Poder e Contrapoder

Do fracassado ''Novo Século Americano'' à nova filosofia de desenvolvimento da China

Enquanto os Estados Unidos colecionam indícios de um sério declínio, visível antes mesmo da derrota em Cabul e do vexame no Capitólio, a Chinanavega em uma curva ascendente, não isenta de problemas, mas comalgo muito mais importante: um rumo

06/09/2021 11:32

(Reprodução/RT)

Créditos da foto: (Reprodução/RT)

 
“Elogio sombrio”. Foi assim que o diário Washington Post definiu a declaração de Joe Biden no último dia de agosto, quando oficializou o fim da ocupação do Afeganistão e a classificou como “bem sucedida”. Com o discurso, o presidente estadunidense tentou salvar da imagem internacional do seu país, seriamente prejudicada após a caótica retirada do país asiático. O mundo assistiu pela televisão como o Talibã retomou o controle de Cabul, os ataques do mesmo grupo à região dominada pelo Daesh e a angústia de milhares de pessoas que tentaram deixar o território para salvar suas vidas.

O governo de Joe Biden pode ter parte da responsabilidade por essa conclusão desordenada, mas a verdade é que ele herdou a missão de finalizar uma negociação com o Talibã iniciada por Donald Trump, e uma ocupação ainda mais antiga, que começou durante a gestão de George W. Bush, há quase 20 anos. Além disso, os Estados Unidos terão que lidar com mais um cenário trágico: no dia em que se recordará o vigésimo aniversário dos Atentados de 11 de setembro, sua embaixada no Afeganistão estará ocupada pelo Talibã. Se a nova ditadura fundamentalista priorizar seus interesses estratégicos sobre seu sentimento de vingança, entenderá que deve desperdiçar a oportunidade de humilhar os norte-americanos. Será uma boa ocasião para ver se o Talibã pensa em seus interesses a médio prazo.

Biden pode ter que carregar o peso desse desastroso final durante todo o seu mandato, mas talvez esta seja, justamente, uma das funções de sua presidência: pela idade (completa 79 em novembro, e terá 82 no próximo ano de eleições presidenciais), seria estranho se ele concorresse a um segundo mandato. Esse fato inusitado, de um presidente que se elegeu com a proposta de cicatrizar as feridas deixadas por Trump, pela pandemia, pelas crises da década passada, é o que dá a ele a oportunidade de fazer ações como essa, sem calcular os efeitos em sua imagem pessoal. Se olhamos apenas a foto de Biden e da fuga estadunidense do Afeganistão perderemos o resto do filme. Esses eventos confirmam o fracasso do PNAC (sigla do Project for the New American Century, ou “Projeto para o Novo Século Americano”), o think tank que promoveu as políticas neoconservadoras iniciadas pelo governo de George W. Bush, sob o comando real de Dick Cheney (então vice-presidente), para manter a hegemonia dos Estados Unidos no mundo.

As duas primeiras décadas do Século XXI foram para os Estados Unidos um período para consolidar a estrutura com a qual pretendiam garantir sua posição dominante no planeta por mais cem anos, e se unirmos o Império Britânico a essa linha do tempo ideológica e cultural, poderíamos dizer que o mundo permanece sob hegemonia anglo-saxã desde o Século XIX. No ano 2000, tudo parecia favorecer os Estados Unidos: a União Soviética não existia mais e a Rússia era um rival fraco; a América Latina permanecia domada pela onda neoliberal e até a China servia de fábrica para terceirizar sua produção, baixando os custos. Eles tinham um domínio avassalador sobre o resto do mundo, do ponto de vista militar e financeiro, mas sobretudo tecnológico: esses foram os tempos em que a Internet e o Nasdaq deram origem ao tecnofetichismo e à economia californiana. O que poderia dar errado?

Duas décadas depois, a Rússia recuperou seu espaço no cenário internacional, a América Latina teve experiências diferentes, de governos de esquerda e até a União Europeia, aliada incondicional dos Estados Unidos, tem moeda própria e marco institucional sem a presença paralisante do Reino Unido. Nenhuma das guerras em que os Estados Unidos embarcaram, direta (Afeganistão e Iraque) ou indiretamente (Síria e Líbia) serviu para beneficiar os interesses que as impulsionaram. A economia mundial entrou em colapso em 2008 devido a uma crise financeira originada nos Estados Unidos. A liderança tecnológica e comercial a nível mundial já é compartilhada com a China, país que passou de fábrica do mundo a um dos principais eixos do futuro multilateral.

Enquanto os Estados Unidos colecionam indícios de um sério declínio, externo e também interno –visível, por exemplo, na derrota em Cabul, mas também no vexame do Capitólio –, a China navega em uma curva ascendente, que não está isenta de problemas, e mantém algo muito mais importante: um rumo. Não se trata tanto de comparar os indicadores econômicos entre as duas potências, a capacidade militar, a influência diplomática, o vigor comercial, a estabilidade interna ou a legitimidade institucional. Em todos esses pontos, porém, a balança começa a se voltar para o lado chinês. Enquanto os Estados Unidos parecem ter perdido a bússola, o país asiático possui um plano que vai muito além das ocupações militares e da especulação financeira. Por isso a dúvida: como passamos do fracassado PNAC à nova filosofia de desenvolvimento chinesa?

Enquanto isso, a maioria da mídia ocidental presta atenção excessiva até mesmo às anedotas mais insignificante de seus líderes, ignorando as questões importantes que orientam suas políticas. Por isso, quase todos negligenciam a mudança substancial que deve ocorrer na China com a extensão do mandato de Xi Jinping, o sétimo presidente da República Popular. Uma mudança que não afetará apenas o país asiático, mas terá ressonância mundial. Essa nova configuração, que começa especificamente com o 14º plano quinquenal (2021-2025), está baseada em alguns princípios orientadores que a Qiushi, a revista do comitê central do Partido Comunista da China, descreveu em sua última edição, publicada durante recentemente.

“Compreender a nova etapa: filosofia e dinâmica de desenvolvimento”, este é o título do documento que reúne as palavras de Xi Jinping, algo que ganha significado especial no ano do centenário do Partido Comunista da China. Após os marcos descritos – o início da Revolução de 1949, que deu ao país a soberania perdida após a Era Colonial; a Reforma de 1978, que transformou sua economia de agrária em industrial; e o Plano Integrado das Cinco Esferas, em 2012, que constituiu a China de hoje –, uma “sociedade moderadamente próspera”, como descreve o presidente, é convocada a dar uma guinada social, buscando atingir, até 2035, a fase que ele denomina como “modernização socialista”. Logo, em 2050,a China chegará ao patamar de “país socialista moderno”, segundo essa previsão. Xi explica os próximos passos usando um provérbio chinês, o que é outro de seus costumes: “não importa quão vastos o céu e a terra sejam, as pessoas sempre devem vir em primeiro lugar”.

Muitos países têm suas próprias agências de estratégias e documentos apresentando suas perspectivas. A diferença é que enquanto o Ocidente as mantém como um guia de como o futuro deve ser – geralmente baseado nos interesses dos poderes financeiros –, na China elas constituem uma doutrina a ser seguida em todo o aparato estatal e pelo Partido Comunista. Essas mudanças “centradas nas pessoas”, segundo a definição de Xi, farão com que “a taxa de crescimento do PIB não seja o único termômetro do sucesso”. Ao contrário do que se pensa, na China, as autoridades assumem as fortes desigualdades sociais, bem como a introdução da economia capitalista dentro do sistema socialista, entendendo que o seu percurso exigia primeiro um desenvolvimento das forças produtivas antes de dar o próximo “grande salto adiante”. Xi Jinping cita tanto Mao Tsé-Tung e quanto Deng Xiaoping, almas políticas contraditórias do comunismo chinês e da evolução histórica do país. Um foi o pai revolucionário, o outro foi o presidente reformista. Podemos lê-lo, a partir do nosso presente, como uma conjugação a posteriori, ou também como a verificação de um terceiro caminho, produto dos dois anteriores, para fazer o projeto avançar.

“As pessoas anseiam por uma vida melhor, nosso objetivo é ajudá-las a alcançar esse objetivo, e devemos seguir inabalavelmente o princípio da prosperidade comum…Não podemos permitir que a distância entre ricos e pobres continue crescendo”, disse Xi Jinping. Além dos princípios socialistas igualitários, algo que o documento não hesita em afirmar, lembrando a ideologia marxista pela qual o Partido Comunista é governado, a verdade é que os líderes chineses sabem que a desigualdade territorial e a desigualdade de classe são duas das fragilidades do país, e também potenciais elementosde desestabilização. Se há um princípio que baseia o pensamento tradicional chinês é o da busca do equilíbrio. Na verdade, Xi Jinping cita a União Soviética em uma parte do documento, como o primeiro país socialista de sucesso, mas que “entrou em colapso porque o Partido Comunista Soviético se separou do povo e se tornou um grupo de burocratas privilegiados”, algo que deve ser lido, mais do que como um simples nota histórica, e sim como um aviso aos seus camaradas do presente.

O novo desenvolvimento em direção à prosperidade comum não deve ser “um slogan vazio, mas um fato concreto”, diz Xi. Aqui, o documento vai dos princípios e da teoria às questões práticas. Chama a atenção, por exemplo, o apelo constante à ecologia, pressupondo o esgotamento dos recursos e do modelo de produção: a solução se levanta por meio da inovação científica aplicada à energia. Outro alerta, evocando a pandemia, é o do cuidado com as cadeias de abastecimento e alimentação, como principal ponto para evitar a desestabilização de um país de quase 1,4 bilhão de pessoas, mesmo nas adversidades mais inesperadas. Emprego, saúde pública e evitar grandes saídas e entradas de capital estrangeiro são outros aspectos considerados essenciais.

O coronavírus não tem muita presença no documento, mas é nomeado especificamente ao lembrar que a pandemia levou a uma “introspecção internacional”, que já existia antes desse evento, como uma “reação contra a globalização e ajustes profundos nos padrões de circulação na economia internacional”, em clara referência à guerra comercial travada por Trump. Uma guerra que também está presente nos “gargalos tecnológicos”, mencionado como um obstáculo para a conquista da soberania técnica,pela qual o país poderia dispensar componentes originários do Japão ou dos Estados Unidos. A busca de um “alto nível de autossuficiência”, por meio de uma “reforma estrutural da oferta”, e de uma “expansão da demanda interna”, visa tanto servir de estímulo ao bem-estar geral quanto prevenir os prejuízos que possíveis sanções ou o fechamento dos mercados ocidentais podem causar à sua economia.

O documento assinado por Xi Jinping não faz referência a qualquer mudança no aspecto político, onde o partido único continua sendo a garantia do futuro do país, segundo o presidente. Quanto às acusações de repressão, chama a atenção o fato de que o texto carece totalmente de linguagem punitiva ou de disposições relativas à dissidência interna. Uma referência velada ao grupo étnico uigur fala em respeito às minorias, e o caso particular de Hong Kong não é citado explicitamente, apesar de um parágrafo afirmarque “medidas enérgicas serão tomadas contra atividades criminosas que afetam a vida e a propriedade, para garantir a estabilidade social”.

A nova filosofia de desenvolvimento chinesa surge em um momento chave para o país, após a superação da pandemia que se originou em Wuhan, mas não só isso: também se apresenta em um momento de declínio dos Estados Unidos, em contraposição ao fracassado “Projeto para o Novo Século Americano”, aquele impulso neoconservador que estabeleceu as bases para o trumpismo, mas que, por outro lado, os governos democratas de Obama (e, por enquanto) de Biden não conseguiram superar com um projeto alternativo próprio. Será que essa nova trajetória chinesa provocará uma reação norte-americana no estilo do New Deal? Ou, pelo contrário, agravará ainda mais as relações entre os dois países? O resto do mundo está esperando os próximos desdobramentos, enquanto observa esta época de mudanças, e esta mudança de época.

*Publicado originalmente em 'RT News' | Tradução de Victor Farinelli



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