos aspetos mais interessantes quando se analisa a situação de 1989. O Partido Comunista atravessou muitas fases diferentes nesse período, como pode ver-se nas sucessivas purgas e lutas internas sem restrições, na criação de um "Comité Permanente" paralelo, composto pelos chamados "oito imortais", e até mesmo pela nomeação, por meios que eram tecnicamente inconstitucionais, de Jiang Zemin, presidente da Câmara de Xangai, como novo secretário do Partido Comunista.

O facto dos que foram mortos serem na maioria trabalhadores permite-nos compreender melhor como o Partido filtrou a informação que lhe chegava do mundo exterior, não tanto e não só da própria Praça Tiananmen. Em 1989, o Partido já estava a trabalhar há dois anos para pôr de lado a influência política de Hu Yaobang. Tratava-se de um reformista que foi considerado demasiado indulgente com os protestos que se tinham convertido numa caraterística recorrente na China desde 1986.

Hu morreu no dia 15 de abril de 1989 de um ataque de coração sofrido durante uma reunião do partido e o luto pela sua morte tornou-se o acontecimento que desencadeou os protestos em larga escala dos estudantes, que ocuparam nesse dia a Praça Tiananmen .


O velho Deng era o grande manipulador dentro do PCC, partiu dele a ordem de “limpar a praça” em 3 de junho de 1989. A 9 de novembro de 1989 deixaria de ser presidente da comissão militar central

Deng Xiaoping tinha decidido que deveria afastar-se Hu, apesar de este ter sido escolhido pelo próprio Deng como seu sucessor (haveria que esperar até 2005 para que a imagem de Hu fosse finalmente reabilitada). O velho Deng era o grande manipulador dentro do PCC, apesar de já viver então na sua residência particular, longe de Zhongnanhai, o Kremlin chinês. Ele estava rodeado, no entanto, pela sua equipa, que podia fornecer-lhe informações atualizadas sobre o que estava a acontecer no país.

A casa do velho Deng seria o cenário da reunião mais importante durante esses dias frenéticos de junho de 1989. Deng, veterano político e estratega consumado, captou de imediato a natureza do problema: se os protestos estudantis se estendiam aos trabalhadores, a situação seria desastrosa para o PCC.

Deng sublinhou repetidamente que as reformas deveriam ser feitas, mas que era necessário manter a ordem para que isso acontecesse: a população deveria estar a trabalhar, não a protestar.

Ele achou que tinha conseguido resolver a situação, marginalizando Hu Yaobang, mas o seu substituto, Zhao Ziyang, estava predisposto para as reformas, e isso depressa se tornou um problema para os "oito imortais".

Em 2001, foram publicados os “Tiananmen Papers”, [The Tiananmen Papers], um livro que contém material de extraordinária importância para uma melhor compreensão do que estava a acontecer dentro do PCC durante esses dias.

Como escreveu Marina Miranda num artigo de 2001 publicado em Mondo Cinese, o livro “Tiananmen Papers” é "uma coleção de documentos neibu, isto é, altamente confidenciais e cuja circulação era restrita ao Partido Comunista chinês." Esses documentos secretos devem ter sido divulgados por alguém que tinha um papel privilegiado dentro do mecanismo interno do Partido.

Quem os divulgou, supostamente "um alto funcionário do Partido", decidiu adotar um pseudónimo em particular: Zhang Liang. "Esta escolha do pseudónimo", escreve Miranda, "tem um significado político claro: é o nome de um estratega que morreu em 187 aC, conhecido pelo seu ódio à muito denegrida dinastia Qin (221-207 aC ), cujo governo tirânico se compara assim ao regime do Partido Comunista". Mao também foi associado à dinastia Qin, assim como Xi Jinping em tempos mais recentes. De acordo com um especialista académico na China, Kai Vogelsang, os Qin não só puseram em prática a primeira ideia do Império Chinês como hoje geralmente o concebemos, mas também criaram um sistema social caraterizado por um nível extremo de vigilância.


Deng, veterano político e estratega consumado, captou de imediato a natureza do problema: se os protestos estudantis se estendiam aos trabalhadores, a situação seria desastrosa para o PCC

Relembrando os acontecimentos de 1989, os documentos dos Tiananmen Papers são de importância crucial. São muitos os que debateram sobre a sua autenticidade. A esse respeito, Miranda, juntamente com muitos outros especialistas académicos na China, argumenta que a controvérsia pode ser dada como concluída, porque temos boas razões para confiar na reputação dos especialistas académicos que compilaram e publicaram os documentos: "podemos, em qualquer caso, considerar a séria reputação académica de que gozam os compiladores do livro como uma garantia da autenticidade do material: Perry Link, professor de língua e literatura chinesas na Universidade de Princeton, e Andrew J. Nathan, professor de ciência política na Universidade de Columbia".

Os anos 80 e os protestos

Ilaria Maria Sala, que estava presente em Beijing em 1989, escrevia recentemente sobre o espírito daquela "primavera chinesa": 1989 foi o ponto culminante de um período altamente notável no final dos anos 80: "o país estava no meio de uma agitação social, política e cultural", escreve Sala, "um mundo ébrio de possibilidades: as revistas e os jornais eram mais interessantes, com longos artigos de investigação publicados em novos meios de comunicação, os chamados Baogao Wenxue ("Reportagens Literárias").

Em 1988, "estava a haver uma profunda reflexão sobre a história da China", e colocavam-se novas questões sobre o que realmente significavam a identidade e a cultura chinesas. No seu artigo, Sala lembra o modo como a descreveu Link, o especialista académico da Universidade de Princeton, que trabalhou nos Tiananmen Papers: "em todos os campos, todos os intelectuais levantaram essas grandes questões. É um enorme contraste com o que acontece hoje", escreve Sala.

As possibilidades pareciam infinitas. Nos campus universitários, os "quadros de anúncios ofereciam aulas de idiomas e dança, assim como fóruns de discussão que permitiam falar com bastante liberdade sobre uma ampla variedade de temas".

Ao mesmo tempo, o mundo do trabalho estava em turbulência.

Do ponto de vista económico, o período de reformas criara duas tendências claras: a proletarização de enormes massas da população e o surgimento de uma nova classe de capitalistas.

O processo de proletarização ocorreu, em termos gerais, como resultado de três fatores: a migração forçada do campo para as cidades, o colapso das empresas de gestão estatal nas cidades e a dissolução dos negócios locais nas aldeias. A deslocação rural para as cidades constituiu uma tarefa imensa, envolvendo cerca de 120 milhões de pessoas desde 1980, no que se pode considerar a maior migração na história humana (veja-se Walker R. & Buck D., “The Chinese road, Cities in the Transition to Capitalism”, New Left Review, agosto de 2007).

Um segundo fator responsável pela criação de uma nova classe salarial na China foi o desmantelamento de empresas de propriedade estatal.

As empresas estatais tinham sido o núcleo da industrialização maoísta e contabilizavam quatro quintos da produção não agrícola do país. A maioria destas gigantes estava localizada nas cidades, onde empregavam cerca de 70 milhões de pessoas em 1980. As primeiras etapas do desmantelamento começaram em 1988 e o processo continuou em ritmo acelerado após a convulsão de 1989, momento em que foram aplicadas medidas drásticas no contexto de uma economia superaquecida, marcada por elevada inflação.

Outras reformas foram realizadas durante a década seguinte, confirmando o significado do que tinha acontecido em 1989. Em 1994, incentivou-se uma maior eficiência através de cortes na mão de obra. Esta nova direção da gestão levou a despedimentos em massa no final da década de 1990, quando o capitalismo chinês passou pela primeira crise de sobreprodução, que marcou uma brusca transição da velha economia de escassez para uma nova economia de excedente. O resultado foi espetacular: o emprego nas empresas de propriedade estatal foi reduzido a metade, enquanto 40 milhões de pessoas se encontraram sem a tradicional "tigela de arroz de ferro", símbolo e garantia de segurança no emprego nas velhas empresas do Estado.

Para este grupo de pessoas, a maioria de meia-idade, vislumbrava-se a possibilidade de se tornar uma "infraclasse urbana", como Dorothy Solinger explicou no seu artigo “From Master to Marginal in Post-Socialist China: The Once-Proletariat as New Excluded Entrepreneur”, publicado en Social Exclusion and Marginality in Chinese Societies (Hong Kong Polytechnic University, Center for Social Policy Studies, 2003).

"Ironicamente", escreveu Solinger, "na sua marcha para a modernização e a reforma económica, mesmo quando a direção política chinesa deu rédea solta e encorajou as forças do mercado, parou ao mesmo tempo o pleno desenvolvimento de alguns dos principais processos que surgem de maneira geral da mercantilização em outras questões. Assim, na China, em vez da opulência crescente, o aumento do nível educacional e o aburguesamento de uma grande parte da classe trabalhadora, que ocorreu em muitas sociedades juntamente com o desenvolvimento económico - e de uma maneira muito marcante entre os vizinhos da China no leste da Ásia, como a Coreia do Sul, Japão e Taiwan - esta informalização da economia urbana representou uma regressão, não um ascenso para uma parte bastante numerosa da população urbana".

Portanto, esta população urbana enfrentava a difícil tarefa de realocação social no campo laboral, sobretudo tendo em conta as suas origens culturais: "A esmagadora maioria deles foi privada de educação formal, tendo sido forçados a deixar a escola e a juntar-se à Revolução Cultural (o que incluía, para a maioria, um período prolongado no campo), durante mais ou menos uma década depois de 1966, e vendo-se assim desprovidos de qualquer capacitação”.

Estes processos, que atingiram o auge nos anos 90, foram o resultado direto do que acontecera na China no final da década de 1980. Em outubro de 1983, o Diário do Povo escrevia que os trabalhadores não tinham de que queixar-se: a recessão que tinha tomado conta do mundo capitalista no início da década de 1980 deu às autoridades chinesas a oportunidade de lembrar aos trabalhadores do país que estavam em melhor situação do que jamais haviam estado, assinalando o elevado desemprego do Ocidente como prova da "superioridade do socialismo".

A direção chinesa considerou este o momento de proclamar os seus êxitos: como escreve Jackie Sheehan no seu livro Chinese Workers: A New History(Londres, NuevaYork, 1998), tratava-se de uma situação em que "alguns trabalhadores já estavam notando os benefícios do aumento salarial e das bonificações, de acordo com as reformas, e todos esperavam beneficiar num futuro próximo".

Mas estas expectativas acabaram por ser desmentidas pela realidade, porque estavam a começar a aparecer sinais de patente injustiça: "Havia muito pouca aceitação entre os trabalhadores da ideia de Deng Xiaoping de que tudo ficaria bem se 'alguns enriquecessem primeiro'; eles consideravam isso simplesmente como uma injustiça distributiva ". Além disso, "muitos trabalhadores sentiam-se profundamente ofendidos mesmo por diferenças salariais que não seriam consideradas muito grandes de acordo com os critérios ocidentais, que eram vistas, no entanto, como injustas [...]. Um ressentimento particularmente acentuado foi o que provocou a brecha cada vez maior entre os bónus pagos aos trabalhadores e as que recebiam os gestores superiores das empresas, que em alguns casos poderiam ser vinte a trinta vezes maiores do que o pagamento equivalente aos trabalhadores. "


Depois de os trabalhadores expressarem a sua solidariedade com os estudantes, as tensões começaram a borbulhar na panela de pressão que foi a China em 1989

No entanto, o efeito negativo das reformas sobre as relações entre os trabalhadores e a gestão depressa se estenderia "para além das disputas sobre o aumento da desigualdade de rendimento, por mais grave que esta fosse".

Numa época em que se exigia cada vez mais eficiência aos trabalhadores, durante as horas frenéticas de maio e junho de 1989, "as deficiências de gestão tornaram-se num significativo pomo da discórdia de um modo que nunca tinha acontecido antes", escreve Sheehan, uma questão que o próprio Deng repetidamente enfatizou. Depois de expressarem a sua solidariedade com os estudantes, as tensões começaram a borbulhar na panela de pressão que foi a China em 1989.

A 'agitação' e o resultado final

Neste contexto, a presença dos estudantes na Praça Tiananmen começou a causar grande preocupação para o Partido Comunista, com medo de voltar ao período de domínio das multidões durante os dias da Revolução Cultural.


A presença dos estudantes na Praça Tiananmen começou a causar grande preocupação para o Partido Comunista, com medo de voltar ao período de domínio das multidões durante os dias da Revolução Cultural

O próprio Deng expressou a crescente sensação de irritação, afirmando numa reunião do Partido no final de abril que "não se trata de um movimento estudantil comum. Trata-se de agitação ".

O mesmo termo seria usado no artigo de opinião do Diário do Povopublicado em 26 de abril, que condenava claramente os protestos estudantis. Foi este o momento em que se deteriorou sem remédio a relação entre o Partido Comunista e os que protestavam.

A partir desse momento, Deng trabalharia juntamente com o Comité Permanente até à dramática votação sobre a declaração do estado de sítio (que só seria revogada em 1990). Na sua crónica da China, datada de 20 de julho de 1989, publicada no The New York Review of Books, Roderick MacFarquhar escreveu, "dividido no topo, o Partido Comunista Chinês não podia mais lidar com as múltiplas pressões que sofria e partiu-se. Enquanto que o primeiro-ministro Li Peng agiu como um líder severo como uma espécie de testa de ferro, fica claro que as decisões não foram tomadas em última instância, pelo Conselho de Estado, ou pelo Politburo, nem sequer pelos cinco homens do Comité Permanente mas por um duunvirato encarregado pela Comissão de Assuntos Militares, Deng Xiaoping e o Presidente Yang Shangkun, apoiados por um grupo de revolucionários virulentos e idosos."

A votação da declaração da lei marcial foi um claro exemplo do funcionamento do mecanismo que tinha sido estabelecido: em resumo, Zhao Ziyang foi o único a favor de ouvir os estudantes, incluindo apoiar algo como uma "retratação" do artigo de 26 abril (uma ideia que foi rejeitada de forma clamorosa por Bo Yibo, um dos "oito imortais" e pai de Bo Xilai, recentemente famoso).

Entre 26 e 27 de abril, o Comité Permanente do Politburo reuniu para votar a proposta de declaração do estado de sítio.

Os cinco membros votaram da seguinte forma: Li Peng e Yao Yilin votaram a favor, Zhao Ziyang votou contra e Qiao Shi absteve-se. Naquela época, a iniciativa passou para os oito imortais: não havia como voltar atrás.

Como se afirma no Tiananmen Papers, “na manhã de 18 de maio, os oito anciãos Deng Xiaoping, Chen Yun, Li Xiannian, Peng Zhen, Deng Yingchao, Yang Shangkun, Bo Yibo e Wang Zhen reuniram-se com os membros do Comité Permanente do Politburo Li Peng, Qiao Shi, Hu Qili e Yao Yilin, e os membros da Comissão dos Assuntos militares, general Hong Xuezhi, Liu Huaqing e general Qin Jiwei, e concordaram em declarar formalmente o estado de sítio em Beijing".

O secretário-geral Zhao não compareceu a essa reunião e pouco depois foi expulso do cargo. Antes de ser colocado em prisão domiciliária, situação em que permaneceu até à sua morte em 2005, a 19 de maio às quatro da manhã, Zhao foi à praça e encontrou-se com os estudantes. Acompanhado pelo diretor do Departamento Central do Partido, Wen Jiabao (que seria mais tarde primeiro-ministro da República Popular da China, entre 2002 e 2012), Zhao disse aos estudantes: "Viemos demasiado tarde" (ver vídeo abaixo)

Antes, a 18 de maio, "Li Peng e outros funcionários do governo reuniram no Grande Salão do Povo com Wang Dan, Wuerkaixi e outros representantes estudantis. Li disse que ninguém declarou que a maioria dos estudantes estava envolvida em agitação, mas que, com muita frequência, pessoas sem intenção de criar agitação o que de facto tinham conseguido era provocá-la. Manteve-se firme em relação ao editorial de 26 de abril e afirmou que o momento atual não era apropriado para debater as duas reivindicações dos estudantes. Wang Dan tinha declarado que a única maneira de tirar os estudantes de Tiananmen era reclassificar o movimento estudantil como patriótico e transmitir em direto na televisão o diálogo entre os estudantes e a direção."


Não havia espaço para um compromisso: a decisão de "limpar a praça" veio diretamente de Deng Xiaoping e o "massacre de Beijing" aconteceu na noite de 3 para 4 de Junho

Não havia espaço para um compromisso: a decisão de "limpar a praça" veio diretamente de Deng Xiaoping e o "massacre de Beijing" aconteceu na noite de 3 para 4 de Junho.

Foi uma época em que as pessoas eram literalmente caçadas nas ruas da China. Enquanto isso, na sala do fundo do Partido Comunista, uma ideia clara tomava forma: não deveríamos permitir que o que acabara de se passar voltasse a acontecer de novo.

Texto de Simone Pieranni, publicado originalmente em il manifesto global. Traduzido por Lucas Antón para Sin Permiso, traduzido do espanhol por Carlos Santos

Simone Pieranni é licenciado en Ciências Políticas e jornalista especializado en China



*Publicado originalmente em esquerda.net


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