Poder e Contrapoder

China e Estados Unidos, rivais ou inimigos?

 

18/08/2019 11:42

 

 
Há um mês, o general Mark A. Milley afirmou que a China será o principal rival dos Estados Unidos durante os próximos 50 ou 100 anos. A declaração surgiu em reunião com o Comitê de Serviços Armados do Senado, na qual se apresentou como o candidato de Trump para ser o ‎próximo chefe do Estado Maior Conjunto dos Estados Unidos, o oficial militar de maior patente das Forças Armadas e principal assessor militar do presidente. Milley foi cuidadoso em definir a China não como “inimigo” e sim como “competidor”, porque “o termo “inimigo” significa “estar em guerra” e, segundo ele “nós queremos a paz, e não a guerra, com a China”. O militar concluiu seu discurso dizendo que “algum historiador, em 2119, ao olhar para trás, escreverá um livro para dizer que o tema central da história deste século foi a relação entre Estados Unidos e China”.

Entretanto, qualificar o gigante asiático como um “rival” pode não ser suficiente para evitar o fim da paz, ainda mais quando a guerra comercial entre os dois países continua. Se em vez de avançar cem anos, até 2119, nós retrocedêssemos um século, as palavras vertidas pelo então presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson, em 5 de setembro de 1919, após o fim da Primeira Guerra Mundial, poderiam servir de guia para as possíveis consequências de uma guerra comercial intensificada: “se cada nação vai ser nossa rival (…) se dizemos: `estamos neste mundo para viver sozinhos e para obter o que possamos dele através de qualquer maneira egoísta (…) o que teremos no final? Paz? Mas, meus concidadãos, há algum homem aqui, ou alguma mulher, e digo até alguma criança aqui que não sabe que a semente da guerra no mundo moderno é a rivalidade industrial e comercial?”.

Wilson batalhava para que seu país apoiasse seu projeto de Liga das Nações, que considerava vital para trazer a paz ao mundo, a partir de sua perspectiva liberal. Não seria o caso; já que o Senado o rejeitaria. No entanto, depois da Segunda Guerra Mundial, ele seria retomado, com o nome de Organização das Nações Unidas (ONU). Seria o início do que se entende como a proposta da Ordem Liberal que Estados Unidos ofereceria ao mundo como alternativa ao modelo soviético. A queda da União Soviética, em 1991, marcaria o triunfo e a consagração desse modelo liberal. Mas os Estados Unidos continuaram procurando um rival-inimigo: “a desaparição da União Soviética deixou um grande vazio. A `guerra contra o terror´ foi uma opção adequada em seu momento, mas a China se encaixa muito melhor nos requisitos”, comentou o jornalista britânico Martin Wolf, em artigo publicado no Financial Times, no dia 4 de junho passado, com o título “O iminente conflito de 100 anos entre Estados Unidos e China”.

Neste momento, o atual presidente Donald Trump é visto como quem mais está atuando para desmantelar essa ordem liberal, que festejou seu triunfo há três décadas. Contra o alerta de Wilson, Trump procura reformar o mundo atropelando qualquer obstáculo em sua cruzada egoísta cujo único conteúdo é o slogan “América Primeiro”. Enquanto isso, a oposição só enxerga nessa pretensão o conflito econômico-comercial que está sendo gerado com a China, em um cenário geopolítico mais profundo, que também tem a Rússia como rival do país norte-americano.

Recentemente, a revista The Economist destacou que China e Rússia vêm aprofundando laços, graças à sua rivalidade em comum com os Estados Unidos. O recente encontro destas duas nações cuja rivalidade entre si foi uma das chaves para o fim da União Soviética, quando Richard Nixon e Mao Tsé-Tung retomaram relações, em 1971, é produto do surgimento de uma nova Guerra Fria, segundo o entendimento do escritor e acadêmico britânico Peter Conradi, e vários outros autores. Por isso, ele afirma que “assim como os Estados Unidos se convulsionou com a pergunta de `quem perdeu a China?´ (como aliada), depois da vitória do presidente Mao sobre os nacionalistas em 1949, agora devemos nos perguntar `quem perdeu a Rússia?´”.

A The Economist afirma que “há diferenças cruciais entre o ressentimento de hoje e o combate mortal do passado. Uma delas é que a Guerra Fria foi uma luta na qual um dos modelos terminaria sendo o futuro para o mundo. A confrontação de hoje rechaça a ideia de qualquer futuro singular. Rússia e China justificam seu autoritarismo com base na diferença civilizatória. Não afirmam que seus valores são universais; não aceitam os valores ocidentais como tais”. Efetivamente, a Rússia e a China não proclamam suas civilizações como as portadoras de valores universais da humanidade, mas sim como os valores próprios. Por isso mesmo, questionam que os valores da civilização ocidental queiram ser universais. Por isso, segundo as visões de ambos os países, o adjetivo “autoritárias”, usado pela The Economist para denominar essas sociedades, constitui uma forma hipócrita de querer impor sua verdade sobre eles.

Por exemplo, depois da última matança provocada por quem se identificou como parte da supremacia branca, a China Radio International afirmou: “os Estados Unidos utilizaram os direitos humanos, durante muito tempo, como um meio para pressionar os outros países. Sempre que não estão satisfeitos com algum país, eles publicam um informe sobre os direitos humanos desse país. Entretanto, deveria refletir sobre sua própria situação com relação aos direitos humanos, antes de criticar os outros países. Para muitos estadunidenses não brancos, o chamado `sonho americano´ é, na verdade, um `pesadelo estadunidense´, já que a supremacia branca e a incitação ao ódio se tornaram tão importantes no país”.

Em outro exemplo, no mês de abril, o canal Russia Today contestou a revista Time por sua reportagem “O outro complô da Rússia”, afirmando que “aparentemente, se trata da construção impulsada pela Rússia de uma espécie de ‘império de estados amorais’, em todo o mundo. Mas, na verdade, esta ideia maluca não passa de uma propaganda audaz da política exterior dos Estados Unidos, a favor de suas guerras para mudar regimes”. Mais recentemente, o canal denunciou a imprensa ocidental por sua xenofobia, mencionando um “artigo recente do The New York Times que afirmou que a corrupção está no DNA russo, e que a solidariedade “não faz parte do jeito russo de fazer as coisas”. Antes disso, James Clapper, ex-diretor de Inteligência Nacional dos Estados Unidos, disse em entrevista ao canal NBC que os russos foram “criados geneticamente para mentir e enganar”.

A ideia de ter “perdido a Rússia” também faz referência ao fato de que, após o fim da União Soviética, o país viveu um encantamento com o Ocidente, graças ao governo de Boris Yeltsin, em projeto que foi liderado pelo chanceler Andrei Kozyrev. Nos Anos 90, a Rússia passou a aceitar as instituições ocidentais e as recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) e dos Estados Unidos, para se transformar em uma “economia de mercado”. Porém, também pensava que seria incluída em seus pactos internacionais, como a Organização do Tratado do Pacífico Norte (OTAN) e a União Europeia. Ao experimentar sucessivas rejeições, o próprio Kozyrev anunciou o fim da lua de mel com o Ocidente. Após a crise de 1998, seu sucessor Yevgeny Primakov, retomou uma visão geopolítica baseada na política externa e anunciou o interesse em se aproximar da China e da Índia. Naquele mesmo ano, entrou em cena politicamente a figura de Vladimir Putin, em um cenário no qual o PIB russo mostrava uma redução de 71% com relação a 1992, a taxa de mortalidade se disparou e a população total perdeu 6 milhões em apenas 10 anos – grande parte, pessoas que viviam abaixo da linha da pobreza. A Rússia, naquele então, passou a considerar que, apesar dos seus desejos, o Ocidente não tinha interesse em incorporá-la, e assumiu uma postura antiocidental. A expansão da União Europeia e da OTAN, incorporando vizinhos que formavam parte da União Soviética, ao mesmo tempo que a excluía, foi entendida como um plano ocidental para asfixiar o país.

Para a The Economist, a fortaleza da aliança sino-russa é colocada em dúvida pelo histórico desejo russo – surgido no tempo do czar Pedro “o Grande”, no Século XVII –de pertencer ao mundo ocidental, e se diferenciar da China. É preciso, portanto, observar o ímpeto dessa identificação não-ocidental entre ambos. Principalmente, porque, como a publicação destaca, existe uma grande diferença em termo de poder econômico, em favor da China. Além disso, o projeto chinês da Nova Rota da Seda estende sua zona de influência sobre a Ásia Central, o que a The Economist classifica como um “tradicional quintal russo”.

Por isso, a reportagem aposta na teoria de que esse caráter subalterno, de “sócio júnior” do projeto, cedo ou tarde levará a Rússia a olhar novamente para o oeste, e acredita que, nessa hora, quem for o presidente dos Estados Unidos deverá emular o que fez Nixon em 1971, quando retomou as relações com Mao, que estavam quebradas após a Revolução Comunista de 1949, e viajou a Pequem para dar um golpe fundamental contra a União Soviética. Neste caso, segundo a The Economist, o presidente dos Estados Unidos deveria viajar a Moscou…

Seria a repetição de uma jugada geopolítica que foi triunfal, mas que não teve nenhuma relação com os valores liberais civilizatórios. Entretanto, na opinião de Wolf, seria um passo lógico por parte de quem está vendo a China cada vez más como “inimigo”, e não mais como “rival”, no cenário do comércio liberal. Por isso, o jornalista conclui que “a ideologia da China não é uma ameaça para a democracia liberal, como foi a da União Soviética. Os demagogos de direita são muito mais perigosos”.

Andrés Ferrari Haines é professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul

*Publicado originalmente no Página/12 | Tradução de Victor Farinelli





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