Poder e Contrapoder

EUA cooperarão com países independentemente do histórico de direitos humanos, diz Pompeo

Secretário de Estado dos EUA divulgou o grande segredo que todos já sabiam sobre a política externa dos EUA: que, quando se trata de relações internacionais, os interesses econômicos têm maior peso que as questões humanitárias

17/03/2019 17:01

(Andrew Caballero-Reynolds/AP Photo)

Créditos da foto: (Andrew Caballero-Reynolds/AP Photo)

 

Os Estados Unidos vão cooperar com qualquer país do mundo desde que isso sirva aos interesses estadunidenses, independentemente do histórico de direitos humanos desse país, disse o Secretário de Estado dos EUA Mike Pompeo na quarta-feira, dia 14 de março, sendo um comentário incomumente direto e franco sobre a política externa estadunidense.

“A política deste governo é de se relacionar com outros governos, independentemente de seu histórico, se isso favorecer os interesses dos EUA”, disse Pompeo quando introduzia o relatório anual do Departamento de Estado sobre práticas globais de direitos humanos. Ele adicionou, entretanto, que o Departamento de Estado reconhece que os interesses estadunidenses são melhor contemplados por nações que respeitem os direitos humanos.

Encontrar o equilíbrio entre uma abordagem pragmática e realpolitik para as relações exteriores e um papel autoproclamado de vigilante global dos direitos humanos tem sido um problema central da política externa dos EUA há gerações, uma vez que a realidade das relações internacionais demonstra que as duas prioridades nem sempre coincidem.

As ligações dos EUA com a Arábia Saudita são provavelmente o exemplo mais notável: o presidente Donald Trump firmou um enorme acordo armamentista de 110 bilhões de dólares com Riade, que, obviamente, ele teve que defender depois do assassinato de um saudita dissidente, o jornalista Jamal Khashoggi. A China é outro grande parceiro de negócios dos EUA, ainda que Washington continue a criticar Pequim pela forma como trata a população uigur e pelos problemas de liberdade de expressão.

Historicamente, entretanto, a confissão revolucionária de Pompeo não é revolucionária de forma alguma. Na verdade, é uma extensão lógica da chamada Doutrina Mann, formulada por Thomas Clifton Mann em uma conferência para todos os embaixadores dos EUA na América Latina em 1964. De acordo com essa doutrina da Guerra Fria, os EUA tomaram a decisão de não intervir em Estados comandados por ditadores, desde que servissem aos interesses econômicos dos EUA e não cooperassem com os comunistas. Basicamente, Mann priorizou os interesses dos EUA em detrimento dos valores políticos e do histórico de direitos humanos.

“Ele anunciou que os países da América Latina agora seriam avaliados com base em como promoviam os interesses dos EUA, e não os de seu próprio povo”, diz, sobre Mann, o livro de 2012 “A História Não Contada dos Estados Unidos”, de Oliver Stone e Peter Kuznick.

A única diferença é que o discurso de Mann seria supostamente um segredo, enquanto que Pompeo afirmou a intenção em alto e bom som.

Na verdade, esta política pode ser acompanhada desde o século 19 com o primeiro-ministro britânico Henry John Temple, o 3º visconde de Palmerston, que, apesar de ser um contexto um pouco diferente, disse que as nações não têm amigos ou aliados permanentes, somente interesses permanentes.

A natureza geral artificial dos problemas de “direitos humanos” tornou-se evidente com o relatório apresentado por Pompeo na quarta-feira. Por exemplo, o arquivo sobre a Rússia cita numerosas violações que, para falar francamente, simplesmente não são verdadeiras.

Por exemplo, o documento acusa a Rússia de “severas restrições na liberdade religiosa” e “banimento da anonimidade online,” entre outras maldades. Na Rússia, qualquer pessoa pode ser de qualquer religião sem repercussões; entretanto, as agências de segurança nacional russas de fato realizaram uma repressão massiva de centenas de seitas autoritárias destrutivas entre 1999 e 2010 que enganavam pessoas para que dessem seu dinheiro e propriedades a “pregadores” autodeclarados. Já em relação à “anonimidade online,” os cidadãos precisam fornecer seu número de celular para obter acesso a redes públicas de Wi-Fi, o que não os impede de se engajarem em comunicação anônima em websites de troca de mensagens.

Assuntos de direitos humanos serviram bem a Washington como pretextos para intervenção ou pressão política contra certas nações quando os EUA consideravam isso vantajoso. A notória intervenção da OTAN na Iugoslávia, que levou à destruição do Estado multilateral, usou como pretexto a “limpeza étnica de albaneses”. Mais recentemente, autoridades dos EUA voltaram seu foco a nações como o Irã e a Venezuela, porque fazer isso alinha-se com as atuais prioridades de política externa de Washington.

Obviamente, essa conveniente ferramenta de política externa torna-se um problema quando interesses de negócios são a prioridade, e Pompeo finalmente disse o que todos estavam pensando.

*Publicado originalmente em sputniknews.com | Tradução: equipe Carta Maior

Conteúdo Relacionado