Poder e Contrapoder

China gera energia na Argentina e desperta debate

Como faz em outros países da América Latina, a China também tem se transformado em um investidor que pisa forte na Argentina nos últimos anos. Entretanto, o impacto ambiental e os benefícios sobre a economia trazidos por essa empreitada são objeto de discussão entres os cidadãos locais

31/05/2018 15:38

 

 
Por Daniel Gutman, do IPS

Como faz em outros países da América Latina, a China também tem se transformado em um investidor que pisa forte na Argentina nos últimos anos. Entretanto, o impacto ambiental e os benefícios sobre a economia trazidos por essa empreitada são objeto de discussão entres os cidadãos locais. A questão energética é uma das chaves da dinâmica do mundo moderno, e um estudo da organização não governamental FARN (Fundação Ambiente e Recursos Naturais) afirma que o financiamento chinês sustenta fundamentalmente projetos hidroelétricos, nucleares ou de hidrocarbonetos.

Por outro lado, apenas 4% desses investimentos são em energias renováveis, justamente o setor onde a Argentina enfrenta um visível atraso.

“O grande objetivo da China é exportar sua tecnologia e suas mercadorias. E para isso o país conta com um enorme desenvolvimento a nível hidráulico, nuclear e petroleiro. Já não tem mais rios onde possam construir represas em seu território, e por isso estão tão interessados nas represas sobre o rio Santa Cruz”, disse à agência IPS a diretora de investigação da FARN, María Marta Di Paola.

“O que no passado era fruto das pressões dos Estados Unidos hoje é parte da ofensiva da China. As represas são um claro exemplo de como essa pressão econômica pode deixar em segundo plano a soberania ambiental de uma nação”, afirma Hernán Casañas, diretor da Associação Ornitológica Aves Argentinas.

Efetivamente, a China está por trás de um controverso projeto para construir duas gigantescas represas na Patagônia, sobre o rio Santa Cruz. A decisão foi tomada durante o governo de Cristina Kirchner (2007-2015) e ratificada pelo presidente Mauricio Macri, apesar dos fortes questionamentos ambientais.

Se trata de uma obra de quase 5 bilhões de dólares, que prevê uma potência de 1,3 mil megawatts (MW).

Entretanto, para o especialista Gustavo Girado não é o gigante asiático o gigante asiático que está desperdiçando a chance de se envolver com projetos de energias renováveis, e sim a Argentina, que ainda não resolveu apostar decididamente pela transição da matriz energética a fontes renováveis, limpas e não convencionais.

“Como qualquer país com muito capital, a China está interessada em todos os negócios possíveis e toma aquilo que oferecem a ela. Aliás, os chineses também estão na Argentina com uma participação importante no Plano RenovAr”, explicou Girado, economista e diretor de uma pós-graduação sobre a China contemporânea na Universidade Nacional de Lanús (pública), com sede em Buenos Aires.

O Plano RenovAr é uma iniciativa lançada pelo governo argentino com o objetivo de desenvolver as energias renováveis e reverter o cenário atual, no qual 87% da matriz primária do país está composta por combustíveis fósseis.

Nesse projeto também participam empresas chinesas, que, durante o período entre janeiro e setembro de 2017, produziram 25% do petróleo e 14% do total de gás natural extraído no país.

Desde 2016, o Ministério de Energia assinou 147 contratos para empreendimentos de energias renováveis, que trouxeram um total de 4,6 mil MW ao sistema elétrico, a maioria deles solares e eólicos, que através de plantas que atualmente estão em desenvolvimento.

O objetivo é cumprir com a lei sancionada em 2015, que estabelece o ano de 2025 para que as energias renováveis sejam ao menos 20% da eletricidade distribuída pelo sistema elétrico.

Nesse sentido, 15% da potência requerida pelo Plano RenovAr é financiada através de capitais chineses, com destaque para o parque solar de Caucharí, na província de Jujuy (noroeste do país), o qual, segundo se informou, consiste na instalação de 1,2 milhão de painéis solares construídos na China em um terreno de 700 hectares.

O projeto tem um orçamento de 390 milhões de dólares, dos quais 330 serão financiados pelo banco estatal chinês Eximbank.

A China também aparece por trás da pretensão argentina de desenvolver sua força em termos de energia nuclear, já que houve um acordo em 2017 para financiar a quarta e a quinta central atômica deste país sul-americano, a um custo total de 14 bilhões de dólares.

Contudo, a administração de Macri anunciou neste mês de maio que adiará o começo da construção da primeira dessas centrais, ainda sem uma nova data definida, com o objetivo de não gerar um maior endividamento de país e reduzir o já elevado déficit fiscal A decisão está orientada a facilitar a entrega de um crédito do Fundo Monetário Internacional (FMI), após a crise de confiança que derivou numa massiva fuga de capitais, colocando a economia local em grave risco.

Por outra parte, continuam avançando outros projetos com financiamento chinês, que incluem quatro centrais hidroelétricas e plantas térmicas alimentadas a gás natural.

Até agora, os investimentos acumulados já comprometidos por Pequim na área de energia para a Argentina, que é a terceira maior economia latino-americana, totalizam 30 bilhões de dólares, aos quais devem ser agregados os recursos multimilionários para projetos em outras áreas, como infraestrutura, agroindústria e mineração.

“Os chineses olham primeiro para o seu continente, depois para a África, e só há alguns anos começaram a querer ver mais de perto a América Latina. Desde o começo dessa aproximação, eles se interessaram pelos produtos agrícolas e minerais, e hoje não só já são o segundo maior sócio comercial da região como também um ótimo e desejável investidor”, comentou à agência IPS Jorge Taiana, chanceler argentino entre 2005 e 2010.

Taiana, diplomata argentino de longa trajetória recordou uma indicação do então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, durante a Cúpula das Américas, celebrada em 2005 na cidade argentina de Mar del Plata – o histórico evento no qual a região rechaçou a conformação da Área de Livre de Comércio das Américas (ALCA). “Ele nos disse: `não sei por que se preocupam tanto pela ALCA, quando o que nós temos que discutir é como nos defendemos da China´”, citou.

O ex-chanceler sustenta que depende das decisões da Argentina e dos demais países da região a possibilidade de tirar proveito ou de ser vítimas da agressiva expansão econômica chinesa. “O investimento estrangeiro direto sempre é positivo. O segredo está nas condições impostas e em qual o plano de desenvolvimento isso está inserido”, afirmou.

“A Argentina, por exemplo, construiu suas ferrovias com capitais ingleses e todas as vias confluem em Buenos Aires, porque para eles só interessava facilitar a chegada dos produtos agrícolas ao porto. Esses são os erros que não devem se repetir”, agregou.

As organizações ambientais são particularmente críticas a respeito das represas sobre o rio Santa Cruz, já que este nasce no magnífico Parque Nacional Los Glaciares e a obra poderia afetar os níveis do lago Argentino, em cuja orla está a Geleira Perito Moreno, uma das maiores atrações turísticas do país.

Entretanto, o contrato das represas tem uma cláusula que determina que no caso de a obra não ser construída os bancos chineses poderão cortar o financiamento de outras obras de infraestrutura, como as ferrovias que estão sendo construídas na Argentina.

Nesse sentido, María Marta Di Paola, diretora da FARN, afirma que “a China está entrando na América Latina e tentando ocupar o lugar que antes era primordialmente das instituições financeiras tradicionais, como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. O problema é que, dessa forma, estão iniciando obras de infraestrutura que não cumprem com as normas de proteção ambiental”.

Já o economista Gustavo Girado tem outra visão. Ele diz que “os organismos de crédito impõem condições aos países que recebem os créditos, coisa que a China não faz. Portanto, os negócios que oferece são mais vantajosos para os países latino-americanos, e para a Argentina em particular”.



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