Poder e Contrapoder

China desafia o poder do dinheiro

 

14/09/2021 09:46

Xi Jinping (Andy Wong/AP)

Créditos da foto: Xi Jinping (Andy Wong/AP)

 
A China foi a nação que melhor soube aproveitar o processo de globalização capitalista a submeter o Estado à força das grandes corporações transnacionais desde o final do século passado. Decorrido mais de quatro décadas de espetacular progresso material, a Revolução chinesa encontra o grandioso desafio irradiado pela invasão do dinheiro ameaça se impor como absoluto no interior da sociedade que se encontra em transição para a Era Digital.

Tal com alertara M. Weber, o triunfo do espírito capitalismo ocidental transcorreu simultaneamente ao declínio da ética protestante, dissolvendo as estruturas das sociedades pretéritas (A ética protestante e o espíritos do capitalismo). Assim, a dominação do dinheiro se estabeleceu por meio de sua metamorfose de meio na organização da produção ao consumo para a de fim na organização da produção para a acumulação de capital.

Sob essa condição, o dinheiro assumiu a função de onipotência no interior das sociedades capitalistas, permitindo que a abundância por parte minoritária dos seus detentores expressasse vontades e poderes de natureza infinita sobre o conjunto dos demais que nada ou pouco possuam. Isso porque o dinheiro se converte em mercadoria que fundamenta o funcionamento da própria sociedade (A filosofia do dinheiro, G. Simmel).

Diante dessa perspectiva histórica que os atuais condutores da Revolução chinesa se reposicionam. Uma verdadeira onda de reformas vem sendo postas em prática desde 2018, quando parlamento chinês alterou a Constituição. Sem mais limitar o tempo para o exercício do mandato presidencial, a China validou o sistema político próprio que não se enquadra nas experiências nacionais do capitalismo ocidental assentado na poliarquia ou na plutocracia[1].

A passagem para a Era Digital implica o aparecimento de novas desigualdades que se diferenciam das tradicionais vinculadas à concentração da riqueza na forma da propriedade, mais do que nos ativos financeiros revelada atualmente no capitalismo ocidental. Diante dessa singularidade e complexidade que o Estado chinês tem sido reforçado, buscando valorizar e confirmar o futuro do socialismo com características daquela nação.

A começar pelo reconhecimento de que a História milenar da China é a de vanguarda material conduzida pelo atuante Estado em combinação com o racionalismo mercantil. Mas foi com a emergência do capitalismo ocidental imposto pelo triunfo da tríade inglesa da revolução tecnológica, supremacia militar e do padrão monetário libra-ouro que o atraso forçado se estabeleceu no século 19 pela guerra do ópio no antigo Império do Meio (o século da humilhação).

Diferentemente da experiência de socialismo soviético que procurou inaugurar o modelo de sociedade oposto ao capitalismo, a China tem procurado aproveitar as próprias veias abertas pela globalização para comprovar a competitiva e efetiva superioridade de uma grandiosa sociedade socialista em pleno século 21. Mas ao se interpenetrar no mundo do capital, contradições apareceram, como a própria expansão desordenada e o risco da autonomização do dinheiro contaminado pela associação ao sistema financeiro internacional e às operações descontroladas de criptomoedas no interior da sociedade chinesa.

Confirmada a quase profética afirmação de Deng Xiaoping de que “alguns ficariam ricos primeiro”, o Estado chinês passou a se reorientar em direção ao ajustamento tanto da cobiça individual por excessivos rendimentos como do compromisso comum por parte de suas grandes empresas para o conjunto da sociedade. Somente nas primeiras duas décadas do século 21, por exemplo, o peso relativo de apenas 1% mais rico no total da riqueza da China subiu 46,4%, alcançando em 2020, a 30,6% ante 58,2% na Rússia e 49,6% no Brasil, segundo o Credit Suisse (Global Wealth Report).

Sob o lema da prosperidade comum, o Estado chinês se redireciona, implementando inéditas políticas que melhor atuem diretamente no sistema de tributação, previdência, educação, habitação, saúde e transferências de renda, bem como nos negócios especulativos, ilegais e fontes de corrupção. O enriquecimento validado pela inovação, dinamismo produtivo e ocupacional, com pagamento de impostos permitiria combater a desigualdade distributiva e ampliar o papel das políticas públicas, sem desafiar o Estado chinês que atuaria em nome da defesa dos direitos das maiorias.

Para tanto, a ênfase na atuação regulatória sobre o modelo de monopólio privado associado aos negócios de alta tecnologia que permitiria enquadrar os donos das grandes empresas chinesas (Alibaba, Ant Group, Tencent, Meituan, Didi Chuxing, Baidu, Huawei, Lenovo, Xiaomi e outras). Mas diferentemente da perspectiva maoista, ganhou expressão a busca de outro patamar de convivência com a riqueza privada socialmente justificada no interior da sociedade, sobretudo na passagem atual para a Era Digital. Nesse sentido, o reforço do papel do Estado que garanta ao exercício político a capacidade de subordinar os interesses do conjunto da economia (sobretudo dos ricos) à condição de meio necessário para elevar o bem-estar do conjunto da sociedade.

O formato de azeitona (diminuta nas extremidades e ampla no meio) expressaria a figura imaginária de uma estrutura social chinesa almejada para o sistema socialista de produção e distribuição da riqueza. Após vencer a pobreza gerada na antiga Era Industrial, a verdadeira onda de reformas visa desviar as novas desigualdades que emergem do modelo ocidental de negócios gerado no capitalismo ocidental em pleno ingresso na Era Digital.

Assim, as empresas de tecnologia e mídia chinesas deixam de transformar a multiplicidade de dados dos usuários em mercadoria, impossibilitados que foram de aprisioner diálogos e formas de pagamentos entre as plataformas, tendo de compartilhá-los com o Estado. Ao tratar do enfrentamento das desigualdades como se produzem e reproduzem no capitalismo ocidental, o Estado chinês passou a atuar sobre excessivos vícios difundidos por jogos online e redes sociais (cyberbullying, boatos e fake news), regulando o tempo em torno da valorização da vida coletiva e da sociabilidade humana distante da onipotência do dinheiro e da busca exclusiva do lucro.

Marcio Pochmann é professor e pesquisador do Cesit/Unicamp e da Ufabc.
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[1]. Mais detalhes em: SCHUMPETER, J. Capitalismo, socialismo e democracia, 1984; DAHL, R. Poliarquia, 2012.



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