Poder e Contrapoder

China e Estados Unidos medem forças no sudeste asiático

As duas potências aumentaram os cortejos com os países da zona à medida que crescem as tensões bilaterais

01/11/2020 14:43

O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, fala com o primeiro-ministro cambojano Hun Sen durante a assinatura de um acordo em Phnom Penh no dia 12 (Heng Sinith/AP)

Créditos da foto: O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, fala com o primeiro-ministro cambojano Hun Sen durante a assinatura de um acordo em Phnom Penh no dia 12 (Heng Sinith/AP)

 
No tabuleiro que é a Ásia-Pacífico, a partida que a China e os EUA disputam adquire cada vez mais um caráter amargo. As tensões crescem entre Pequim e Taipei, para quem os EUA vão vender novas remessas de armamentos avançados. A China acelera a modernização dos seus portos e os EUA a acusam de criar um “império marítimo”. Os aliados de Washington reunidos no chamado Quadrilátero Austrália-Japão-Índia-Estados Unidos reativam essa associação informal de segurança; Pequim a descreve como um “risco” para a região. Em um clima de crescente hostilidade, as nações do sudeste asiático são peças chave nesse xadrez geoestratégico. Com visitas de alto nível, telefonemas e promessas de ajuda, parecem tão cortejadas como nunca, mas tão relutantes como sempre em se estabelecer decisivamente de um lado ou de outro.

 Enquanto cresce a tensão ao entorno de Taiwan, e esse ano as duas potências aumentaram seus desentendimentos no mar do sul da China, os dois países iniciaram uma atividade diplomática intensa na região. O secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, concluiu recentemente uma viagem pelo sul e sudeste asiáticos que o levaram para a Índia, Sri Lanka e Indonésia e, no último momento, para o Vietnã, uma das peças chave nessa partida na região. Na Índia estabeleceram um acordo de cooperação militar, uma das grandes conquistas que estão levando dessa viagem que, ao sair de Washington, afirmava que abordaria “como os países livres podem colaborar para neutralizar as ameaças que o Partido Comunista da China cria”.

Foi sua segunda visita à região em menos de um mês, depois de ter viajado para Tóquio para se reunir com os membros do Quad em uma viagem que teve que ser interrompida depois do anúncio de que o presidente Donald Trump havia contraído covid-19.

Os Estados Unidos, que no verão declararam como “ilegais” as reivindicações marítimas da China à essas águas, voltaram mais forte esse ano com promessas de cooperação, dentro de sua própria “ofensiva de sedução”. Em setembro, propuseram a Associação EUA-Mekong com os países ribeirinhos desse rio, para desenvolver projetos de assistência desde a luta contra a pandemia até paliativos contra a seca.

Por sua parte, Pequim também lançou sua própria ofensiva de sedução. Dias antes da chegada de Pompeo na zona, o ministro das Relações Exteriores chinês, Wang Yi, encerrou sua viagem por quatro países da região – Tailândia, Camboja, Laos e Malásia – para abordar a cooperação econômica e reforçar as relações abaladas pela pandemia de covid-19.

Durante sua visita, Wang renovou as promessas do seu país de fornecer vacinas contra o coronavírus a essas nações quando o remédio ficar pronto, e fez valer a imagem da China como principal investidora e sócia comercial. Também sugeriu aos países que permanecessem “vigilantes” ao que considera como sendo tentativas dos EUA de atiçar a competição geopolítica na zona.

Antes dele, o ministro da Defesa já havia percorrido a região. O próprio presidente chinês, Xi Jiping, já havia viajado a Mianmar (antiga Birmânia) em janeiro, sua única ida ao exterior nesse ano de pandemia.

“O foco de Pequim em fortalecer relações com o sudeste asiático mostra certa urgência devido à deterioração dos laços com os EUA e outros sócios importantes. Até certo ponto, pode-se chamar de ‘ofensiva de sedução’ lançada pela China para cortejar o sudeste asiático”, escreve Lye Liang Fook, coordenador do programa de estudos de segurança regional do ISEAS, no blog Perspective da organização. O objetivo final seria impedir que esses países – “cada vez mais preocupados com as ações assertivas, também agressivas, da China no mar do sul da China” – “se inclinem para perto dos Estados Unidos”.

Contudo, esse país tampouco se percebe como um aliado inquebrantável. À sua gestão caótica da pandemia foram somadas as dúvidas, durante a administração Trump, se seriam demonstrados a capacidade e o desejo de responder militarmente à China com rapidez em defesa de seus sócios na região, se fosse necessário.

Nessa briga de elefantes, a dezena de países do sudeste asiático – tendo em vista as abundantes disparidades internas de um grupo que inclui democracias como a Indonésia e regimes autoritários como o Laos e o Camboja -, têm algo unanimemente claro: não querem ser o pasto. A China representa, para a maioria deles, não somente um vizinho que lança uma enorme sombra e com quem alguns mantêm disputas por soberania. É, também, sua principal sócia econômica, com quem negociam cerca de 600.000 milhões de dólares de comércio ao ano. Para muitos, por outro lado, os EUA são seu grande defensor militar.

Uma pesquisa anual do Instituto de Estudos sobre o sudeste asiático (ISEAS) na Cingapura, elaborada entre líderes de opinião da região, descobriu em janeiro que 79% consideram a China a maior influência econômica na zona. 52% também acreditam nisso no âmbito político. E mesmo salientando que não desejam ter que escolher entre as duas potências, se tivessem que se alinhar 54% escolheriam os EUA; 46% escolheriam a China, que considera a região sua área natural de influência.

“No sudeste asiático o que mais preocupa é que os EUA e a China se enfrentem e que isso torne suas vidas muito mais difíceis. Mesmo que provavelmente não chegue a uma guerra ‘quente’, poderiam acontecer acidentes, e com toda certeza causariam problemas econômicos”, explica Murray Hiebert, do laboratório de ideias CSIS e autor do livro “Under Beijing’s Shadow: Southeast Asia China’s Challenge” (Sob a sombra de Pequim: o desafio da China no sudoeste asiático).

Contudo, a imagem das potências foi abalada nos últimos anos. Os países da Associação de Nações do Sudeste Asiático lamentam que o presidente estadunidense, Donald Trump, apenas tenha assistido às cimeiras anuais na região, como fizeram seus predecessores. No caso da China, o que preocupa é a sua crescente assertividade nas disputas territoriais no mar do sul da China – às reclamações do Vietnã e das Filipinas, esse ano somaram-se as da Indonésia devido a incursão de barcos chineses nas proximidades das suas ilhas Natuna. Também, projetos da nova Rota da Seda da China que não param de levantar voo, ou o controle que Pequim pode exercer, por meio de sua rede de represas, sobre o fluxo das águas de Mekong, vitais para nações como Vietnã ou Camboja. Esse ano, a gestão da covid foi somada a essas reticências.

“O dinheiro fala e apresenta um dilema. Os projetos da China cobrem algumas das necessidades que os países da zona têm, mas não são isentos de custos. A China impõe condições” pela sua colaboração, apontou recentemente Sun Yun, diretora do programa para a China do Centro Stimson de estudos.

Para que os países mantenham sua desejada equidistância, a fórmula que os experts recomendam é uma maior colaboração interna na região, atormentada por disputas internas como enfrentam a Malásia e o Vietnã por questões pesqueiras.

Até agora, aponta Hiebert, “é cada um por si nas suas relações com a China. Mas se colaborassem, creio que poderiam responder à China com muito mais força no mar do sul da China e no continente. Se se mantiverem unidas, poderiam prevenir o que parece ser uma situação hegemônica inevitável dentro de 20, 30 anos”.

O JAPÃO TAMBÉM SE APROXIMA

O Japão não está alheio a esse interesse na região. O novo chefe do governo japonês, Yoshihide Suga, inaugurou sua primeira viagem como primeiro-ministro; rompendo com a tradição, que o obrigava a viajar para Washington, optou por viajar para o sudeste asiático, uma zona que Tóquio tem na mira como possível destino nas suas tentativas de diversificar suas cadeias de distribuição para torna-las menos dependentes da China. No Vietnã, o país presidente do ASEAN, Suga falou de cooperação na Defesa. Trouxe um acordo de fornecimento de equipamentos e tecnologia militar. Na Indonésia, a maior economia da área, abordou a colaboração para o desenvolvimento. Ofereceu empréstimos a juros baixos para a luta contra a covid.

*Publicado originalmente em 'El País' | Tradução de Isabela Palhares

Conteúdo Relacionado