Poder e Contrapoder

Cúpula Trump-Kim expõe as fraturas no Partido Democrata

Nos Estados Unidos, os democratas e os republicanos deveriam se unir para respaldar os movimentos pela paz, que estão impulsando esta abertura diplomática

18/06/2018 09:33

 

 

A histórica cúpula entre o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder norte-coreano Kim Jong-um, em Cingapura, terminou com uma avalanche de críticas a Donald Trump, por ceder demais ao seu adversário sem obter nada em troca. “Não sei o que houve com a arte da negociação”, declarou à imprensa o senador Chris Murphy, representante democrata, em referência ao título do livro escrito por Trump em 1987, onde faz alarde de sua visão empresarial. Vários dos críticos democratas de Trump, ávidos por questionar tudo o que faz (algo que ele muitas vezes merece), parecem ser mais belicistas que os neoconservadores de linha dura. Entretanto, uma quantidade crescente de democratas progressistas está disposta a apoiar suas ações diplomáticas, com a esperança de evitar a guerra. O congressista democrata Ro Khanna, representante da Califórnia, declarou em uma entrevista para o Democracy Now!: “Imaginem se em vez de Donald Trump fosse Barack Obama que obteve este resultado. Creio que haveria uma reação positiva de praticamente todos os democratas progressistas”.

Quem não teria uma reação positiva diante da possibilidade de evitar uma guerra nuclear? Há não muito tempo, em setembro do ano passado, Trump tuitou: “acabo de escutar o ministro de Assuntos Exteriores da Coreia do Norte falando na ONU. Se repete os pensamentos do pequeno homem foguete, no estarão neste mundo por muito mais tempo!”. Em resposta às ameaças entre Trump e Kim – que Trump começou a chamar “pequeno homem foguete” –, o Boletim de Cientistas Atômicos adiantou seu Relógio do Fim do Mundo a dois minutos da meia-noite, segundo sua avaliação sobre o perigo relativo de uma guerra nuclear. Criado em 1947, o Relógio do Apocalipse só havia estado a dois minutos da meia-noite uma vez: em 1953, quando a União Soviética detonou pela primeira vez uma bomba de hidrogênio, e houve um forte incremento na corrida armamentista dos dois lados da Guerra Fria a partir da daí.

Falcões como o senador republicano Lindsey Graham, da Carolina do Sul, defenderam durante muito tempo que seu país fizesse um ataque militar contra a Coreia do Norte. No domingo passado, enquanto Trump se dirigia a Cingapura, Graham opinou: “se a diplomacia falha, a última opção seria que democratas e republicanos devem considerar a opção militar que está sobre a mesa”. Mais preocupante ainda é o recentemente nomeado assessor de segurança nacional estadunidense, John Bolton, que escreveu em fevereiro que “é perfeitamente legítimo que os Estados Unidos respondam à atual situação (das armas nucleares da Coreia do Norte) atacando primeiro”. Bolton estava invocando a doutrina de “necessidade de ataque preventivo em defesa própria”, tal como fez antes da invasão estadunidense no Iraque em 2003, baseado no falso pretexto de que Saddam Hussein possuía armas de destruição em massa.

Bruce Cumings, professor de história da Universidade de Chicago, um dos principais acadêmicos do mundo especializado em assuntos relacionados à Coreia do Norte, expressou numa entrevista para Democracy Now!: “não há nenhuma solução militar para a península coreana. Pela primeira vez em muito tempo se estabeleceu um processo de desgelo entre Pyongyang e Washington, e falar de ir à guerra se este processo não funciona é simplesmente censurável”.

O líder da minoria do Senado, Chuck Schumer, representante democrata do Nova York, escreveu uma carta ao presidente junto com outros seis senadores, exigindo que Trump mantenha posturas de negociação que, segundo a maioria dos especialistas, são simplesmente inalcançáveis. Estas incluem a desnuclearização completa, verificável e irreversível da Coreia do Norte, sem concessões comparáveis por parte dos Estados Unidos em quanto à redução de sua presença militar na península da Coreia.

O representante Ro Khanna disse: “minha discordância com a postura do senador Schumer nessa carta consiste em que ele está basicamente repetindo como papagaio os argumentos de John Bolton, de que não devemos nos envolver em nenhuma diplomacia nem fazer concessões sem uma desnuclearização completa. Isso simplesmente não é realista”. Khanna também enviou ao presidente uma carta assinada junto a outros 14 membros democratas do Congresso, que refuta os seus colegas do Senado. “Um acordo muito mais realista teria um foco gradual, onde deveríamos pedir o fim das provas nucleares e fazer concessões de forma gradual. Isso é o que considero que começou com este processo”.

Christine Ahn é a fundadora do movimento global de mulheres Women Cross DMZ (em referência à zona desmilitarizada entre Coreia do Norte e Coreia do Sul), que realiza ações para apoiar o fim da Guerra das Coreias. Já organizaram várias marchas lideradas por mulheres na zona desmilitarizada, a mais recentemente há duas semanas. Na véspera dessa marcha, a ativista declarou numa entrevista para Democracy Now!: “os povos da Coreia do Norte e da Coreia do Sul realmente querem que a paz prevaleça na península coreana. Creio que esse é o nosso papel como comunidade internacional, especialmente o dos Estados Unidos”. Na terça-feira (12/6), imediatamente depois da cúpula de Cingapura, agregou: “a paz está no ar e temos muito trabalho por fazer, especialmente como parte do movimento pela paz deste país”.

As pessoas estão se organizando desde muito antes da chegada de Trump à Presidência para chegar ao fim do estado de guerra na península coreana, que se mantém vigente há 70 anos. Não se deve esquecer a importância da eleição do atual presidente da Coreia do Sul, Moon Jae-in, para se chegar ao processo atual. Um movimento de massas tirou do poder a sua antecessora, Park Geun-hye, e elegeu Moon, um conhecido defensor da paz com a Coreia do Norte, como novo presidente. Com seu temperamento explosivo, o presidente Trump cancelou a cúpula em maio, para logo restabelecer o encontro pouco tempo depois, e poderia facilmente descarrilhar o processo de paz novamente num estalar de dedos. Nos Estados Unidos, os democratas e os republicanos deveriam se unir para respaldar os movimentos pela paz, que estão impulsando esta abertura diplomática.

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